domingo, 22 de novembro de 2009

Para ler

- Não acredito que tu não conhece o "Soneto da Fidelidade", de Vinicius de Moraes... ! - exclamei.
- Não, não conheço. Nunca me interessei por essas coisas. Não tenho sensibilidade pra isso. - respondeu-me ele.
- Até quem não conhece Vinicius de Moraes, sabe que o Soneto da Fidelidade é dele. - retruquei.


Engraçado como, sem querer, uma pessoa passa a ser um lugar de felicidade, abstração. Naquele corpo eu me sentia mais do que em casa. Me sentia num lugar desconhecido, porém, bom. Estava num limbo de felicidade. Eu era Madalena no corpo da Virgem Maria. Hoje eu sou o que é o corpo que me completa. A minha casa fora-lhe aberta sem querer, e, querendo, dei-lhe tudo o que podia - e até o que não podia. Ele me é, eu o sou. Nós somos dois corpos em um. Somos um em dois corpos. Já não sou Virgem, nem Maria, nem Madalena. Eu sou o que não sou mais. Sou o que já não sou.


- Fica comigo pra sempre? - pedi-lhe.
- Fico.- concedeu-me ele a felicidade.
- "Soneto da Fidelidade", (...) - recitei-lhe com o amor transbordando por cada poro do meu corpo, em cada letra verbalizada.

sábado, 21 de novembro de 2009

Fica (ponto final)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Für Wagner

João Pessoa, 17 de novembro de 2009
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Estimado e querido amigo,
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Com um cigarro entre os dedos - sei que odeias - e os dedos, junto com o cigarro, traçando (ou esboçando, como queiras) palavras, hoje, escrevo-te sobre tu mesmo. Tu, em mim. Escrevo sobre ti, para tu mesmo. E pra mim - e nossa amizade.
...Começaste a falar-me assim: educado. Minha querida, como você está? Respondo-te, embalada pelas harmônicas notas musicais de Chopin: melhor do que nunca, e do que sempre. ...Os noturnos ainda vibram por dentro da minha pele. Contrariamente à Nietzsche, e, pelo menos até este momento, exatamente este momento, não encontrei nenhum motivo para odiar-te, depois de adorar-te tanto. Verdade que gostas muito da leitura nietzscheana?
...E tu, como estás? Enamorado, sim? Hoje, enfim, posso e consigo confessar-te um fato: encontrei-me na situação em que realmente me encontro - ênfase no "me". Nesse novo amor me encontrei encontrada. Me encontrei encontrada. Encontrei-me.
...Conta-me mais de ti, da tua nova mulher. Da tua nova paixão fugaz. O que pensas deste mais novo amor teu? Tu, que te apaixonas tão facilmente, e com a mesma facilidade esqueces quem juraste amar alguma coisa. Ou coisa alguma. O que te atrae tanto nesta? Quão forte é o olhar dela? E seus gestos, de que modo te encantam?
...Chego a pensar que não sou um, e sim metade de dois. E eu cheguei à conclusão de que não sou um, e sim, uma metade. Tenho sido metade por toda a minha vida - e ainda sou -, só que hoje, ah, hoje - e quiçá para sempre - ele me completa tanto, tanto! Sou metade, e ele, quem satisfaz todo e qualquer vazio dentro de mim; ele, que me completa - sem retirar de modo algum dessa completude a questão anatômica.
...Às vezes penso que estou ridícula, como já te disse. Não necessariamente sou, porém, estou. E, veja bem, não quero mais deixar de estar ridícula. Sinto que quero ser - e não mais estar - ridícula para sempre. O advento do amor faz-nos isso: ser ridículo aos olhos dos outros. Sorte a minha que não me importo em ser bem vista aos olhos alheios - alheios de tudo e até deles mesmos.
...Por que já não escreves mais? Onde está a carta que me prometeste enviar pelo correio? Por que já não me envias mais teus escritos - que a despeito do que pensas, escrever bem demais - ? Como anda tua relação com a vida - e com a morte? Por que tens passado ultimamente? Aliás, tens lembrado do teu passado?
...Aqui faço-te outra confissão: nunca esperei ser uma necessidade na tua vida. Nem sequer cheguei a imaginar tão feitio. Não, eu não sumo. E tu não escreves porcaria - se assim fosse, tu mesmo serias uma porcaria. E não o és.
...Alegrou-me muito ser prioridade mesmo que por trinta segundos. Espantou-me um pouco, não posso deixar de dizer-te, mas hodiernamente tenho constatado que toda alegria vem acompanhada por um espanto - e medo. Nunca consegui escrever-te, no mínimo, um esboço do modo como eu te vejo. Porém, vejo-te? És, realmente, o que vejo? És-te? O que és tu? Como me vês? Sou-me - ou me sou?
...És, para mim, intexterível. E não faço ideia do que é intexterível. Inventei o termo. Invente o significado, então. Intexterível é o que és. O que não dá para fiar em palavras. Textear - numa alusão à têxtil.
...Gostas de Liszt?
...Quando eu tenho amor por alguém, essa pessoa passa a estar debaixo da minha pele, e assim, faz-se-me necessário a presença dela dentro de mim, mesmo que seja uma presença ausente. Isto posto, a necessidade faz as suas vezes de amor. Sendo um componente íntegro de um ser humano, faz-se necessário tal presença. Necessidade é amor - e, na falta desta, caso de vida ou morte.
...Como vês o amor - ou melhor, como pensas que o amor te vê?
...Que fique registrado através desta - e até em ti -: quero casar-me com ele. Nunca imaginei-me proferindo tais palavras, e no entanto, encontro-me dizendo-as com tamanha conviccção e, principalmente, vontade!
...Queres casar?
...Encontro-me romântica - e sonhadora. No fundo - aqui e ali, anatomicamente falando - há uma vontade latente de juntar-me a ele, de vivermos fundidos um no outro. Eu e ele.
...Desejo-te um bom dia de descanço - de tudo. Dê-me notícias, sempre que puderes.
......................................................................................Necessita-te,
.........................................
......................................................................................H. H. T. F. P. P.
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P.S.: Ainda me és intexterível.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

