sábado, 10 de outubro de 2009

Sobre o amigo do melhor amigo do homem

- Adão e Eva desfrutaram a árvore tirando-lhe uma maçã. Ele era vidrado em vira-latas. Não só em vira-latas, mas também na plantinha do bem - do caminho do bem. Daquele corpo de gigante, de gigante nada tinha - a não ser a bondade e inocência. Acreditava em um mundo colorido, no altruísmo e culpava o capitalismo por todas as mazelas mundanas. Nem deveria ter conhecimento sobre, porém, via-se-lhe estampado na cara a máxima rouseauniana: "o homem nasce bom e a sociedade o corrompe". Imaginava-se dirigindo uma combi antiga e colorida, cheia de pirralhos hiperativos e uma mulher que supostamente haveria topado sair de viagem por aí, tendo filhos adoidado e fumando muitas plantinhas do bem. Ele, sempre que punha os pés na rua, ansiava por um rabinho canino abanando pra lá e pra cá. E naquela noite não haveria de ser diferente. Às vezes consigo levava ração para atrair esses animais. Era um cara peculiar, caricatural até. Saíra de casa numa fuga bucólica pelas ruas da cidade, pelo álcool alheio, trilhando o caminho deixado pela fumaça das folhinhas da paz, decidiu resolver os problemas do mundo apenas com a bondade proveniente do seu coração, que, mesmo enorme, mal sabia ele não ser o bastante. Tinha os cabelos encaracolados e com sua altura de gigante, provavelmente nem sequer conseguia ver seus próprios pés e por isso nunca se deu conta de que se quisesse subiria num piscar de olhos o pé de feijao do João - e se houvesse dado conta disso, teria na certa, sim, buscado um pé de feijão dessa magnanimidade para subir. Felizmente, ou infelizmente, não se sabe nem se saberá, sua altura lhe dificultou perceber que era uma criança no corpo de um homem. Levava consigo ideologias praticamente utópicas e muito filme pra gastar. Sentou-se na última mesa do bar, estirou as duas pernas, observou o ambiente com um olhar vago e vagaroso. Acendeu um cigarro, que saltou da sua imagem por não combinar. Era uma mão a parte, segurando um objeto fumacento. Achava legal fumar. E lá vinha o cachorro, cambaleando como um bêbado, farejando loucamente como quem fantasia copular, levando na cara uma expressão faminta de mendigo atrás de comida, uma boa comida. Uma boa cadela, ou uma boa perna. Via-se-lhe na cara a felicidade com que recepcionava o cachorro. Estava à tua espera, dizia seu sorriso, demoraste. Com um faro tarado, uma cara esfomeada por compaixão, a língua a transpirar, o canino achara onde descansar e ali ficara a deleitar-se no afago das mãos do bondoso gigante, esse mesmo, que com as mesmas mãos que afagara e saciara a vontade do canino, voltou pra casa e terminou a noite por masturbar-se. Que nem os inocentes estão isentos de desfrutar de uma boa safadeza.

5 comentários:

Maria disse...

Eu acho que eles fizeram...
Que texto bom, moça.

Vitor disse...

Discordo do final. Inocência não é deixar de gostar de sentir prazer, que é algo até natural. Safadeza é se aproveitar da inocência dos outros, prejudicando-os em vantagem própria. Ao contrário de Adão e Eva, ele não levou nada do cachorro.

Da forma como vc colocou, parece que a bondade do personagem depende em algum grau da plantinha do bem. Gosto de pensar que não, mas confesso ser um tipo de fé que não anda muito em moda.

Filipe disse...

Quanto fôlego pra sustentar tanto lirismo e tensão num texto assim!

Fiquei impressionado!

Parabéns!

Paixão, M. disse...

menina, que propriedade, hein! vê-se logo que você gosta de saramago, escrevendo de um fôlego só assim, com essa fluidez. Mas o estilo é seu ;)

curti!

obrigada pela visita, também adoro aquele documentário...

beijos!

Pasquale disse...
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