sexta-feira, 29 de outubro de 2010

De vagar

......................
......................
......................
......................

......................
......................
......................
......................




......................ando devagar,
......................e chego rápido
......................de vagar, divago
......................divago, vagarosa
......................vaga
......................é divagar que se vai ao longe

......................
......................
......................
......................
......................
......................
............................................
......................

......................
......................
......................
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............................................ ......................
......................
......................
......................

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Voa, passarinho, voa

"Tina Modotti: I don’t believe in marriage. [crowd laughs] Tina Modotti: No, I really don’t. Let me be clear about that. I think at worst it’s a hostile political act, a way for small-minded men to keep women in the house and out of the way, wrapped up in the guise of tradition and conservative religious nonsense. At best, it’s a happy delusion - these two people who truly love each other and have no idea how truly miserable they’re about to make each other. But, but, when two people know that, and they decide with eyes wide open to face each other and get married anyway, then I don’t think it’s conservative or delusional. I think it’s radical and courageous and very romantic. To Diego and Frida." - Frida (2002)

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À Danielle e Gabriel, pelo corajoso ato de lançar-se a um céu-caixa-preta, juntos, olhando na mesma direção e em todos os caminhos sempre um ao outro. Por amarem-se em liberdade e em liberdade de vôo decidirem desafiar e ao mesmo tempo desejar a rotina. Por amarem-se em liberdade e em liberdade deixarem-se ser cais um para outro. Ser terra, ser pouso.
Ser ninho.

Aos dois passarinhos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Do ato de esperar

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A esperança
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......................nada mais é do que
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a espera
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......................deixada como
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.....herança
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Aos Bons Ventos (II)

Amor,

é primavera! Chegaste-me no inverno, na chuva que me consolava chorar, na escuridão das tempestades - na vala de uma morte minha, e do outro em mim, mas tão-somente minha. Amei, sim. Amei-o. Amei muito. E, ao longo da minha vida, muitos. Todos foram e tu sempre és. Foste o único a ficar. Não porque quiseste, mais bem porque eu quis assim. Melhor dito: nem quis tanto assim, era mais forte que meu próprio eu e meu querer. Já estava esmorecida, naufragada dentro do meu próprio barco - tão tido por conhecido. Um anel pesava a mão, sendo-me uma âncora no meu próprio pesar. A liberdade de amar não compreendia a liberdade de voar, nem de estar. Era sempre uma liberdade de ser. Mas eu não era nada - não sou nada, nem serei coisa alguma. Eu queria a liberdade de estar. E de amar. E isso foi-me impossível. Amei, bem verdade, mas não pude ter o prazer de desleixar-me ao deleite de estar sendo. O amor que eu tanto buscara como salvação, mais bem foi-me uma prisão. Porém, amei - e muito. Mas se a liberdade era de ser, então eu só era o que tinha sido, nada mais. E eu sou o que fui, o que estou sendo e o que estou por ser. E sou também o que não sou e o que não sei se serei. Amei, mas sempre faltava alguma coisa, e essa coisa era... ser eu mesma. E de assim amar, mingüei - é que já não podia amar. Como poderia? Se eu já nem existia... Então, amei? Sim, amei. Mas amei sempre no limite do lugar-comum que pra mim representava o amor. Tu não foste salvação alguma, e nem assim queria que tivesses sido. Não quero salvação, não estou danada a nada. O pecado apenas é a má intenção. Muito menos gostaria que tivesses sido um reparo e tão-somente um reparo a mim mesma - aos cacos. À ti, nunca os restos, sempre inteiros – sempre inteira. Foste-me, depois de incontáveis encontros e desencontros, um esperado e desejado encontro, díspar de tudo e todos por ter sido inevitável e presumível, mesmo sem determinação de época, porém, ímpar de tudo por ter tomado lugar sem nenhum planejamento prévio - de prévio só o anelo. Nosso encontro aconteceu como com o perpassar natural do tempo e das coisas acontece a primavera. Simplesmente: acontecemos! E então senti-me real e surrealmente caminhando sob uma chuva, só que dessa vez não uma chuva salgada, nem consoladora de amarguras, mas uma chuva de flores de cerejeiras. Sinto-me. Eu estou apenas te dizendo o tanto que eu já quis alguém, e com isso também te digo o tanto que te amo - nem mais, nem menos: infinitamente. Não me apagas nenhum passado, que isto já é o que já diz ser. Entretanto ocupas já todo o meu coração.
E é isso, é exatamente isso! Não és minha metade. Não preciso que tu sejas minha metade, nem eu a tua, já te o disse. Mas que sejamos completos e que ainda assim, eu e tu sigamos querendo um ao outro sempre perto. Assim querendo-te, descobri o que é o amor, que é tudo, menos querer que o outro preencha os vazios que pensamos possuir. Que é tudo menos delegar responsabilidades ou comprometer-se ao vir-a-ser; que é tudo menos predeterminar a si mesmo e ao outro. Contigo descobri que o amor só acontece quando há liberdade, não de ser, mas sim, também, de estar. A liberdade de poder desleixar-se com o presente de estar e o futuro de ser. Só assim acontece o amor, como a primavera: quando, mesmo inteiros e completos, queremos outro do nosso lado, não alguém, apenas, mas uma pessoa humana, "demasiadamente humana", um ser perfeito em toda a sua imperfeição. Então, eis que aí descobri quando acontece o amor: o amor chega quando se pode estar sendo. O amor só acontece quando, no âmago da completude do nosso ser, do nosso tão-somente ser, bastemo-nos sozinhos em nossa solidão de ser inteiro, que nos bastemos com o solilóquio de que é necessário ser para assim existir e, enfim, amar. É assim que acontece e floresce o amor. E assim, descobri o que é o amor. Eu, em toda minha completude, inteirice e soliloqüez, em toda minha perfeita falta de perfeição, se te chamo de amor, é porque amor pra mim o és. Porque tu és o amor.
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Que levem os bons ventos sempre eu na tua direção e tu na minha