In certezas

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E se eu disser que quero casar-me com ele?
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Como as letras de uma máquina de escrever

- E se eu disser que já não consigo escrever? Que já não posso escrever - e nem sei se devo? A minha vida é torta. É agridoce. É tudo - e nada. É ácida. Era errante pelas calçadas, era certeira no erro. Sempre houve em mim o preenchimento de ser preenchida. Pré-enchida. Pré-enchida. Pré-enchida. Pouco a pouco, um dia, talvez, quem sabe, eu seja feliz. Para cada baque, uma dose de alegria. É de se estranhar qualquer felicidade, imagine só uma felicidade gorda. Absorvo tudo aquilo que me for útil. Não guardo em mim apenas as coisas boas, mas sim tudo que o que me for útil, que nem sempe algo ruim deve ser considerado inútil. Toda inutilidade no fundo tem um desígnio: ser utilmente inútil. Do amor, eu guardo o desamor. Do desamor, desaguo-me em outros mares, outras almas. Nas outras almas, quiçá, encontre eu o amor. Ou me encontre o amor. A minha vida é torta tanto quanto as letras num papel branco quando escrevo com a minha Olivetti vermelha.
Tudo que me for inútil eu jogo fora, fora de mim. Um fora dentro, mas fora. Minha vida já foi uma torta suculenta de chocolate, propositalmente posta pra fora do estômago - meu estômago, querido estômago, que tantos etílicos já aguentou. Já vivi várias vezes. Sobrevivi outras. Nasci outros tantos, e morri, morri muito. A mim, mataram-me aos poucos e enfim, por completa. E, semelhante à uma fênix, renasço. Renasço das cinzas. Não das minhas próprias, mas sim, das cinzas da vontade dos outros em matar-me. Y vuelvo. Levaram meu coração, meu sustento. Minhas palavras, meu tento. Deixaram-me só, comigo mesma - e só. Às penas. Deixaram-me a dor, deixaram que eu sofresse. Deixaram-me uma pena. Sem coração - sem palavras -, fiquei. Fiquei sem poder escrever, pois que com uma pena só não se escreve um romance, que sem coração não se faz amor. Pois que sem palavras não se faz um livro, que pena! Acabaram-me a vida em tudo o que me era vida. Que me dava vida. Tudo o que eu era ávida por. Nessa vida eu morri várias vezes. Incontáveis vezes. Morro em vida. A cada segundo morro - em cada próximo segundo nasço novamente. É a minha vida parindo-me em vida. Sou eu parindo vida de dentro de mim - e pra mim. Eu diferente, eu-nunca, eu-sempre, eutudo, eunada, eutriste, eu alegre, eu-flor, eu-espinho. Como uma fênix, renasço. Renasço das cinzas. Renasço das cinzas de um cigarro - no próximo trago -, em um novo gigarro, renasço. Sempre e cada vez mais forte volto das cinzas da vontade daqueles que tentaram matar-me em vida, das intenções mortas junto comigo daqueles que em mim as objetivaram. Eu. Sempre viva e sempre morta, às vezes moribunda, mas sempre alguma coisa, mesmo que nada. Minha vida é torta. Não-linear, não-retilínea - infinita. Minha vida tenta dar vida à vida. Sentindo muito por essa vida sem sentido, essa vida de sentir - e só sentir. Consentir. E com sentir, fiz de mim o meu maior refúgio. Meus pés meu através, minha mente o meu caminho. O meu destino: eu. O dia em que me encontrar, sossegarei essa minha viagem terrena. O dia em que me encontrar será o dia em que não mais me esconderei, não mais me refugiarei dentro de mim. Nesse dia, enfim, me libertarei. Sairei do meu refúgio dentro de mim para morar em mim mesma - e assim, morar em qualquer lugar. Eu serei a minha própria morada. Minha morada própria. Darei a mim mesma o maior presente que poderia receber: a liberdade de ser o que sou. A liberdade de ser o que estou sendo, ou estou pra ser. A liberdade de ser. Ser. Estar sendo, pois que não somos, e, sim, estamos. A liberdade de estar. Estar.
Minha vida torta agridoce, minha tortura ácida - e doce. Eu, torta: inclinada à ousadia, à vontade de transcendência de mim mesma. Eu tentada à tentação de tentar e atentar. Eu (vi)vendo tudo o que há para (vi)ver.
Dizem por aí que deus escreve certo por linhas tortas.

