sexta-feira, 10 de julho de 2009

Pombos e pedras

- 14h e alguma coisa, a essa hora me acordei. Tava com vontade de ir ao centro da cidade, já havia protelado essa ida há quase uma semana. Alguém uma vez me disse que eu tinha que escrever mais, daí fui atrás de viver. Então, fui. O sol já tava perto de se pôr. Tentei pôr o sol dentro de mim, e fui. Éramos eu e a câmera analógica com um filme preto e branco que ganhei de presente. Não queria gastá-lo com qualquer coisa, né? Adoro ficar sentada apenas observando pessoas indo e vindo, ficar imaginando suas características, as personalidades, com o pouco que elas deixam a saber. Gestos. Expressões. Olhares. Roupas. Cores. Estava eu, lá, alheia, sentada na calçada, morrendo de medo de um pombo cagar na minha cara, ou pior, na lente macro da câmera, mas corria o risco. Gosto de correr riscos. E na falta de um de verdade, qualquer risco inventado me serve, afinal, tem o mesmo nome, pelo menos. Você é jornalista? Não. Até que gostaria de ser, pensei. Voltei a observar aquela reca de velhinhos sentados, conversando. Boinas e bengalas nas mãos. Adoro observar gente de carne já muito vivida. Lembrei-me de Ricardo, mas isso tal vez eu conto. Um dia, talvez. Tu faz o que? Tu fotografa por hobby? É, acho que sim. Eu gosto. Isso já é bom, né? Houve uma mudança de tom na conversa. Trocou-se o você pelo tu. E quando falou-se em fotografia, não pude deixar de lembrar o quanto eu queria aquele cara que tem uma câmera de lente de olho mágico perto de mim. No mínimo perto de mim. Os desconhecidos começavam a me abordar, e eu ali fazendo o mesmo, que não era apenas eu que sentia curiosidade nas pessoas alheias.
Minha filha, você não sabe o mal que está fazendo a você mesma! Ele me deu um tapinha nas costas como nunca alguém me havia dado antes. Dois tapinhas, deu até vontade de nunca mais dar um traguinho sequer de cigarro. Ah, mas eu não fumo muito, não. Um dia inventei de deixar. Não sei como não matei minha velha, mas parei há muitos anos, já. Como é o nome do senhor? O quê? O nome do senhor. Ah, é José alguma coisa Castro, primo legítimo de Fidel Castro. E riu. Riu e dirigiu o olhar para longe, como se estivesse imaginando como seria ser primo legítimo de Fidel. E eu seguindo seu olhar e tentando imaginar a mesma coisa. Prazer, e me apresentei. Aí um dia decidi não fumar mais e guardei a carteira de cigarro. E conseguiu? Um tempo depois peguei e fumei todinha no mesmo dia. Peguei uma caneta e comecei a fazer alguns riscos num papel. Já disse que gosto de riscos, independente do tipo. Acho que o senhor deve conhecer meu tio avô, Chakibe. Ah, conheço sim, é aquele do Líbano né? É seu tio ele, é? Não, não, meu tio-avô. O quê? Disse Seu Primo-legítimo-de-Fidel-Castro levando a mão até a orelha. Tio-avô!! Agora que tinha reparado no aparelho de ouvido de Seu José. Tenho que ir, a delegada tá chegando pra me pegar. O senhor sempre aparece? Vou voltar por aqui mais vezes. Click!
Ah, também teve a mulher do sapato. A mulher-gargalhada-sapato.
Geminiano é tudo chifreiro, são tudo doido. Eu sou geminiana. Tu é de que dia? Dez de junho. Geminiano é impulsivo, né? Aí ela começou a descrever a personalidade dos geminianos. E ria. Ria como se o mundo se acabasse naquela risada infindável. Pegou um sapato preto da bolsa. Geminiano é solto, não gosta de gente autoritária, não. Gosta é de liberdade. Ainda ria. Falava e ria e abanava as mãos enquanto segurava aquele sapato preto. Ah um dia eu tava no Parque do Povo tava uma chuva da mulesta meu pé tava era todo cheio de calo peguei tirei a bota e fiquei andando de pés descalço naquela chuva todo mundo olhando pra mim tudo rindo da minha cara e eu nem aí tava pouco me lixando pra eles sou doida mermo. Falava sem parar. Como ousam algumas pessoas ditar quem é normal ou não? Eu adorava aquela loucura tão lúcida em que aquela mulher vivia. Tão normal. Ela tinha a sua liberdade presa a ela, e a minha, arduamente prendendo-se a mim. Minha liberdade é sadista e eu, masoquista. Adoro essa dor. Essa liberta ação dolorida. Colorindo-se gradativamente. Posso tirar uma foto tua? Pode. Click. E aquela mulher de cabelos curtíssimos acabou-se naquela infindável risada acompanhada do sapato preto numa mão e um cigarro n'outra.

5 comentários:

Diafragmática disse...

pelos grandes palcos das lentes...

foram 5 mãos/mentes. heheheh

A. disse...

Ria como se o mundo se acabasse naquela risada infindável.

Minha liberdade é sadista e eu, masoquista.

Sidney Andrade disse...

Que flagra tão saboroso! Surpreender o cotidiano no mais de sua trivialidade. Gostei.
Beijo.

ricardo ara disse...

puts, a rua é foda.

valeu pela passagam la no blog. gostei daqui, voltarei

Janete Anderman disse...

os centros, o melhor passeio em uma cidade.