A Confissão (III e à outra pessoa)

Posso afirmar que talvez um dia teus olhos me troquem por outra mirada. Ouso ainda dizer que teus olhos podem ainda não me fitar por inteira, mas sim, com um pouco de soslayo no olhar. Não creio que seja por querer, talvez, se verdade, seja mais forte que tu mesmo. Ainda assim, com o amor escravo que a ti sempre devotei, serei feliz. Porque terei sido feliz ao menos uma vez só por ter vislumbrado teu sorriso. Sei que não te amo, apenas. E se assim tenho dito, realmente desejo que fique claríssimo que o que eu sinto por ti só pode, no mínimo, expressar-se nessas meras 7 letras. Estou inspirando e expirando sentimentos que ainda não posso textear. Só consigo sentir - sem ainda nomear. Porque eu, tu e o que eu sinto que faz com que eu e tu sejamos nós, para isso... para isso não há palavras que definam. Eu te 8.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mon amour,

eu te amo, tão absurdamente, tão inteiramente, tão sem fim, e tanto!
que dizer apenas isso parece dizer pouco,
e essa saudade é uma tortura - que só é doce porque é tua;
vou inventar um novo vocabulário pro amor,
esse amor,
ínfimo
diante
de
nós
do
is
ii
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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Apenas um retrato

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Maria, que não é homem nem mulher, que apenas Maria é, com Onildo foi mulher. Não mulher, no sentido que ficou na frase. Mas mulher no sentido de mulher de. E foi de Onildo. De fato, papel passado, casamento consumado, marcha nupcial tradicional e padre, não. E isso ia ser por demais complicado. Onildo era filho de pastor, Maria de família católica, pendente ao espiritismo. Só tiveram a oportunidade de ensaiarem um casamento e sonhar com uma gravidez, que Maria ia ficar linda de bucho. E que Onildo, o que ia ser pai, ia querer falar de história com o guri. A palavra é feia, mas Onildo e Maria foram quase amancebados e o consumado antes do casamento. Os dois gostavam dos domingos, e do mar. Eram Maria que era Flor e Onildo que deveria ser Guerra.Maria, que já foi João dos Ais de Floripes, amou Onildo. E amou-o com tudo o que tinha: duas pernas, dois braços, dez dedos nos pés e dez nas mãos, um hímen, dois olhos, uma boca e um coração. Tinha nas costas o peso dos meninos que surrupiaram sua vida. Maria carrega agora o peso do menino que lhe foi homem, aquele que deitou seu corpo - e o coração. Tinha os olhos moribundos e a boca cheia de sonhos - os ouvidos cantarolavam. O sangue dançava uma alegria descompassada. Onildo deu a Maria mais do que uma casa para seu corpo. Foi-lhe uma casa para a alma - e para seus andares caleidoscópicos. Maria ria. Sorria. Suspirava. Mal dormia - e até pelo contrário, quando dormia. Dormia com ele, mesmo sem ele. Quis ter um filho. Quis até casar! Maria, tão revolucionária, agora de véu e grinalda. Maria mostrou que os sonhos são reais. Tirou o cético por sonhador. Tem agora a barriga faminta, a companhia ocupada e ainda os olhos moribundos, querendo morrer sem saber de quê. Ainda acredita em vidas passadas, naquela, em especial. Maria não conhece deus mas olhou pro céu e pediu que parasse a chuva de molhar, e a chuva parou, teimou outra vez, e parou. Maria não conhece o desconhecido e desconfia que é conhecida. Maria por Onildo chorou, e não porque tinha que chorar. Chorou porque chorou, porque chorar é chorar. Maria um dia dormiu e quis nunca acordar. Maria acordou. E o coração de Maria agora é só um coração. Maria sonhou. Acorda, Maria!
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12 de maio de 2010