domingo, 1 de novembro de 2009

In possibilidades









E se eu disser que já não consigo escrever?












sábado, 10 de outubro de 2009

Sobre o amigo do melhor amigo do homem

- Adão e Eva desfrutaram a árvore tirando-lhe uma maçã. Ele era vidrado em vira-latas. Não só em vira-latas, mas também na plantinha do bem - do caminho do bem. Daquele corpo de gigante, de gigante nada tinha - a não ser a bondade e inocência. Acreditava em um mundo colorido, no altruísmo e culpava o capitalismo por todas as mazelas mundanas. Nem deveria ter conhecimento sobre, porém, via-se-lhe estampado na cara a máxima rouseauniana: "o homem nasce bom e a sociedade o corrompe". Imaginava-se dirigindo uma combi antiga e colorida, cheia de pirralhos hiperativos e uma mulher que supostamente haveria topado sair de viagem por aí, tendo filhos adoidado e fumando muitas plantinhas do bem. Ele, sempre que punha os pés na rua, ansiava por um rabinho canino abanando pra lá e pra cá. E naquela noite não haveria de ser diferente. Às vezes consigo levava ração para atrair esses animais. Era um cara peculiar, caricatural até. Saíra de casa numa fuga bucólica pelas ruas da cidade, pelo álcool alheio, trilhando o caminho deixado pela fumaça das folhinhas da paz, decidiu resolver os problemas do mundo apenas com a bondade proveniente do seu coração, que, mesmo enorme, mal sabia ele não ser o bastante. Tinha os cabelos encaracolados e com sua altura de gigante, provavelmente nem sequer conseguia ver seus próprios pés e por isso nunca se deu conta de que se quisesse subiria num piscar de olhos o pé de feijao do João - e se houvesse dado conta disso, teria na certa, sim, buscado um pé de feijão dessa magnanimidade para subir. Felizmente, ou infelizmente, não se sabe nem se saberá, sua altura lhe dificultou perceber que era uma criança no corpo de um homem. Levava consigo ideologias praticamente utópicas e muito filme pra gastar. Sentou-se na última mesa do bar, estirou as duas pernas, observou o ambiente com um olhar vago e vagaroso. Acendeu um cigarro, que saltou da sua imagem por não combinar. Era uma mão a parte, segurando um objeto fumacento. Achava legal fumar. E lá vinha o cachorro, cambaleando como um bêbado, farejando loucamente como quem fantasia copular, levando na cara uma expressão faminta de mendigo atrás de comida, uma boa comida. Uma boa cadela, ou uma boa perna. Via-se-lhe na cara a felicidade com que recepcionava o cachorro. Estava à tua espera, dizia seu sorriso, demoraste. Com um faro tarado, uma cara esfomeada por compaixão, a língua a transpirar, o canino achara onde descansar e ali ficara a deleitar-se no afago das mãos do bondoso gigante, esse mesmo, que com as mesmas mãos que afagara e saciara a vontade do canino, voltou pra casa e terminou a noite por masturbar-se. Que nem os inocentes estão isentos de desfrutar de uma boa safadeza.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Carroça


Guardei de você

as coisas mais bonitas

dentro de mim

- que não pude te dar.



