sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A boemia de casar por aí

- Após o mês de julho com toda a melancolia e tanto catarsear numa máquina de escrever vermelha que depois de muito pedir meu pai me deu, e acabar com a tinta da fita da máquina e da melancolia; despertar-me da minha solidão comigo e amenizá-la com outros: enfim chega agosto com suas lembranças vívidas e vividas desse meu pedaço de vida. Un trozito de vida. Mês desgraçado, roubou meus dedos, deixou-me na chuva sem nenhum papel e muito o que sangrar. Afoguei-me em vários copos e todos eram rasos demais, atirei-me em vários corpos e todos eram mortos demais. Tudo era demais e tudo era muito pouco demais. Em agosto sou moribunda sedenta por hilos de sangre, farrapos de calor, corpos fugazes. Alegrias repentinas. Eu quero mais. Agosto de merda, trouxe consigo todo o passado que passado deixou de ser: virou presente, quis ser futuro: cortei-lhe com faca amolada na pedra do quintal da minha casa. À gosto de merda mais uma vez nos beijamos, nos despimos e nos abraçamos, e pra mim o abraço era infinito tanto quanto o tempo que voltaríamos a nos abraçar daquele jeito novamente. Redundantemente. Nos olhamos, te olhei tanto... e no teu olhar fugaz percebi-me analfabeta. Em agosto sou nômade pelas ruas: busco abrigo em corposlivros aparentemente confortáveis e prósperos, pulo o prólogo, aproveito e sugo todo o desenvolvimento, no fim ainda tenho sede, às vezes nevo e não floresço. Outras floresço, e o outro chove. A minha casa não controla seus ímpetos, tem muitas vidas e boa anfitriã, acolhe bem; foi um dia e vários outros dias mal cuidada e mal tratada e mal amada, mas continua de pé; a minha casa não tem medida nem limite e nem tem teto, mas possui um céu deveras estrelado. A minha casa abraçou e acolheu Vinicius de Moraes, Maysa, Frank Sinatra e Edith Piaf, e abraça Chico Buarque e José Saramago. A minha casa sou eu. E o dono dessa casa poderia ter sido um dos muitos corações que encontrei por aí, e que um dia habitaram dentro de mim. Poderia ter sido o teu, mas não foi. Não é. Essa casa tem dono, e o dono é o meu coração. Meu coração te deseja, mas já não te quer mais. Meu organismo te expulsa a cada trago de cigarro, a cada gole de cerveja, a cada vez que ouço teu nome, mesmo de brincadeira. E o tempo da brincadeira passou. Acabou de passar, virou tudo passado. Passado que espero nunca mais voltar, pois que tenho fome, venho da terra do sertão, da seca. Tenho seca em mim e tudo é pouco, o passado não alimenta. A minha casa agora é de barro. Eu hoje sou sertão, mas dizem por aí que um dia serei mar. E que esse mar, oxalá, não seja água dos teus prantos. Quer saber? E ainda que não queira: acabo de tomar uma decisão, ácida, como só ela poderia ser. Tomei-a assim, agora. Nesse exato momento degusto-a um pouco: corroe-me a garganta, o estômago e também o coração. Decisão: já não escutarei Chico Buarque pensando em ti.
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Decidi: esse mês eu te mato, à gosto.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Neoliberalismo sentimental

Caro coração,
Do copo que bebestes guardei o copo, teu abraço agridoce, tua saliva, meu pranto e teu corpo. Hoje deito-me num mar de espinhos, de águas salgadas caídas de um rosto. Meu corpo, meu rosto. A tristeza agudou-se, as palavras minguaram. Chegaste triste, saiste contente. Levaste de mim toda a alegria; que a felicidade em mim não existe. Tu Floripes, eu João dos Ais. Vens como a primavera: minha alma floresce na tua presença; vais embora e pouco a pouco volto a ser outono: morrem em mim todas as flores. Caem todas as folhas, todas as folhas passíveis de serem escritas. No copo que bebeste guardei minha mágoa, transbodando em cinzas. Domingo fui flor, hoje sou folha caída. Meu Estado é o meu estado de espírito e ainda me dói o sabor das tuas costas em minhas mãos. Encontro-me num estado agudo e obtuso de frustração: da dor da evasão das tuas palavras, dos espinhos das tuas costas no meu corpo, no meu coração. No meu corpocoração. Quantas vezes precisarei pagar uma morte pra renascer no teu amor? Caro coração...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Cicuta hedônica

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Por favor e com paixão,

Traga-me à vida pela morte

Dos sentidos extasiados.

Ávida, peço-te:

Traga o trago derradeiro.

Traga-me um cigarro,

Um cinzeiro.

Um copo de whisky,

Muito calor

E quatro pedras de gelo.

Apolíneo e dionisíaco,

Leva-me pra cama e...

Traga-me!


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