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Informes in úteis II

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Algo me dizia que só serias meu quando eu um dia fosse tua. E eu sempre fui tua, sabes bem. Sempre me tivestes... porém, nunca possuiste-me. Eu sentia, sabia, ou melhor, eu não sentia, mas sabia. Sabia que quando se unissem os nossos corpos, não nos separariam os homens.
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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Pretinha

Mariana, lua morena de lábios carnudos e sorriso maroto, chora. Chora Mariana, e chora pro teus olhos chorarem. Chora até que chore também a tua alma. E, chorarás tu, teus olhos e tua alma. E o pranto há-de encobrir teu corpo fazendo-te sentir frio, e a tristeza te tomará por morada. A solidão não te deixará sozinha, e tu talvez hás-de querer não mais existir. Chora, mas não chora o teu choro. Chora o choro que não chorou o que te fez chorar. E chora: como se as águas salgadas quem saem dos teus olhos fossem mar. Chora, como se esse mar afogasse o que te fez chorar o choro que o que te fez chorar não chorou. Chorarás tu, teus olhos, tua alma e teu corpo. E as lágrimas serão lágrimas de sangue, de sonhos, de pele, de dor - de amor. E de tanto chorar, tua alma um dia secará, fazer-se-á sertão. E o sertão não cansa de sonhar, de um dia não ser mais sertão não.

domingo, 25 de julho de 2010

Ora

Muito estranho que eu esteja mais uma vez deixando-me levar pelas circunstâncias e pelas mãos de outro e não saiba falar sobre. Não seria bem pelas "circunstâncias", nem pessoa seria a palavra adeqüada. Muito estranho isso de encontrar-me corajosa, encarando, aliás, caminhando lado a lado com o amor e em uníssono arder apaixonada e não saber palavrear sobre. É quase, e talvez não seja quase mas sim totalmente, como se meu lirismo por ti ainda estivesse magoado por um dia teres feito com que eu tivesse que deixá-lo. É. Assim, abandoná-lo. Talvez até mesmo assassiná-lo, embora não sem uma ponta de sentimento de martírio, onde eu mesma era mártir junto com o cordeiro do meu lirismo - e o meu amor, meu próprio amor e meu amor próprio: a faca com que degolarias nosso pescoço. E o sangue jorrava em forma de poesia, até esvair-se todo e virar pó, pó que voou por sobre a serra, descendo, até chegar ao mar e ali afogar-se: terminar de morrer, já quase um suicidar. Olha, penso mesmo que foi isso que aconteceu que fez e faz com que eu não consiga escrever sobre o que tenho e estou sentindo. Lamentável, quiçá. Mas, ó, saiba que eu te quero. Tenho guardado até hoje uma pulseira que um dia tiraste do teu pulso e puseste no meu. E nunca esqueci do que escreveste na minha parede. No Marrocos e no meio de toda aquela caligrafia de desenho eu vi teu nome em letras latinas, como quem vê achando que não vê por acaso. Quero-te muito. Enquanto já quase não nos falávamos mais, em Verona eu escrevia nossos nomes na casa de Julieta. Na Fontana di Trevi eu, de costas e com a mão no coração, joguei duas moedas: uma pra voltar a Roma e outra pra voltar pro teu amor. Na segunda moeda só me veio teu nome, mais bem quase prostei-me ao teu nome como quem por querer entrega-se ao seja o que for. Eu pensei em ti. Além, coração, eu te quero muito bem, e, quero-te, também, perto de mim, sempre que puderes e até quando não puderes. Que eu, apesar de tudo, de todos, e até de mim mesma, te amei mais uma vez novamente.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Algoz

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nunca quis que o amor fosse perfeito sempre quis que o amor fosse perfeito.
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o amor é uma farsa.....................................................mas o amor é uma farsa
.....
uma armadilha...........................................................................uma armadilha
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uma arma.......................................eu.................................................uma arma
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e uma.....................................uma arma...................................................e uma
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ilha....................................................e...........................................................ilha
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ilha...............................................o amor......................................................ilha
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e uma........................................................................................................e uma
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uma arma...........................................................................................uma arma
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uma armadilha...........................................................................uma armadilha
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o amor é uma farsa......................................................mas o amor é uma farsa
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nunca quis que o amor fosse perfeito sempre quis que o amor fosse perfeito
.......