E eis que hoje descanso

de um dia por ti

e por outros

muito amor nas costas levar

- e o coração sentir.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cruz na porta da padaria

ando meio desiludida, procuro as coisas e não acho o que procuro.
procuro muito esquecendo-me em muitos copos e corpos, esquecendo que
às vezes
procuro não encontrar.
esquecendo que às vezes, as vezes que me procurei nunca achei.
procuro em mim as borboletas que um dia habitaram em meu estômago.
já não as encontro:
o álcool afogou-as todas.
exceto uma.
pobre borboleta, tanto espera,
larga esperança.
a minha borboleta estomacal é verde, bem clara e viva: é uma esperança.
procuro minhas utopias e não as encontro,
asfixiou-as todas o cigarro.
é nisso que dá depositar utopias em seres de carne, osso, dois olhos e duas pernas.
já meio sem rumo algum e sem caminho,
deparei-me comigo mesma travestindo a alma de
equilibrista.
recuperei meu edredom do tempo de criança. recuperei nessa colcha
a minha criança perdida e revoltada que decidiu fugir de casa e foi pega no ato,
no alto da primeira ladeira que subiu - a coragem e perseverança
que naquela ladeira deixei.
pelas estradas revivi oceanos de despedidas que permeiam minha vida
desde minhas outras vidas.
andando sem ilusão, como a realidade, e de tanto alimentar-me de realidades,
as cores em mim escureceram.
como a utopia dos visionários de todos os tempos, estereotipados surreais, loucos.
alimento-me daqueles que foram loucos, e das suas loucuras e das minhas,
faço a minha realidade.
a minha realidade surrealmente real, como a utopia.
eu como a utopia, esse é o meu sustento.
esse é o meu tento, meu teto - sem teto.
trilhando ruas e ruas pelo meio-fio,
dançando conforme pede a ocasião,
ultrapassando os limites hipócritas dos que aqui vivem,
dei de cara e corpo com a padaria.
a tabacaria deixei-a pra trás.
não sou nada, nunca serei nada mais que nada, e desse nada que sou
e nunca deixarei de ser:
sou tudo, serei tudo.
olhei pro padeiro, observei-o durante alguns poucos segundos e, sem ponderação alguma, disse:
me dá um sonho.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A propósito de Isabel

O nome dela não, mas seu codinome é Isabel.
Chegou sorrindo sorrateiramente o seu sorriso aberto. Sorrindo assim entrou no meu cotidiano. Compartilhou comigo nossas vidas duplas, de quem mora em duas cidades ao mesmo tempo, ainda que majoritariamente morando na cidade de praia. Porra... louca! Isabel comigo bebeu litros de cevada, correu de muita cilada e me amparou de muitas portas fechadas. Deixou minha vida dourada e sorridente, deixou minha vida mais preta. Ela carrega a cor do suspiro dos gringos em terras brasileiras - ela tem a cor do suspiro e desejo de qualquer homem. Consigo carrega também um mar de vida naquele sorriso, tem história de mulher de 30 anos, tendo apenas 17. Porra louquinha: amou, chorou, fumou, bebeu e fodeu. Fez tudo o que se podia fazer enquanto aproveitava os restos de um amor que nunca lhe fora dado por inteiro. Amou porque tinha que amar, chorou porque amou, fumou porque já fumava, bebeu porque teve vontade, fodeu porque quis prazer - com amor. É foda foder. Depois de um pseudoadubeiro de orquídeas ela desandou prá frente e viveu 10 anos em 9 meses. Conheceu o que nenhuma boa moça de 17 anos conheceria antes de se casar e enfim sair de casa. Nesses nove meses empanturrou-se de Marx e estigmatizou-se comunista. Comunismo? Fala com Isabel! À essa, que tem vergonha de (quase) tudo, falta-lhe, agora, ser mais uma sem-vergonha, como todo mundo - e aproveitar a vida como poucos. Isabel é medrosa quiçó! Dá grito por qualquer coisa e cala por amor. Nesses últimos tempos, mal percebe ela, o amor tá sendo qualquer coisa. Quando se lembra do Rio de Janeiro, Isabel se veste lirismo e começa a falar daquela cidade e de quem hoje lá mora. Chora, pondera, sonha - sofre - caladinha até quando lhe perguntem - assim, com sutileza, delicadamente - o que aconteceu. O problema é que não aconteceu nada desde então, e depois que se fora, aconteceu muito. Isabel procura, então, uma resposta, e não a encontra. Percebi que depois d'ela estudar tanto o comunismo, de beber tanta cerveja, de fumar tantos cigarros capitalistas, depois de tanta contradição nesses últimos dias, Isabel deveria prestar mais atenção nos fatos: seu coração tá virando um Estado comunista, os homens de sua vida agora tornando-se todos iguais - nenhum se destaca. Nenhum se sobressai, é esse o seu grito abafado: nenhum se sobressaiu, nenhum está se sobressaindo no seu coração. A loucura dos últimos tempos virando rotina, todo o incomum virando comum e o amor banalizando-se. Nada, atualmente, se sobressai, e no âmago daquele sorrisinho malicioso e safado, há muito romantismo. Isabel nesse momento dorme - enquanto escrevo. Tinha medo de Isabel usar adubo para orquídeas, porém, agora estou mais despreocupada, percebi que ela tem o sorrido mais malandro que já vi, de uma brancura que não precisa ser mais branca do que já é. Isabel teve sua dose de morfina e foi dormir, pobre menina, deveras cansada estava. Cansada de um final de semana louco e intenso, cansada do cara da orquídea, cansada até da vida que leva, cansada de tanto amor, Isabel agora dorme. Dorme como uma mocinha de 17 anos, aquela que só vai viver depois de casar, que é totalmente o oposto da menina que agora dorme, descansando do peso de muito amor levar. Como que pressentindo o tateado por cigarro, o movimento dos meus dedos e conseqüentemente a formação de palavras, Isabel, mais dormindo que acordada, diz: Tenho medo, velho.

