terça-feira, 17 de novembro de 2009

Für Wagner

João Pessoa, 17 de novembro de 2009
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Estimado e querido amigo,
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Com um cigarro entre os dedos - sei que odeias - e os dedos, junto com o cigarro, traçando (ou esboçando, como queiras) palavras, hoje, escrevo-te sobre tu mesmo. Tu, em mim. Escrevo sobre ti, para tu mesmo. E pra mim - e nossa amizade.
...Começaste a falar-me assim: educado. Minha querida, como você está? Respondo-te, embalada pelas harmônicas notas musicais de Chopin: melhor do que nunca, e do que sempre. ...Os noturnos ainda vibram por dentro da minha pele. Contrariamente à Nietzsche, e, pelo menos até este momento, exatamente este momento, não encontrei nenhum motivo para odiar-te, depois de adorar-te tanto. Verdade que gostas muito da leitura nietzscheana?
...E tu, como estás? Enamorado, sim? Hoje, enfim, posso e consigo confessar-te um fato: encontrei-me na situação em que realmente me encontro - ênfase no "me". Nesse novo amor me encontrei encontrada. Me encontrei encontrada. Encontrei-me.
...Conta-me mais de ti, da tua nova mulher. Da tua nova paixão fugaz. O que pensas deste mais novo amor teu? Tu, que te apaixonas tão facilmente, e com a mesma facilidade esqueces quem juraste amar alguma coisa. Ou coisa alguma. O que te atrae tanto nesta? Quão forte é o olhar dela? E seus gestos, de que modo te encantam?
...Chego a pensar que não sou um, e sim metade de dois. E eu cheguei à conclusão de que não sou um, e sim, uma metade. Tenho sido metade por toda a minha vida - e ainda sou -, só que hoje, ah, hoje - e quiçá para sempre - ele me completa tanto, tanto! Sou metade, e ele, quem satisfaz todo e qualquer vazio dentro de mim; ele, que me completa - sem retirar de modo algum dessa completude a questão anatômica.
...Às vezes penso que estou ridícula, como já te disse. Não necessariamente sou, porém, estou. E, veja bem, não quero mais deixar de estar ridícula. Sinto que quero ser - e não mais estar - ridícula para sempre. O advento do amor faz-nos isso: ser ridículo aos olhos dos outros. Sorte a minha que não me importo em ser bem vista aos olhos alheios - alheios de tudo e até deles mesmos.
...Por que já não escreves mais? Onde está a carta que me prometeste enviar pelo correio? Por que já não me envias mais teus escritos - que a despeito do que pensas, escrever bem demais - ? Como anda tua relação com a vida - e com a morte? Por que tens passado ultimamente? Aliás, tens lembrado do teu passado?
...Aqui faço-te outra confissão: nunca esperei ser uma necessidade na tua vida. Nem sequer cheguei a imaginar tão feitio. Não, eu não sumo. E tu não escreves porcaria - se assim fosse, tu mesmo serias uma porcaria. E não o és.
...Alegrou-me muito ser prioridade mesmo que por trinta segundos. Espantou-me um pouco, não posso deixar de dizer-te, mas hodiernamente tenho constatado que toda alegria vem acompanhada por um espanto - e medo. Nunca consegui escrever-te, no mínimo, um esboço do modo como eu te vejo. Porém, vejo-te? És, realmente, o que vejo? És-te? O que és tu? Como me vês? Sou-me - ou me sou?
...És, para mim, intexterível. E não faço ideia do que é intexterível. Inventei o termo. Invente o significado, então. Intexterível é o que és. O que não dá para fiar em palavras. Textear - numa alusão à têxtil.
...Gostas de Liszt?
...Quando eu tenho amor por alguém, essa pessoa passa a estar debaixo da minha pele, e assim, faz-se-me necessário a presença dela dentro de mim, mesmo que seja uma presença ausente. Isto posto, a necessidade faz as suas vezes de amor. Sendo um componente íntegro de um ser humano, faz-se necessário tal presença. Necessidade é amor - e, na falta desta, caso de vida ou morte.
...Como vês o amor - ou melhor, como pensas que o amor te vê?
...Que fique registrado através desta - e até em ti -: quero casar-me com ele. Nunca imaginei-me proferindo tais palavras, e no entanto, encontro-me dizendo-as com tamanha conviccção e, principalmente, vontade!
...Queres casar?
...Encontro-me romântica - e sonhadora. No fundo - aqui e ali, anatomicamente falando - há uma vontade latente de juntar-me a ele, de vivermos fundidos um no outro. Eu e ele.
...Desejo-te um bom dia de descanço - de tudo. Dê-me notícias, sempre que puderes.
......................................................................................Necessita-te,
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P.S.: Ainda me és intexterível.