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Break Me Gently

- Estava passando a vista em algumas fotografias até meus olhos atentarem para uma em especial. E veio-me toda uma trilha sonora aos ouvidos - a música dançava comigo, sendo que eu não dançava, nem dançava com a música. Havia na foto uma menina, sentada, os cabelos quase longos, entrançados. Ia de branco, e a alma, abraçada. O rosto levava uma expressão de quem está contente com o que tem, o sorriso não mostrava os dentes, as mãos cruzadas acima do joelho, a menina recostada num banco, a menina com cara de rotina, mas com cara de quem apreciava isso. Naquele sorriso, que eu classificaria de doce, ela sorria toda - sem querer só rir. O vestido era longo, e era branco de uma brancura que tudo ficou branco, puro e inocente; que tudo ficou sonho, o sonho que ela nunca tinha sonhado, uma vontade como ela nunca tinha tido até então. Tudo ficou círculo, e círculos não têm fim. Não era um começo, certamente. E, também, não era o fim. Era o meio. Era quando a menina achava que tudo seria sempre meio, caminhada, nunca o fim. Ela tinha muito querer no coração. Sabia que queriam-se muito. Sentia que queriam-se desde muito antes, muito antes mesmo de se conhecerem - sem saber. Os fatos, até para céticos, tornaram-se fatos mágicos. Não mágicos no sentido daquele que faz mágicas, porque essas no fundo alguém sabe como acontece, mas mágicos no sentido de inexplicáveis, como um céu no nascer do sol parecer ter sido especial e minuciosamente pintado à mão por Michelangelo. Um céu que parecia sorrir, nuvens que pareciam abraçar. E o sorriso que carregava a menina era um sorriso de complacência com o rumo que as coisas tomavam; de desgustação para com o movimento da vida e de como as coisas, cada coisa e cada uma a seu tempo, iam tomando assento - e uma ponta de surpresa. Era um sorriso de condescendência para com o amor. A menina tinha no brilho dos olhos, como bem poderia dizer Fernando Pessoa: "Todos os sonhos do mundo". A música parou de tocar. Todo mundo tem uma música que lembra alguém. Eu tenho as minhas músicas, e, escutando uma música que um dia foi acompanhada por um pronome possessivo no plural, mas que nunca chegou a ser ouvida pelo nós, não pude deixar de lembrar da menina-do-sorriso-doce-e-rotineiro da foto e de como ela saiu feliz após jantar no Mc Donald's. Nunca tinha imaginado como a vida tiraria-lhe o assento de outra vida - até em outra vida. Bem verdade que verteram lágrimas os meus olhos. Mas não fui eu que chorei, foram só meus olhos - e debatiam-se os cílios. Somos lost souls...

terça-feira, 6 de julho de 2010

Ensaio sobre o amor V


'Quando se apaixona é uma loucura temporária. Ela surge como um terremoto e depois se acalma, e quando se acalma você tem que tomar uma decisão. Ver se suas raízes ficaram tão entrelaçadas ao ponto de ser inconcebível se separarem. Porque isso é o que é amor. O amor não é a falta de fôlego. Não é a excitação. Não é o desejo de acasalar a cada segundo do dia. Não é imagina-lo beijando cada parte do seu corpo. Isso é estar apaixonado. Amor é o que sobra quando a paixão se consumiu.'

Te amo, xuxu! Embora me encontre loucamente apaixonado! "


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Via-se.
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Eu te amo. Casa comigo. Fica comigo pra sempre. Eu te amo mais.
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É o fim de tudo isso. O fim das juras de amor. O fim da eternidade.

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Você é tudo o que eu poderia desejar e mais um pouco. Você é a

mulher da minha vida. Não é apenas um fim, é onde todas as

declarações de amor e todos os momentos vividos sob a lua não passam.

Te amo demais. Quando o sol parou de brilhar. É onde ficam, só.

Sustenidos. Ficam sustenidos. Ficam ali, de onde não hão-de passar.

Quando um provável futuro pára no presente e relega-se ao passado. É o fim.

O fim é aquilo que chega e deixa com que o passado

que nunca foi passado tome o lugar do presente.

Deixa que o presente vire passado e o futuro um presente amargo.

É quando e onde o mar quer se afogar.