- De quê? - pergunto-lhe.

- Sei lá. - responde e, pigarreando, volta a dormir.

Eu sei de quê. De quando. De quem. Dos porquês. Posso ver a resposta por trás desse teu sorriso maroto; por trás das minhas cicatrizes. Eu sei, bem sei, meu bem.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sobre o Estado em que vivemos

- Foi num domingo que eu descobri que iria sentir falta. Naquele bar de sempre. Aliás, descobriram por mim. O garçom do bar fez-me esse favor. Essa semana tudo foi assunto; essa semana ela caiu no assunto - quase como todos os demais cairam. Foi instantâneo lembrar de Frida, uma carta e muita solidão compartilhada - a cada milésimo de segundo. Falei sobre as costas espinhentas daquele rapaz; daquele outro mencionei o blues; do recente calei. Muitas críticas e poucas melhoras: a gente não quer mudar, a gente quer saber algum defeito - que perfeição já tá virando impropério. Muitos pastéis no Tororó, um bar na praia que costumamos ir, muita música e muito ver o sol nascer primeiro nessa praia do que em qualquer lugar das Américas. Foi muito Chico Buarque, muita fossa, confissões e mais. Todo mundo querendo abstrair a malícia da vida saindo pra rua, vivendo a rua, compensando na rua o que não se consegue fazer em casa. Na rua, mais exatamente no bar, afogávamos o nosso niilismo existencial na cerveja, no vinho. Temos sido tão loucos, tão sóbrios. Mais que errado está quem disse que a embriaguez nos tira do estado de consciência. Somos todos racionais - e toda racionalidade é movida por algum sentimento, por mais implícito que ele esteja. Na embriaguez encontro minha sobriedade. Estamos perdendo muito tempo, muito dinheiro. Ganhando muitos amigos, comprando muitas cervejas. Conosco a vida se fez dependende do corpo, da carne. A alma desprendeu-se, a nossa visão agora abrange o universo. Engolimos as mazelas da vida, sopramos os restos, tragamos do bom e do melhor e viajamos pr'onde der na telha. A nossa cidade é internacional, comungamos à vida com orgias enquanto outros o fazem com pão e vinho. A carne virou lei. Alma agora é utopia. Viva enquanto houver vida. Vida à viva! Pois que muita gente passa a vida morrendo - pra viver esperando a morte. A morte? Quem disse que vamos morrer? O que é morrer? Nessa vida já morri tantas vezes... A morte tem vida própria. Há vida na morte, chacinas na vida. O que diferenciaria a vida da morte? Postulamos que o mundo é ilusão, que as instituições são valores "facultativos" a serem seguidos; postulando agora que o cenário internacional em que vivemos é anárquico: ser carne é nossa lei. A gente quer viver até o que não se pode viver. As medidas são relativas: não há medida. Tudo é relativo, então "tudo é relativo" é relativo. Aqui nosso Estado é o estado de ânimo, aqui mora a lucidez em forma de loucura. A loucura da lucidez - pelo avesso. Aqui a gente tem muitos amores, mas a gente quer apenas um.

