quarta-feira, 29 de julho de 2009

ALITERAÇÃO

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a escrita faz
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a literatura,
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.....................escrever é
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a literatura
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.....................em ação,
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.....................estou escrevendo
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a literatura em ação,
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a literação.
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quinta-feira, 23 de julho de 2009

Embora você foi

- Às 4h30 da manhã nunca se espera muita coisa, ou coisa alguma. De repente, vejo-me às voltas daquele dia, o dia em que começamos a namorar, mesmo sabendo que o namoro não iria durar muito - mas eu e você, sim. Olhei pela janela os 320km de estrada até você e percorri todo esse caminho nas folhas escritas de nós dois, folheei as páginas em sentido anti-horário: dois anos atrás. Lembro-me do nosso primeiro beijo, tua saliva misturando-se com a minha, essa saliva que está presente em todos os beijos surrupiados de minha boca - já não os dou, levam de mim. Lembro do surto de felicidade transbordando em lágrimas; das tuas mãos vindo em direção aos meus olhos, afastando qualquer coisa de ruim. Não era pra você ir embora. As palavras que viravam gestos, que apenas de gestos lembro... e um gestopergunta. Quer namorar comigo? Revirei as páginas do meu caderno preto de folhas brancas, quase inutilizado, tornei-o útil às 4h35 da manhã. Sonhei contigo. Me acordei com muita saudade de tu. Lembraste de um sonho que tiveste de nós dois, nessa hora estavas com ela? Ou comigo? Foste aquele que tirou a minha virgindade sem ter efetuado o ato, levaste-a sem saber - eu sei. Meu menino homem capiberibe, não me mate dentro de você. Senti amor, contigo fiz amor e guardo-o até hoje em meu coração - que ainda chora lágrimas de sangue verde vindas do encontro dos nossos olhos. Foi massa. Beijão. Espalhei tuas fotos pela cama... e dormi contigo. Eu nunca fui embora.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

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Acabando-me no cigarro
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..................e no tédio.
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quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sobre uma menina acinzentada

- Atrás da prateleira de livros está minha maldição em estágio inicial. Um dia posso parar atrás de muitas palavras encadernadas, como essas da minha prateleira. Um dia sei que vou parar embaixo de terras que já não sentirei cheiro de molhado nem de flores, sequer sentirei calor, nem frio. E meu corpo estará frio. Tenho as unhas dos pés coloridas. Verde roxo verde roxo verde. Abri a janela do quarto, tenho uma vista cheia de pontos luminosos com orquídeas e árvores e um muro que me separa do mundo. Um muro que me prende aqui. Agora verde roxo laranja verde roxo, com um anel na unha verde do pé direito. Um anel de prata que veio de bem longe daqui, que atravessou mares pelos céus em meus pés. Pés que conheceram pessoas e ruas longíquas. Pero a mi me gusta todo en ti, todo. No hay distancia entre nosotras. ¿Ves? ¿Puedes sentir? Ahora recoge todo el pelo, está muy diferente. Llámame por la tarde. No sabes lo mucho que te quiero. O vento vai de lá para cá, de cá para lá. A casa da minha avó hoje (e não apenas hoje) tinha um clima estranho, frio. Havia um silêncio frio de segredos e blasfêmia e fingimentos do óbvio. A blasfêmia era eu. Eu-blasfêmia. Eu blas fêmea. Nunca senti nenhuma mão do além tocando a minha, nunca essa mão me levou a fé alguma, eu tenho fé, sim. Às vezes, tenho fé em mim. A minha religião? Minha religião tem unhas coloridas, um anel no dedo do pé e outro no polegar da mão esquerda, minha religião em construção. Mandaram-me construir um deus, e meu deus por enquanto é terreno. De vez em quando subia um cheiro de tênis molhado. Poderia ter usado qualquer outro, mas eu queria esse mesmo, um Bamba colorido que comprei por vinte reais. Fedia por causa de um banho de chuva que tomei quando usava ele, e hoje eu só queria usá-lo, mesmo sujo e fedorento, não me importava com isso, era colorido. Meus pés num tênis fedido e colorido e minha alma em preto e branco, fedida a cigarro, chuva e várias outras tormentas cientificamente desconhecidas. A fumaça agora entra e sai pela janela, escuto o estralo do fogo queimando o papel do cigarro. Caem cinzas no meu travesseiro, meu travesseiro-cinzeiro. Fumo o cigarro, e as cinzas sou eu. Tudo o que restou das labaredas de um fogo que nunca acendeu, mas que ardeu demais. Entre lençóis brancos e fronhas vermelhas, deito a cabeça no travesseiro e espero o vento me levar.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Edu cativo

sumir sair correndo sumir contigo a
120km de distância do perigo que
é
a (im)posição das aparências e eu

verei o
pôr-do-sol
contigo
sumirfugir porque eu preciso daquela
minhapaz que está contigo eu quero
é me completar vem vou me dá um

abraço

e vamos
voar
pardal só não bata nas paredes do seu
quarto pois que o caminho é longo e eu
ainda nem sequer comecei a transpirar