É o fim. Quando o infinito pára, o eterno morre - e o coração chora.

Quando tudo se vê bruscamente diminuto.

Me ama pra sempre. Ich liebe dich, mein Schatz.

O fim não é o fim. O fim é apenas um começo. Um meio. Me abraça

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Maio de 2010


sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

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- Um dia, em meio a uma conversa deveras despretenciosa, alguém disse-me: Ah, então você vai gostar de Saramago! Passou um certo tempo até encontrá-lo. Lembro que conheci-o aos 16 anos, em uma livraria da cidade. Ia assim: não ia, até quando lá cheguei. Impávido, tinha essa conotação seu nome nas estantes. Seu nome e Saramago em pessoa, num livro. Não tinha a capa de quem implora para ir embora do lugar onde momentaneamente jaz-se vivo. Não tinha pedantismo na estampa. Nem pedia arrego. Levei-o comigo assim: sem nada, quase do nada, sem muito esperar. Alimentei-me de novas palavras, nova estética. E assim, com uma fome súbita, devorei-o. Conheci o até então desconhecido, e, pelo desconhecido conhecido no aconchego das minhas mãos, apaixonei-me. Morreram sonhos e pedaços de realidades. Queria não ser viva quando na morte de Saramago. Difícil viver a morte de um vivente que dissecou a realidade e o trascendental com a dor do cordeiro que é sacrificado e a ironia de quem sabe o que se passa, o escárnio de deus, e, principalmente, com um olhar em demasia humano. Queria não ser viva para morrer também, junto com ele, mas continuar respirando. E continuar vivendo. Melhor deve ser já conhecer um célebre já póstumo do que estar viva vivendo no mesmo mundo de um exímio vivente que está por ir-se. Agora, que foi-se. Uma ruma de valores estraçalhados que foram na mão do poeta, acabaram por irem todos ao túmulo por conta da carne. Uma ponta de felicidade, entretanto, me atinge: filhos, ou muito com isso parecidos, deixou Saramago. Filhos, ou pergaminhos; bíblias, não, que Saramago desconstruiu a divinidade não foi para tornar-se idolatrado feito deus; cartas, lembranças, pedaços seus em folhas, pelo mundo. Sementes. A mesma carne que daqui levou o português, fez com que o mesmo passasse da carne pro papel, do papel pra eternidade - até quando possa assim ser. Difícil ver sonhos e realidades encaminhando-se ao pó. Desconcertante, quase, respirar num mundo que já não respira Saramago. Um dia direi: era viva quando morreu Saramago, e até o dia de sua morte nunca me havia abatido qualquer sentimento de perda assim, inesperadamente aguda. Foi uma perda não só pra mim, mas para o mundo - que o perde como um pai que, ao contrário da ordem cronológica natural, vê morrer o filho; vertendo suas vezes de lágrimas. Quis não ser viva quando parou de escrever a mente de Saramago. Não ser viva, que também não é estar morta.
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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Aos pedaços, às pétalas

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e de tanto sorrir, de tanto chorar,
de tanto sentir
a rosa murchou,
quando acordou, murchou, corou,
chorou - por dentro
resolveu que não estava resolvido
que não estava resolvida, mas resolveu alguma coisa
resolveu que havia dúvida,
e dúvida, amor
não é amor.

amor é o que enche os pulmões,
é o que alimenta o estômago
que eleva a alma e move a carne
não é amor o que não preenche por inteiro
o que não alimenta a barriga
não enche os pulmões
não cantarola música nos ouvidos
não é amor a dúvida
não
é pendência
prisão
sequer vida
é dívida
que o amor deixou
e nesse pedaço de mulher que sobrou
de cada amor que me
estraçalhou
que me
roubou
e roubou-me
há uma mulher por inteira
há uma mulher inteira
uma mulher em pedaços
um pedaço de mulher
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In possibilidades (II)

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Creio que já não posso escrever
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Só posso sentir
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quarta-feira, 2 de junho de 2010

O amor acaba, o sexo continua

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talvez tenha encontrado em ti
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o que sempre procurei

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em mim
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rosas vermelhas

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euespinho

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construí uma trilha de rosas

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para que pudesses seguir

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fiz-me teu rumo

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tu, minha paz

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fiz-te-me

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acordo cedo e te admiro

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delineo-te com os olhos

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cada centímetro do teu corpo

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cada defeito teu

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é-me afrodisíaco

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é-me efeito

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feito

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bem feito

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e te quero ainda mais

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quero-te agora sempre

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eu te quero

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cada defeito teu
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é-me efeito

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deste-me o amor que por toda a minha vida procurei

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dei-me-te

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dei-me

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dei-te

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deite comigo

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amemos-nos

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unamos-nos

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extasiemos-nos

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o sexo acaba,

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o amor continua.