Baseado em fatos reais.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A boemia de casar por aí

- Após o mês de julho com toda a melancolia e tanto catarsear numa máquina de escrever vermelha que depois de muito pedir meu pai me deu, e acabar com a tinta da fita da máquina e da melancolia; despertar-me da minha solidão comigo e amenizá-la com outros: enfim chega agosto com suas lembranças vívidas e vividas desse meu pedaço de vida. Un trozito de vida. Mês desgraçado, roubou meus dedos, deixou-me na chuva sem nenhum papel e muito o que sangrar. Afoguei-me em vários copos e todos eram rasos demais, atirei-me em vários corpos e todos eram mortos demais. Tudo era demais e tudo era muito pouco demais. Em agosto sou moribunda sedenta por hilos de sangre, farrapos de calor, corpos fugazes. Alegrias repentinas. Eu quero mais. Agosto de merda, trouxe consigo todo o passado que passado deixou de ser: virou presente, quis ser futuro: cortei-lhe com faca amolada na pedra do quintal da minha casa. À gosto de merda mais uma vez nos beijamos, nos despimos e nos abraçamos, e pra mim o abraço era infinito tanto quanto o tempo que voltaríamos a nos abraçar daquele jeito novamente. Redundantemente. Nos olhamos, te olhei tanto... e no teu olhar fugaz percebi-me analfabeta. Em agosto sou nômade pelas ruas: busco abrigo em corposlivros aparentemente confortáveis e prósperos, pulo o prólogo, aproveito e sugo todo o desenvolvimento, no fim ainda tenho sede, às vezes nevo e não floresço. Outras floresço, e o outro chove. A minha casa não controla seus ímpetos, tem muitas vidas e boa anfitriã, acolhe bem; foi um dia e vários outros dias mal cuidada e mal tratada e mal amada, mas continua de pé; a minha casa não tem medida nem limite e nem tem teto, mas possui um céu deveras estrelado. A minha casa abraçou e acolheu Vinicius de Moraes, Maysa, Frank Sinatra e Edith Piaf, e abraça Chico Buarque e José Saramago. A minha casa sou eu. E o dono dessa casa poderia ter sido um dos muitos corações que encontrei por aí, e que um dia habitaram dentro de mim. Poderia ter sido o teu, mas não foi. Não é. Essa casa tem dono, e o dono é o meu coração. Meu coração te deseja, mas já não te quer mais. Meu organismo te expulsa a cada trago de cigarro, a cada gole de cerveja, a cada vez que ouço teu nome, mesmo de brincadeira. E o tempo da brincadeira passou. Acabou de passar, virou tudo passado. Passado que espero nunca mais voltar, pois que tenho fome, venho da terra do sertão, da seca. Tenho seca em mim e tudo é pouco, o passado não alimenta. A minha casa agora é de barro. Eu hoje sou sertão, mas dizem por aí que um dia serei mar. E que esse mar, oxalá, não seja água dos teus prantos. Quer saber? E ainda que não queira: acabo de tomar uma decisão, ácida, como só ela poderia ser. Tomei-a assim, agora. Nesse exato momento degusto-a um pouco: corroe-me a garganta, o estômago e também o coração. Decisão: já não escutarei Chico Buarque pensando em ti.
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Decidi: esse mês eu te mato, à gosto.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Neoliberalismo sentimental

Caro coração,
Do copo que bebestes guardei o copo, teu abraço agridoce, tua saliva, meu pranto e teu corpo. Hoje deito-me num mar de espinhos, de águas salgadas caídas de um rosto. Meu corpo, meu rosto. A tristeza agudou-se, as palavras minguaram. Chegaste triste, saiste contente. Levaste de mim toda a alegria; que a felicidade em mim não existe. Tu Floripes, eu João dos Ais. Vens como a primavera: minha alma floresce na tua presença; vais embora e pouco a pouco volto a ser outono: morrem em mim todas as flores. Caem todas as folhas, todas as folhas passíveis de serem escritas. No copo que bebeste guardei minha mágoa, transbodando em cinzas. Domingo fui flor, hoje sou folha caída. Meu Estado é o meu estado de espírito e ainda me dói o sabor das tuas costas em minhas mãos. Encontro-me num estado agudo e obtuso de frustração: da dor da evasão das tuas palavras, dos espinhos das tuas costas no meu corpo, no meu coração. No meu corpocoração. Quantas vezes precisarei pagar uma morte pra renascer no teu amor? Caro coração...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Cicuta hedônica

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Por favor e com paixão,

Traga-me à vida pela morte

Dos sentidos extasiados.

Ávida, peço-te:

Traga o trago derradeiro.

Traga-me um cigarro,

Um cinzeiro.

Um copo de whisky,

Muito calor

E quatro pedras de gelo.

Apolíneo e dionisíaco,

Leva-me pra cama e...

Traga-me!


