quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Sobre o Estado em que vivemos

- Foi num domingo que eu descobri que iria sentir falta. Naquele bar de sempre. Aliás, descobriram por mim. O garçom do bar fez-me esse favor. Essa semana tudo foi assunto; essa semana ela caiu no assunto - quase como todos os demais cairam. Foi instantâneo lembrar de Frida, uma carta e muita solidão compartilhada - a cada milésimo de segundo. Falei sobre as costas espinhentas daquele rapaz; daquele outro mencionei o blues; do recente calei. Muitas críticas e poucas melhoras: a gente não quer mudar, a gente quer saber algum defeito - que perfeição já tá virando impropério. Muitos pastéis no Tororó, um bar na praia que costumamos ir, muita música e muito ver o sol nascer primeiro nessa praia do que em qualquer lugar das Américas. Foi muito Chico Buarque, muita fossa, confissões e mais. Todo mundo querendo abstrair a malícia da vida saindo pra rua, vivendo a rua, compensando na rua o que não se consegue fazer em casa. Na rua, mais exatamente no bar, afogávamos o nosso niilismo existencial na cerveja, no vinho. Temos sido tão loucos, tão sóbrios. Mais que errado está quem disse que a embriaguez nos tira do estado de consciência. Somos todos racionais - e toda racionalidade é movida por algum sentimento, por mais implícito que ele esteja. Na embriaguez encontro minha sobriedade. Estamos perdendo muito tempo, muito dinheiro. Ganhando muitos amigos, comprando muitas cervejas. Conosco a vida se fez dependende do corpo, da carne. A alma desprendeu-se, a nossa visão agora abrange o universo. Engolimos as mazelas da vida, sopramos os restos, tragamos do bom e do melhor e viajamos pr'onde der na telha. A nossa cidade é internacional, comungamos à vida com orgias enquanto outros o fazem com pão e vinho. A carne virou lei. Alma agora é utopia. Viva enquanto houver vida. Vida à viva! Pois que muita gente passa a vida morrendo - pra viver esperando a morte. A morte? Quem disse que vamos morrer? O que é morrer? Nessa vida já morri tantas vezes... A morte tem vida própria. Há vida na morte, chacinas na vida. O que diferenciaria a vida da morte? Postulamos que o mundo é ilusão, que as instituições são valores "facultativos" a serem seguidos; postulando agora que o cenário internacional em que vivemos é anárquico: ser carne é nossa lei. A gente quer viver até o que não se pode viver. As medidas são relativas: não há medida. Tudo é relativo, então "tudo é relativo" é relativo. Aqui nosso Estado é o estado de ânimo, aqui mora a lucidez em forma de loucura. A loucura da lucidez - pelo avesso. Aqui a gente tem muitos amores, mas a gente quer apenas um.

Baseado em fatos reais.

Um comentário:

Iale Luiz. disse...

me rendeu boas reflexões à respeito de alma-carne; carne-alma =D