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terça-feira, 25 de maio de 2010

De mim

mas agora eu quero um cigarro

.........................ar

e quero agora

eu quero preencher esse vazio dentro de mim

...............................entro em mim

do que restou do que não ficou

estranho ser estranho notar que eu me dou bem

estranho ser..............................................que eu me dou bem

com a solidão

........a solidão

que ela sempre acaba voltando pra mim

acaba comigo

....ba co

foi o fim

...fim o foi

é o (re)começo de mim

eu olhos de alambique

eu
eu
eu
eu
eu

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Ensaio sobre o amor IV

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....................................................................
....................................................................
........................................................... . (...)
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- Alô?
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- Olhe, vá dar meia hora de cu!
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- .
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terça-feira, 18 de maio de 2010

Dos contrários

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Ela era ilimitada, sem limites. Ele limitado, com limites. Uma pessoa sem limites pode até suportar um limite, mas um limitado... suportaria o infinito?

Ela é nuvem, estrela, é lua; ele terra, pé, concreto. Ela sonhos em demasia, ele sonho-pé-no-chão. Escuta música enquanto estuda ao mesmo tempo em que atende o telefone e pensa em outra coisa, em outra pessoa. Lê um, dois, até três livros em um mesmo período de tempo. Fala isso e aquilo entra sem contexto no contexto. Ele lê e só. Assiste e só. Conversa e só. Coerente, lógico, ordenado. Ela quer o mundo, abraça as longitudes com os pés, as mãos e o coração. Quer viver voando, correndo, sentindo. Ele quer o pacato, o sóbrio, o ficar. Ela, o incerto. A vida como um copo transbordando álcool - qualquer que seja. Ela impulsiva, intensa, inconstante, ele constante, rotineiro, sereno, brando. Ela luz ele, sombra. Ela sombra, ele luz. Yin e Yang. Lua e Sol. Verde e preto. Ela passarinho que pensa que vai passar, ele peixe que não quer sair do mar. E nada disso é problema, não. O problema é que se amam até demais - ou pelo menos assim o pensam.
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13/04/2010
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sábado, 8 de maio de 2010

Com Afeto - a propósito da dor de um dia

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Eu quero ver como os traços do rosto dele
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vão se comportar diante de mim,
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como suas mãos vão se movimentar,
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quero ver se meus olhos se diluirão em águas salgadas,
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e como os seus braços a isso irão responder.
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Não vou até lá para nada.

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Eu quero conversar isso pessoalmente,
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olhos nos olhos,

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pra que ele sinta os meus olhos alfinetando seus olhos
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e essa dor afete seu coração do mesmo modo que ele afetou o meu.
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Sem afeto.









02/12/2008
Uma dor passada, é dor passada. Hoje.

sábado, 1 de maio de 2010

Aos Bons Ventos

Eu sempre tive muito gosto pelos livros de capa dura, bom, ao menos especialmente por estes. Na verdade, eu sempre tive muita admiração por pencas de livros organizados em estantes. Ou até mesmo desorganizados. Eu sempre tive mesmo é vontade de ter muitos livros, milhares deles, cuidadosamente postos em várias estantes, onde nela haveria uma escada para que eu pudesse alcançar os livros que estivessem lá em cima. E todo dia ao invés de sair de casa para olhar futilidades sempre disponíveis porém cheias de pré-requisitos através de vidros e mais vidros; ao invés de ligar a tv e ficar vários minutos ou até horas olhando para uma tela onde propagandas e mais propagandas e programações simulacrais que de nada, ou quase isso, me acrescentam; no lugar de simplesmente não fazer nada e pensar em bobagens, eu teria sempre, na minha casa (quando eu tiver uma), várias estantes lotadas de livros e vários livros de capa dura com letras douradas, preferivelmente. E me prostarei em um divãque estaria posto estrategicamente de frente para minha estante, e meus livros exerceriam o cargo de um analista. Meus livros, meu analista. E todo o dia eu iria deitar-me ali, e devanear com meu analista - e ele nunca iria tachar-me de louca. Ora, sendo todos os livros uma constituição de loucuras e sanidades em folhas, como poderia? Eu veria em todos aqueles livros milhares de pessoas que morreram e que, de algum modo, continuaram vivas. Outros vivos que nunca morreão. Alguns, até, que nem sequer existiram grosso modo, mas se imortalizaram. E então, imaginaria se um dia eu estaria presente num lugar como aquele, numa estante, em uma biblioteca, ou num móvel de cabeceira, na forma de, no mínimo, um livro pequeno - e, preferencialmente, de capa dura. Imaginaria que se eu me livrasse, talvez, eu não seria tão finita quanto a carne em que habito - não que sou. Se, após a morte da carne, eu viveria no mundo dos que aqui ainda ficam e em seguida morrem, e que seus filhos permanecem e depois têm filhos que em seguida morrem e os filhos dos filhos dos seus filhos também têm filhos (ou não), mas eu realmente imaginaria se até neste provável futuro eu ainda continuaria aqui se eu me fizesse livro. Se eu me livrasse. E todos os dias eu passaria por minha estante e lhe farias odes e mais odes acompanhadas por lira, se eu pudesse tocar. Eu teria uma vitrine para todo dia olhar e não precisaria de dinheiro para ser melhor recebida; nela não haveriam objetos passíveis de sair da moda ou que dentro de alguns meses não me servisse mais. Não seria bem uma vitrine. Seria um misto de vitrine, biblioteca, santuário, altar, imaginação. E divã. Principalmente divã. Nas minhas futuras estantes eu eu teria, nas contáveis e finitas páginas dos livros que ali hão de estar: o infinito. E talvez, repare, talvez, o rémedio pra minha loucura que não é diferente da loucura dos que estão em manicômios. O açúcar em forma de remédio.
Texto com um toque da minha tchai,  