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quarta-feira, 29 de julho de 2009

ALITERAÇÃO

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a escrita faz
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a literatura,
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.....................escrever é
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a literatura
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.....................em ação,
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.....................estou escrevendo
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a literatura em ação,
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a literação.
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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Embora você foi

- Às 4h30 da manhã nunca se espera muita coisa, ou coisa alguma. De repente, vejo-me às voltas daquele dia, o dia em que começamos a namorar, mesmo sabendo que o namoro não iria durar muito - mas eu e você, sim. Olhei pela janela os 320km de estrada até você e percorri todo esse caminho nas folhas escritas de nós dois, folheei as páginas em sentido anti-horário: dois anos atrás. Lembro-me do nosso primeiro beijo, tua saliva misturando-se com a minha, essa saliva que está presente em todos os beijos surrupiados de minha boca - já não os dou, levam de mim. Lembro do surto de felicidade transbordando em lágrimas; das tuas mãos vindo em direção aos meus olhos, afastando qualquer coisa de ruim. Não era pra você ir embora. As palavras que viravam gestos, que apenas de gestos lembro... e um gestopergunta. Quer namorar comigo? Revirei as páginas do meu caderno preto de folhas brancas, quase inutilizado, tornei-o útil às 4h35 da manhã. Sonhei contigo. Me acordei com muita saudade de tu. Lembraste de um sonho que tiveste de nós dois, nessa hora estavas com ela? Ou comigo? Foste aquele que tirou a minha virgindade sem ter efetuado o ato, levaste-a sem saber - eu sei. Meu menino homem capiberibe, não me mate dentro de você. Senti amor, contigo fiz amor e guardo-o até hoje em meu coração - que ainda chora lágrimas de sangue verde vindas do encontro dos nossos olhos. Foi massa. Beijão. Espalhei tuas fotos pela cama... e dormi contigo. Eu nunca fui embora.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

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Acabando-me no cigarro
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..................e no tédio.
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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sobre uma menina acinzentada

- Atrás da prateleira de livros está minha maldição em estágio inicial. Um dia posso parar atrás de muitas palavras encadernadas, como essas da minha prateleira. Um dia sei que vou parar embaixo de terras que já não sentirei cheiro de molhado nem de flores, sequer sentirei calor, nem frio. E meu corpo estará frio. Tenho as unhas dos pés coloridas. Verde roxo verde roxo verde. Abri a janela do quarto, tenho uma vista cheia de pontos luminosos com orquídeas e árvores e um muro que me separa do mundo. Um muro que me prende aqui. Agora verde roxo laranja verde roxo, com um anel na unha verde do pé direito. Um anel de prata que veio de bem longe daqui, que atravessou mares pelos céus em meus pés. Pés que conheceram pessoas e ruas longíquas. Pero a mi me gusta todo en ti, todo. No hay distancia entre nosotras. ¿Ves? ¿Puedes sentir? Ahora recoge todo el pelo, está muy diferente. Llámame por la tarde. No sabes lo mucho que te quiero. O vento vai de lá para cá, de cá para lá. A casa da minha avó hoje (e não apenas hoje) tinha um clima estranho, frio. Havia um silêncio frio de segredos e blasfêmia e fingimentos do óbvio. A blasfêmia era eu. Eu-blasfêmia. Eu blas fêmea. Nunca senti nenhuma mão do além tocando a minha, nunca essa mão me levou a fé alguma, eu tenho fé, sim. Às vezes, tenho fé em mim. A minha religião? Minha religião tem unhas coloridas, um anel no dedo do pé e outro no polegar da mão esquerda, minha religião em construção. Mandaram-me construir um deus, e meu deus por enquanto é terreno. De vez em quando subia um cheiro de tênis molhado. Poderia ter usado qualquer outro, mas eu queria esse mesmo, um Bamba colorido que comprei por vinte reais. Fedia por causa de um banho de chuva que tomei quando usava ele, e hoje eu só queria usá-lo, mesmo sujo e fedorento, não me importava com isso, era colorido. Meus pés num tênis fedido e colorido e minha alma em preto e branco, fedida a cigarro, chuva e várias outras tormentas cientificamente desconhecidas. A fumaça agora entra e sai pela janela, escuto o estralo do fogo queimando o papel do cigarro. Caem cinzas no meu travesseiro, meu travesseiro-cinzeiro. Fumo o cigarro, e as cinzas sou eu. Tudo o que restou das labaredas de um fogo que nunca acendeu, mas que ardeu demais. Entre lençóis brancos e fronhas vermelhas, deito a cabeça no travesseiro e espero o vento me levar.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Edu cativo

sumir sair correndo sumir contigo a
120km de distância do perigo que
é
a (im)posição das aparências e eu

verei o
pôr-do-sol
contigo
sumirfugir porque eu preciso daquela
minhapaz que está contigo eu quero
é me completar vem vou me dá um

abraço

e vamos
voar
pardal só não bata nas paredes do seu
quarto pois que o caminho é longo e eu
ainda nem sequer comecei a transpirar

