quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Carroça


Guardei de você

as coisas mais bonitas

dentro de mim

- que não pude te dar.



E eis que hoje descanso

de um dia por ti

e por outros

muito amor nas costas levar

- e o coração sentir.


terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cruz na porta da padaria

ando meio desiludida, procuro as coisas e não acho o que procuro.
procuro muito esquecendo-me em muitos copos e corpos, esquecendo que
às vezes
procuro não encontrar.
esquecendo que às vezes, as vezes que me procurei nunca achei.
procuro em mim as borboletas que um dia habitaram em meu estômago.
já não as encontro:
o álcool afogou-as todas.
exceto uma.
pobre borboleta, tanto espera,
larga esperança.
a minha borboleta estomacal é verde, bem clara e viva: é uma esperança.
procuro minhas utopias e não as encontro,
asfixiou-as todas o cigarro.
é nisso que dá depositar utopias em seres de carne, osso, dois olhos e duas pernas.
já meio sem rumo algum e sem caminho,
deparei-me comigo mesma travestindo a alma de
equilibrista.
recuperei meu edredom do tempo de criança. recuperei nessa colcha
a minha criança perdida e revoltada que decidiu fugir de casa e foi pega no ato,
no alto da primeira ladeira que subiu - a coragem e perseverança
que naquela ladeira deixei.
pelas estradas revivi oceanos de despedidas que permeiam minha vida
desde minhas outras vidas.
andando sem ilusão, como a realidade, e de tanto alimentar-me de realidades,
as cores em mim escureceram.
como a utopia dos visionários de todos os tempos, estereotipados surreais, loucos.
alimento-me daqueles que foram loucos, e das suas loucuras e das minhas,
faço a minha realidade.
a minha realidade surrealmente real, como a utopia.
eu como a utopia, esse é o meu sustento.
esse é o meu tento, meu teto - sem teto.
trilhando ruas e ruas pelo meio-fio,
dançando conforme pede a ocasião,
ultrapassando os limites hipócritas dos que aqui vivem,
dei de cara e corpo com a padaria.
a tabacaria deixei-a pra trás.
não sou nada, nunca serei nada mais que nada, e desse nada que sou
e nunca deixarei de ser:
sou tudo, serei tudo.
olhei pro padeiro, observei-o durante alguns poucos segundos e, sem ponderação alguma, disse:
me dá um sonho.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A propósito de Isabel

O nome dela não, mas seu codinome é Isabel.
Chegou sorrindo sorrateiramente o seu sorriso aberto. Sorrindo assim entrou no meu cotidiano. Compartilhou comigo nossas vidas duplas, de quem mora em duas cidades ao mesmo tempo, ainda que majoritariamente morando na cidade de praia. Porra... louca! Isabel comigo bebeu litros de cevada, correu de muita cilada e me amparou de muitas portas fechadas. Deixou minha vida dourada e sorridente, deixou minha vida mais preta. Ela carrega a cor do suspiro dos gringos em terras brasileiras - ela tem a cor do suspiro e desejo de qualquer homem. Consigo carrega também um mar de vida naquele sorriso, tem história de mulher de 30 anos, tendo apenas 17. Porra louquinha: amou, chorou, fumou, bebeu e fodeu. Fez tudo o que se podia fazer enquanto aproveitava os restos de um amor que nunca lhe fora dado por inteiro. Amou porque tinha que amar, chorou porque amou, fumou porque já fumava, bebeu porque teve vontade, fodeu porque quis prazer - com amor. É foda foder. Depois de um pseudoadubeiro de orquídeas ela desandou prá frente e viveu 10 anos em 9 meses. Conheceu o que nenhuma boa moça de 17 anos conheceria antes de se casar e enfim sair de casa. Nesses nove meses empanturrou-se de Marx e estigmatizou-se comunista. Comunismo? Fala com Isabel! À essa, que tem vergonha de (quase) tudo, falta-lhe, agora, ser mais uma sem-vergonha, como todo mundo - e aproveitar a vida como poucos. Isabel é medrosa quiçó! Dá grito por qualquer coisa e cala por amor. Nesses últimos tempos, mal percebe ela, o amor tá sendo qualquer coisa. Quando se lembra do Rio de Janeiro, Isabel se veste lirismo e começa a falar daquela cidade e de quem hoje lá mora. Chora, pondera, sonha - sofre - caladinha até quando lhe perguntem - assim, com sutileza, delicadamente - o que aconteceu. O problema é que não aconteceu nada desde então, e depois que se fora, aconteceu muito. Isabel procura, então, uma resposta, e não a encontra. Percebi que depois d'ela estudar tanto o comunismo, de beber tanta cerveja, de fumar tantos cigarros capitalistas, depois de tanta contradição nesses últimos dias, Isabel deveria prestar mais atenção nos fatos: seu coração tá virando um Estado comunista, os homens de sua vida agora tornando-se todos iguais - nenhum se destaca. Nenhum se sobressai, é esse o seu grito abafado: nenhum se sobressaiu, nenhum está se sobressaindo no seu coração. A loucura dos últimos tempos virando rotina, todo o incomum virando comum e o amor banalizando-se. Nada, atualmente, se sobressai, e no âmago daquele sorrisinho malicioso e safado, há muito romantismo. Isabel nesse momento dorme - enquanto escrevo. Tinha medo de Isabel usar adubo para orquídeas, porém, agora estou mais despreocupada, percebi que ela tem o sorrido mais malandro que já vi, de uma brancura que não precisa ser mais branca do que já é. Isabel teve sua dose de morfina e foi dormir, pobre menina, deveras cansada estava. Cansada de um final de semana louco e intenso, cansada do cara da orquídea, cansada até da vida que leva, cansada de tanto amor, Isabel agora dorme. Dorme como uma mocinha de 17 anos, aquela que só vai viver depois de casar, que é totalmente o oposto da menina que agora dorme, descansando do peso de muito amor levar. Como que pressentindo o tateado por cigarro, o movimento dos meus dedos e conseqüentemente a formação de palavras, Isabel, mais dormindo que acordada, diz: Tenho medo, velho.