terça-feira, 13 de abril de 2010

Informes in úteis

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3h23: eu ainda estou acordada passa um carro e dele jogam uma garrafa de vidro que se espatifa no chão e eu consigo escutar o barulho estando no terceiro andar onde há dois mensageiros do vento que não me deixam sozinha nem me relegam a um silêncio imenso onde eu poderia perder a voz e foi nesse ínterim que eu vi que eu não estava acordada sozinha e percebi que havia alguém que me acompanhava desde sua insônia e então eu passei minha vista sobre essa ausência de sono e daí resolvi deitar na cama ainda bagunçada chamar meu cachorro pra me fazer companhia lamentar a ausência do meu abraço cotidiano e fechar os dois olhos que possuo mais os dois que me faltam e talvez conseguir dormir porque a cabeça muitas vezes não pára quando o corpo deseja
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22/03/2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

À meu corpo separado de mim

..Não. Não brinque com meu passado. Nem me critique fazendo uso dele. Sequer faça uso dele, isso foge ao teu controle. Isso repercute mais do que imaginas repercutir no meu presente, no meu futuro. Não mexa com o que está petrificado em mim, meu passado é algo que não se pode desfazer. Nem diluir. Ou apagar. Não me faça reviver o que já passou, o que a terra enterrou nos confins do arrependimento e muitos posteriores aprenzidados, que enterrou em mim mesma sendo uma parte constituinte do que hoje eu sou, e serei. Não, não jogue assim tão sujo. Sujo. Eu sugo. Fujo. Não. Meu amor, meus olhos, ouvidos, meus pés e meu caminho: desculpa se algumas vezes em outros tempos eu te feri sem saber. Desculpa se um dia fiz-te mal sem imaginar que em uma tarde de verão chegarias. Não, minha vida, não me devolvas o passado junto com teu ódio por ele. Isso já passa de ser demais para mim. Não me jogue o tão sujo, que eu não aguento a dor. Não me jogue o tão sujo. Um dia vieste apontar com teu dedo, assaz empoeirado, a poeira debaixo da minha carne. E dessa carne fiz um pouco da dor da alma sair avermelhada. Não, não voltes a jogar tão sujo assim que eu não posso mais. Que eu não gosto. Eis que nisso sou eu confrontando-me a mim mesma - e dessa luta pode ser que um dia me saia toda a alma pela carne. Olha, ainda lembro de uma noite que passamos na praia, juntos, que eu decidi que quiçá um dia em outra vida foste meu. Foi naquele dia que eu percebi a completude de nós dois. Eu na minha euforia, tu no teu jeito contido: somos juntos um todo que é só metade quando separados. Lembro ainda do nascer do sol e nós ainda juntos sentados na praia, desenhando na areia. E desenhávamos nosso futuro sem saber. O caminho pra isso foi amargo, severo. A colheita não foi das melhores, e, confesso-te ainda: não foi nada afortunada. Ou quase nada. Sem embargo, parece-me tudo isso ter sido necessário, toda a amargura dos meus frutos quase inúteis para que depois desse longo e duro período de inverno cruel chegares junto com o sol. Então, não. Não meu amor, meu corpo separado de mim com exceção do meu coração, sendo neste espaço ocupado pelo teu coração carregando o sentir do meu, nunca mais: me venhas com meu passado de novo.
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El pasado es mío, de nadie más. Mi pasado es mi pasado. No importa a nadie más que yo. Pasado es pasado, pero es mi pasado.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Confissão II