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pombos e pedras

- 14h e alguma coisa, a essa hora me acordei. Tava com vontade de ir ao centro da cidade, já havia protelado essa ida há quase uma semana. Alguém uma vez me disse que eu tinha que escrever mais, daí fui atrás de viver. Então, fui. O sol já tava perto de se pôr. Tentei pôr o sol dentro de mim, e fui. Éramos eu e a câmera analógica com um filme preto e branco que ganhei de presente. Não queria gastá-lo com qualquer coisa, né? Adoro ficar sentada apenas observando pessoas indo e vindo, ficar imaginando suas características, as personalidades, com o pouco que elas deixam a saber. Gestos. Expressões. Olhares. Roupas. Cores. Estava eu, lá, alheia, sentada na calçada, morrendo de medo de um pombo cagar na minha cara, ou pior, na lente macro da câmera, mas corria o risco. Gosto de correr riscos. E na falta de um de verdade, qualquer risco inventado me serve, afinal, tem o mesmo nome, pelo menos. Você é jornalista? Não. Até que gostaria de ser, pensei. Voltei a observar aquela reca de velhinhos sentados, conversando. Boinas e bengalas nas mãos. Adoro observar gente de carne já muito vivida. Lembrei-me de Ricardo, mas isso tal vez eu conto. Um dia, talvez. Tu faz o que? Tu fotografa por hobby? É, acho que sim. Eu gosto. Isso já é bom, né? Houve uma mudança de tom na conversa. Trocou-se o você pelo tu. E quando falou-se em fotografia, não pude deixar de lembrar o quanto eu queria aquele cara que tem uma câmera de lente de olho mágico perto de mim. No mínimo perto de mim. Os desconhecidos começavam a me abordar, e eu ali fazendo o mesmo, que não era apenas eu que sentia curiosidade nas pessoas alheias.
Minha filha, você não sabe o mal que está fazendo a você mesma! Ele me deu um tapinha nas costas como nunca alguém me havia dado antes. Dois tapinhas, deu até vontade de nunca mais dar um traguinho sequer de cigarro. Ah, mas eu não fumo muito, não. Um dia inventei de deixar. Não sei como não matei minha velha, mas parei há muitos anos, já. Como é o nome do senhor? O quê? O nome do senhor. Ah, é José alguma coisa Castro, primo legítimo de Fidel Castro. E riu. Riu e dirigiu o olhar para longe, como se estivesse imaginando como seria ser primo legítimo de Fidel. E eu seguindo seu olhar e tentando imaginar a mesma coisa. Prazer, e me apresentei. Aí um dia decidi não fumar mais e guardei a carteira de cigarro. E conseguiu? Um tempo depois peguei e fumei todinha no mesmo dia. Peguei uma caneta e comecei a fazer alguns riscos num papel. Já disse que gosto de riscos, independente do tipo. Acho que o senhor deve conhecer meu tio avô, Chakibe. Ah, conheço sim, é aquele do Líbano né? É seu tio ele, é? Não, não, meu tio-avô. O quê? Disse Seu Primo-legítimo-de-Fidel-Castro levando a mão até a orelha. Tio-avô!! Agora que tinha reparado no aparelho de ouvido de Seu José. Tenho que ir, a delegada tá chegando pra me pegar. O senhor sempre aparece? Vou voltar por aqui mais vezes. Click!
Ah, também teve a mulher do sapato. A mulher-gargalhada-sapato.
Geminiano é tudo chifreiro, são tudo doido. Eu sou geminiana. Tu é de que dia? Dez de junho. Geminiano é impulsivo, né? Aí ela começou a descrever a personalidade dos geminianos. E ria. Ria como se o mundo se acabasse naquela risada infindável. Pegou um sapato preto da bolsa. Geminiano é solto, não gosta de gente autoritária, não. Gosta é de liberdade. Ainda ria. Falava e ria e abanava as mãos enquanto segurava aquele sapato preto. Ah um dia eu tava no Parque do Povo tava uma chuva da mulesta meu pé tava era todo cheio de calo peguei tirei a bota e fiquei andando de pés descalço naquela chuva todo mundo olhando pra mim tudo rindo da minha cara e eu nem aí tava pouco me lixando pra eles sou doida mermo. Falava sem parar. Como ousam algumas pessoas ditar quem é normal ou não? Eu adorava aquela loucura tão lúcida em que aquela mulher vivia. Tão normal. Ela tinha a sua liberdade presa a ela, e a minha, arduamente prendendo-se a mim. Minha liberdade é sadista e eu, masoquista. Adoro essa dor. Essa liberta ação dolorida. Colorindo-se gradativamente. Posso tirar uma foto tua? Pode. Click. E aquela mulher de cabelos curtíssimos acabou-se naquela infindável risada acompanhada do sapato preto numa mão e um cigarro n'outra.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Cacofonias no jantar

- Ela diz que Michael Jackson morreu de tanto dançar.