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pombos e pedras

- 14h e alguma coisa, a essa hora me acordei. Tava com vontade de ir ao centro da cidade, já havia protelado essa ida há quase uma semana. Alguém uma vez me disse que eu tinha que escrever mais, daí fui atrás de viver. Então, fui. O sol já tava perto de se pôr. Tentei pôr o sol dentro de mim, e fui. Éramos eu e a câmera analógica com um filme preto e branco que ganhei de presente. Não queria gastá-lo com qualquer coisa, né? Adoro ficar sentada apenas observando pessoas indo e vindo, ficar imaginando suas características, as personalidades, com o pouco que elas deixam a saber. Gestos. Expressões. Olhares. Roupas. Cores. Estava eu, lá, alheia, sentada na calçada, morrendo de medo de um pombo cagar na minha cara, ou pior, na lente macro da câmera, mas corria o risco. Gosto de correr riscos. E na falta de um de verdade, qualquer risco inventado me serve, afinal, tem o mesmo nome, pelo menos. Você é jornalista? Não. Até que gostaria de ser, pensei. Voltei a observar aquela reca de velhinhos sentados, conversando. Boinas e bengalas nas mãos. Adoro observar gente de carne já muito vivida. Lembrei-me de Ricardo, mas isso tal vez eu conto. Um dia, talvez. Tu faz o que? Tu fotografa por hobby? É, acho que sim. Eu gosto. Isso já é bom, né? Houve uma mudança de tom na conversa. Trocou-se o você pelo tu. E quando falou-se em fotografia, não pude deixar de lembrar o quanto eu queria aquele cara que tem uma câmera de lente de olho mágico perto de mim. No mínimo perto de mim. Os desconhecidos começavam a me abordar, e eu ali fazendo o mesmo, que não era apenas eu que sentia curiosidade nas pessoas alheias.
Minha filha, você não sabe o mal que está fazendo a você mesma! Ele me deu um tapinha nas costas como nunca alguém me havia dado antes. Dois tapinhas, deu até vontade de nunca mais dar um traguinho sequer de cigarro. Ah, mas eu não fumo muito, não. Um dia inventei de deixar. Não sei como não matei minha velha, mas parei há muitos anos, já. Como é o nome do senhor? O quê? O nome do senhor. Ah, é José alguma coisa Castro, primo legítimo de Fidel Castro. E riu. Riu e dirigiu o olhar para longe, como se estivesse imaginando como seria ser primo legítimo de Fidel. E eu seguindo seu olhar e tentando imaginar a mesma coisa. Prazer, e me apresentei. Aí um dia decidi não fumar mais e guardei a carteira de cigarro. E conseguiu? Um tempo depois peguei e fumei todinha no mesmo dia. Peguei uma caneta e comecei a fazer alguns riscos num papel. Já disse que gosto de riscos, independente do tipo. Acho que o senhor deve conhecer meu tio avô, Chakibe. Ah, conheço sim, é aquele do Líbano né? É seu tio ele, é? Não, não, meu tio-avô. O quê? Disse Seu Primo-legítimo-de-Fidel-Castro levando a mão até a orelha. Tio-avô!! Agora que tinha reparado no aparelho de ouvido de Seu José. Tenho que ir, a delegada tá chegando pra me pegar. O senhor sempre aparece? Vou voltar por aqui mais vezes. Click!
Ah, também teve a mulher do sapato. A mulher-gargalhada-sapato.
Geminiano é tudo chifreiro, são tudo doido. Eu sou geminiana. Tu é de que dia? Dez de junho. Geminiano é impulsivo, né? Aí ela começou a descrever a personalidade dos geminianos. E ria. Ria como se o mundo se acabasse naquela risada infindável. Pegou um sapato preto da bolsa. Geminiano é solto, não gosta de gente autoritária, não. Gosta é de liberdade. Ainda ria. Falava e ria e abanava as mãos enquanto segurava aquele sapato preto. Ah um dia eu tava no Parque do Povo tava uma chuva da mulesta meu pé tava era todo cheio de calo peguei tirei a bota e fiquei andando de pés descalço naquela chuva todo mundo olhando pra mim tudo rindo da minha cara e eu nem aí tava pouco me lixando pra eles sou doida mermo. Falava sem parar. Como ousam algumas pessoas ditar quem é normal ou não? Eu adorava aquela loucura tão lúcida em que aquela mulher vivia. Tão normal. Ela tinha a sua liberdade presa a ela, e a minha, arduamente prendendo-se a mim. Minha liberdade é sadista e eu, masoquista. Adoro essa dor. Essa liberta ação dolorida. Colorindo-se gradativamente. Posso tirar uma foto tua? Pode. Click. E aquela mulher de cabelos curtíssimos acabou-se naquela infindável risada acompanhada do sapato preto numa mão e um cigarro n'outra.

 
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