quarta-feira, 15 de julho de 2009

Sobre uma menina acinzentada

- Atrás da prateleira de livros está minha maldição em estágio inicial. Um dia posso parar atrás de muitas palavras encadernadas, como essas da minha prateleira. Um dia sei que vou parar embaixo de terras que já não sentirei cheiro de molhado nem de flores, sequer sentirei calor, nem frio. E meu corpo estará frio. Tenho as unhas dos pés coloridas. Verde roxo verde roxo verde. Abri a janela do quarto, tenho uma vista cheia de pontos luminosos com orquídeas e árvores e um muro que me separa do mundo. Um muro que me prende aqui. Agora verde roxo laranja verde roxo, com um anel na unha verde do pé direito. Um anel de prata que veio de bem longe daqui, que atravessou mares pelos céus em meus pés. Pés que conheceram pessoas e ruas longíquas. Pero a mi me gusta todo en ti, todo. No hay distancia entre nosotras. ¿Ves? ¿Puedes sentir? Ahora recoge todo el pelo, está muy diferente. Llámame por la tarde. No sabes lo mucho que te quiero. O vento vai de lá para cá, de cá para lá. A casa da minha avó hoje (e não apenas hoje) tinha um clima estranho, frio. Havia um silêncio frio de segredos e blasfêmia e fingimentos do óbvio. A blasfêmia era eu. Eu-blasfêmia. Eu blas fêmea. Nunca senti nenhuma mão do além tocando a minha, nunca essa mão me levou a fé alguma, eu tenho fé, sim. Às vezes, tenho fé em mim. A minha religião? Minha religião tem unhas coloridas, um anel no dedo do pé e outro no polegar da mão esquerda, minha religião em construção. Mandaram-me construir um deus, e meu deus por enquanto é terreno. De vez em quando subia um cheiro de tênis molhado. Poderia ter usado qualquer outro, mas eu queria esse mesmo, um Bamba colorido que comprei por vinte reais. Fedia por causa de um banho de chuva que tomei quando usava ele, e hoje eu só queria usá-lo, mesmo sujo e fedorento, não me importava com isso, era colorido. Meus pés num tênis fedido e colorido e minha alma em preto e branco, fedida a cigarro, chuva e várias outras tormentas cientificamente desconhecidas. A fumaça agora entra e sai pela janela, escuto o estralo do fogo queimando o papel do cigarro. Caem cinzas no meu travesseiro, meu travesseiro-cinzeiro. Fumo o cigarro, e as cinzas sou eu. Tudo o que restou das labaredas de um fogo que nunca acendeu, mas que ardeu demais. Entre lençóis brancos e fronhas vermelhas, deito a cabeça no travesseiro e espero o vento me levar.

7 comentários:

Janete Anderman disse...

fiquei 2 meses lá.

Lella Cristina. disse...

gostei das cores deste texto! muito bom seu blog!^^

Maria disse...

Nossa, que texto boooom. Prendeu-me, não tive opção de não devorá-lo bem rapidinho. Lindo seu dom. E nem importa de que cor seja...

Meu beijo

Clrss disse...

seus textos que são lindos! nem deu tempo de conversar com vcs naquele dia.. saudades!

CArina CAmila disse...

Imagina se fosse uma menina colorida?
rs

Tem frases sua.. que sinto uma vontade de sorrir.. por ser tão normal mas dentro do seu contexto ela faz uma importância.. gigantesca!
E deixa tudo legal.

t. disse...

gostei muito da idéia de unhas pintadas de verde e roxo.

Wellington Campos disse...

Acho que todos gostaram das suas cores, apesar de acinzentada. Gostos dos textos coloridos.

Um abraço