terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cruz na porta da padaria

ando meio desiludida, procuro as coisas e não acho o que procuro.
procuro muito esquecendo-me em muitos copos e corpos, esquecendo que
às vezes
procuro não encontrar.
esquecendo que às vezes, as vezes que me procurei nunca achei.
procuro em mim as borboletas que um dia habitaram em meu estômago.
já não as encontro:
o álcool afogou-as todas.
exceto uma.
pobre borboleta, tanto espera,
larga esperança.
a minha borboleta estomacal é verde, bem clara e viva: é uma esperança.
procuro minhas utopias e não as encontro,
asfixiou-as todas o cigarro.
é nisso que dá depositar utopias em seres de carne, osso, dois olhos e duas pernas.
já meio sem rumo algum e sem caminho,
deparei-me comigo mesma travestindo a alma de
equilibrista.
recuperei meu edredom do tempo de criança. recuperei nessa colcha
a minha criança perdida e revoltada que decidiu fugir de casa e foi pega no ato,
no alto da primeira ladeira que subiu - a coragem e perseverança
que naquela ladeira deixei.
pelas estradas revivi oceanos de despedidas que permeiam minha vida
desde minhas outras vidas.
andando sem ilusão, como a realidade, e de tanto alimentar-me de realidades,
as cores em mim escureceram.
como a utopia dos visionários de todos os tempos, estereotipados surreais, loucos.
alimento-me daqueles que foram loucos, e das suas loucuras e das minhas,
faço a minha realidade.
a minha realidade surrealmente real, como a utopia.
eu como a utopia, esse é o meu sustento.
esse é o meu tento, meu teto - sem teto.
trilhando ruas e ruas pelo meio-fio,
dançando conforme pede a ocasião,
ultrapassando os limites hipócritas dos que aqui vivem,
dei de cara e corpo com a padaria.
a tabacaria deixei-a pra trás.
não sou nada, nunca serei nada mais que nada, e desse nada que sou
e nunca deixarei de ser:
sou tudo, serei tudo.
olhei pro padeiro, observei-o durante alguns poucos segundos e, sem ponderação alguma, disse:
me dá um sonho.

4 comentários:

POBRE MEU BLOG disse...

Gostei dos textos. Estarei sempre por aqui. Parabéns!

Fernanda. disse...

"olhei pro padeiro, observei-o durante alguns poucos segundos e, sem ponderação alguma, disse:
me dá um sonho"

Magnífico!

Sonhos, são sempre bem vindos.
Sonhemos...


Beijinhos

Daros disse...

Muito bom!

Vitor disse...

Crianças são aqueles seres que se surpreendem com o mundo. Quem sabe parar de procurar é a melhor forma de descobrir coisas boas? Pq as vezes procuramos um bom específico, e deixamos de estar abertos para outros "bons". O caminho é mais importante que o ponto de chegada. Bem, acho que não ficou claro, mas isso é uma longa história...

texto excelente. Vou acabar me acostumando.

Beijos grande!

P.S.: Agora vou ficar pressionado para escrever bons comentários! :P
Brincadeira, seus textos é que em geral permitem delírios interessates. Mérito todo seu!