segunda-feira, 7 de setembro de 2009

A propósito de Isabel

O nome dela não, mas seu codinome é Isabel.
Chegou sorrindo sorrateiramente o seu sorriso aberto. Sorrindo assim entrou no meu cotidiano. Compartilhou comigo nossas vidas duplas, de quem mora em duas cidades ao mesmo tempo, ainda que majoritariamente morando na cidade de praia. Porra... louca! Isabel comigo bebeu litros de cevada, correu de muita cilada e me amparou de muitas portas fechadas. Deixou minha vida dourada e sorridente, deixou minha vida mais preta. Ela carrega a cor do suspiro dos gringos em terras brasileiras - ela tem a cor do suspiro e desejo de qualquer homem. Consigo carrega também um mar de vida naquele sorriso, tem história de mulher de 30 anos, tendo apenas 17. Porra louquinha: amou, chorou, fumou, bebeu e fodeu. Fez tudo o que se podia fazer enquanto aproveitava os restos de um amor que nunca lhe fora dado por inteiro. Amou porque tinha que amar, chorou porque amou, fumou porque já fumava, bebeu porque teve vontade, fodeu porque quis prazer - com amor. É foda foder. Depois de um pseudoadubeiro de orquídeas ela desandou prá frente e viveu 10 anos em 9 meses. Conheceu o que nenhuma boa moça de 17 anos conheceria antes de se casar e enfim sair de casa. Nesses nove meses empanturrou-se de Marx e estigmatizou-se comunista. Comunismo? Fala com Isabel! À essa, que tem vergonha de (quase) tudo, falta-lhe, agora, ser mais uma sem-vergonha, como todo mundo - e aproveitar a vida como poucos. Isabel é medrosa quiçó! Dá grito por qualquer coisa e cala por amor. Nesses últimos tempos, mal percebe ela, o amor tá sendo qualquer coisa. Quando se lembra do Rio de Janeiro, Isabel se veste lirismo e começa a falar daquela cidade e de quem hoje lá mora. Chora, pondera, sonha - sofre - caladinha até quando lhe perguntem - assim, com sutileza, delicadamente - o que aconteceu. O problema é que não aconteceu nada desde então, e depois que se fora, aconteceu muito. Isabel procura, então, uma resposta, e não a encontra. Percebi que depois d'ela estudar tanto o comunismo, de beber tanta cerveja, de fumar tantos cigarros capitalistas, depois de tanta contradição nesses últimos dias, Isabel deveria prestar mais atenção nos fatos: seu coração tá virando um Estado comunista, os homens de sua vida agora tornando-se todos iguais - nenhum se destaca. Nenhum se sobressai, é esse o seu grito abafado: nenhum se sobressaiu, nenhum está se sobressaindo no seu coração. A loucura dos últimos tempos virando rotina, todo o incomum virando comum e o amor banalizando-se. Nada, atualmente, se sobressai, e no âmago daquele sorrisinho malicioso e safado, há muito romantismo. Isabel nesse momento dorme - enquanto escrevo. Tinha medo de Isabel usar adubo para orquídeas, porém, agora estou mais despreocupada, percebi que ela tem o sorrido mais malandro que já vi, de uma brancura que não precisa ser mais branca do que já é. Isabel teve sua dose de morfina e foi dormir, pobre menina, deveras cansada estava. Cansada de um final de semana louco e intenso, cansada do cara da orquídea, cansada até da vida que leva, cansada de tanto amor, Isabel agora dorme. Dorme como uma mocinha de 17 anos, aquela que só vai viver depois de casar, que é totalmente o oposto da menina que agora dorme, descansando do peso de muito amor levar. Como que pressentindo o tateado por cigarro, o movimento dos meus dedos e conseqüentemente a formação de palavras, Isabel, mais dormindo que acordada, diz: Tenho medo, velho.

- De quê? - pergunto-lhe.

- Sei lá. - responde e, pigarreando, volta a dormir.

Eu sei de quê. De quando. De quem. Dos porquês. Posso ver a resposta por trás desse teu sorriso maroto; por trás das minhas cicatrizes. Eu sei, bem sei, meu bem.