Mal tinha entrado no carro e já começara a reclamar. Tira essa música levanta esse vidro menina chata música de maloqueiro. Não adianta qualquer esforço meu. Edifício. Tem gente que não muda pra nada, nem pra disfarçar. Tornar as coisas um pouco mais disfarçadamente cômodas. Confortáveis. Quer saber mais? Mais uma inutilidade (in)útel de ficar sabendo? Ontem eu cheguei ótima na sessão de terapia, tava viajando naquela poltrona azul psicologmática, nem tinha mesmo muito o que falar. Poltrona-nave um e poltrona-nave 2, segundo ele. Vamos viajar juntos! Uma vez me disseram que eu tava jogando minha vida no lixo. Fiquei projetando essa cena na minha cabeça. Achei engraçado. Fiz até um pequeno desenho - na verdade, tentei. Ah, tudo isso aqui tá muito prolixo. Pro lixo.


- Uma hora todo mundo tem que morrer mermo. Os homem agora é tudo tomando viagra pa trepar com as menininha de 20 anos, pensando que aguenta uma mulher de 20. Aí fica tudo aí, com os coração pipocando.


Ela arrancou todos os tsurus do teto do meu quarto, jogou fora todas as fotos do meu quarto e vai mandar pintar as paredes riscadamente importantes do meu quarto. E eu odeio que toda vez ela encerre o jantar com esse tipo de coisa. Já são pouco mais de 19 anos de conversas fúteis postas à mesa. junto com a comida ultimamente fria. Engulo comida com merda no ar. O cardápio do jantar nunca muda. Macarrão, carne, arroz, salada de verduras, café, às vezes suco de laranja e sempre escrotagem idiota. E o pior é que eu não tenho frescura nenhuma com putaria. Sobremesa? Sair da mesa. A humanidade em si é uma putaria mesmo. Puta, ria. Rio não. Nem rio, nem mar, nem lago, só nado. Faço nada. E tem mais, adoro nadar.

- É, essa cachorra tem uma boca mais limpa do que uma boca aqui nessa mesa. A boca dela não lambe rola, não. A boca dela é mais limpa do que uma boca aqui. Cada um que entenda. E o terapeuta é seu? É? Pois enfie o seu terapeuta no fundo. Pode enfiar no seu rabo.


Pronto, agora sou um germe, uma larva, sei lá, um tapuru? E eu adoro meu terapeuta, mesmo. Ele consegue me escutar falar ininterruptamente e sempre é possível vislumbrar-lhe na cara uma ponta de interesse pelo o que eu falo. Se eles não me aceitam como sou quem tá perdendo são eles? É, pode ser, mas eu também perco. Aliás, a palavra nem seria 'perco'. Não tive nada e consequentemente não perdi nada. Isso. E agora? Agora, que na próxima sessão de terapia terei muito o que falar. O psicólogo não vai mais conseguir aguentar minha fala cacófata e minhocada, cheia de onomatopeias. Vou dizer que vou sumir, que pelo menos o terapeuta vai tentar entender o porquê. Meus porquês. Que porcaria. E por falar em psicólogo, a onomatopeia perdeu o assento e por causa disso ficou sem o agudo no 'e'. Ah, e vou dizer também que fiquei triste por causa da exclusão do trema. E porque minha mãe mandou eu enfiar meu terapeuta no meu rabo.



- Não quero assistir o dvd de Michael Jackson, não. Não sei dançar.


terça-feira, 7 de julho de 2009

Metarosalinguagem

A rosa. Ela era muito bem cuidada, no entanto, suas pétalas caíram. Caíram porque a rosa já não as suportava, aquelas pétalas lhe pesavam, doíam. Doíam porque eram pétalas vermelhas e vívidas, lindas, mas já não combinavam com o interior daquilo que deveria ser uma rosa. Eu era muito bem cuidada, mas com o pesar do tempo e de todos os seus pesares, feneci. Emudeci. Emudecida até te encontrar. Encontrar-te foi como encontrar-me. Em lugares inusitados e de formas inusitadas. É encontrar-me em ti, em nós e dentro de mim mesma. Olhuda. Risonha. Sonhadora. Tudo passou a ter graça. Olhos de graça. A cada pôr-do-sol nascia na rosa uma nova pétala. Pouco a pouco, aquela haste verde e labirintalmente espinhosa voltava a ser rosa.
Estou voltando a ser uma rosa.