- De quê? - pergunto-lhe.

- Sei lá. - responde e, pigarreando, volta a dormir.

Eu sei de quê. De quando. De quem. Dos porquês. Posso ver a resposta por trás desse teu sorriso maroto; por trás das minhas cicatrizes. Eu sei, bem sei, meu bem.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sobre o Estado em que vivemos

- Foi num domingo que eu descobri que iria sentir falta. Naquele bar de sempre. Aliás, descobriram por mim. O garçom do bar fez-me esse favor. Essa semana tudo foi assunto; essa semana ela caiu no assunto - quase como todos os demais cairam. Foi instantâneo lembrar de Frida, uma carta e muita solidão compartilhada - a cada milésimo de segundo. Falei sobre as costas espinhentas daquele rapaz; daquele outro mencionei o blues; do recente calei. Muitas críticas e poucas melhoras: a gente não quer mudar, a gente quer saber algum defeito - que perfeição já tá virando impropério. Muitos pastéis no Tororó, um bar na praia que costumamos ir, muita música e muito ver o sol nascer primeiro nessa praia do que em qualquer lugar das Américas. Foi muito Chico Buarque, muita fossa, confissões e mais. Todo mundo querendo abstrair a malícia da vida saindo pra rua, vivendo a rua, compensando na rua o que não se consegue fazer em casa. Na rua, mais exatamente no bar, afogávamos o nosso niilismo existencial na cerveja, no vinho. Temos sido tão loucos, tão sóbrios. Mais que errado está quem disse que a embriaguez nos tira do estado de consciência. Somos todos racionais - e toda racionalidade é movida por algum sentimento, por mais implícito que ele esteja. Na embriaguez encontro minha sobriedade. Estamos perdendo muito tempo, muito dinheiro. Ganhando muitos amigos, comprando muitas cervejas. Conosco a vida se fez dependende do corpo, da carne. A alma desprendeu-se, a nossa visão agora abrange o universo. Engolimos as mazelas da vida, sopramos os restos, tragamos do bom e do melhor e viajamos pr'onde der na telha. A nossa cidade é internacional, comungamos à vida com orgias enquanto outros o fazem com pão e vinho. A carne virou lei. Alma agora é utopia. Viva enquanto houver vida. Vida à viva! Pois que muita gente passa a vida morrendo - pra viver esperando a morte. A morte? Quem disse que vamos morrer? O que é morrer? Nessa vida já morri tantas vezes... A morte tem vida própria. Há vida na morte, chacinas na vida. O que diferenciaria a vida da morte? Postulamos que o mundo é ilusão, que as instituições são valores "facultativos" a serem seguidos; postulando agora que o cenário internacional em que vivemos é anárquico: ser carne é nossa lei. A gente quer viver até o que não se pode viver. As medidas são relativas: não há medida. Tudo é relativo, então "tudo é relativo" é relativo. Aqui nosso Estado é o estado de ânimo, aqui mora a lucidez em forma de loucura. A loucura da lucidez - pelo avesso. Aqui a gente tem muitos amores, mas a gente quer apenas um.

Baseado em fatos reais.