Nunca te quis, nunca sequer pensei em ti. Todas as vezes que quis ir mais rápido do que o carro podia e, sim, voar os 120km que às vezes nos separam, todas essas vezes que desejei chegar o mais depressa possível: não foram por tua pessoa. Sequer um dia imaginei-me contigo! Oras, contigo? Nunca! Tinha apatia por ti desde o dia em que vislumbrei teu rosto. Sabe aquele dia que eu te pedi um cigarro? É... só pra puxar conversa mesmo. Olha, isso não passou de uma mera tática minha pra não parecer mendiga de cigarros alheios, daí enrolei um pouco, dei uma de simpática e te deixei com um cigarro a menos na carteira. Mais: depois que apareceste em minha vida, tudo continuou aquela mesmisse. A casa já não é a mesma. Odeio chegar em casa e sentir teu cheiro, odeio acordar pela manhã e ver o tapete do banheiro fora do lugar. Sinto asco até pela tua sombra. Vou jogar fora esse ovo de páscoa que me deste. Depois que entraste na minha vida eu desisti de um dia me casar e ter filhos e todo o blá blá blá e as conseqüências de se casar e ter filhos. Também desisti de envelhecer ao lado de alguém: decidir ser uma velha nova, daquelas lipodadas, de olhar meio oriental como um resultado das plastificações em prol da estática da idade. Olha, vou te dizer a verdade. A verdade é, sei que não vai doer: não quero mais te ver, nunca mais. Abdico de ti como quem abdica de fazer qualquer coisa na manhã seguinte a um porre: sem qualquer hesitação, sem qualquer esforço. São quase seis horas da manhã e tudo o que eu fiz desde que, para minha felicidade, saiste por essa portinha aqui de casa foi não pensar em ti ou em qualquer coisa que esteja relacionado contigo. Ah, não tranquei a porta de propósito. Quanto à verdade... a verdade é que já não te quero mais, nunca mais hei de querer-te. Estarei melhor só, comigo e não mais só. As coisas fazem mais sentido assim e tudo o que eu disse e disser aqui não deverá ser considerado pelo avesso. Desde já não penso em ti, nem pensarei. Teu nome nunca ousarei proferir mais uma vez. Teus gestos nunca sequer me fariam falta, teus abraços... repudio-os! Prerifo o frio entre os braços que já não se encontrarão. O vento e sua falta de destino: a falta de caminho. Prefiro preferir não querer-te mais, nem mais. Nunca te amei, nunca te quis. Não te amo. Feliz dia primeiro de abril, des(amor).

segunda-feira, 29 de março de 2010

Tu quoque, Brute?


É muita ousadia que se tenha sinais de vida e coração meus escancarados com tamanha sinceridade e nenhum mistério. Absurdo como os acontecimetos tomaram assento e me deixaram no chão. Levaram-me ao chão como nunca imaginei um dia ser levada, muito menos por quem me levou, ou melhor, me empurrou. Sem querer ou não, não se sabe. Sabe alguém? Eu não sei, nem sei se quero saber se foi sem querer ou não. Restou pouco, ou quase nada. Nada não restou porque não haveria de ser assim. Nunca se resta nada de alguma coisa, sempre sobra algo. Amor, dor, pudor, cinismo, frustração, medo, raiva... Sempre resta algo texterível, ou nem sempre. Mas sempre resta algo. Neste caso, restou o intexterível - e agora, talvez, o incosturável. Onde as palavras não se costuram, onde a vida não se remenda, onde os braços não se encontrarão em abraços - onde as almas nunca separadas e no entanto sequer um dia unidas, talvez, não venham a se entender em completude. O fato é que quando jogaram-me ao chão, eu, ainda que não estivesse com gana disso, conheci o chão. Pior, eu senti o chão! E a dor de nele estar. Foi mais que uma simples queda. Foi muito mais. A partir daí passei a tocar com a ponta dos dedos o chão, não porque eu queria fazê-lo, mas sim porque tinha de fazê-lo. É uma conseqüência brutal para os sonhadores. Os sonhos, as fantasias, tudo já não fora o mesmo. Pra mim, foi e ainda é uma conseqüência imperdoável, isso de sonhar ao mesmo tempo que ter de pôr os pés no chão por medo de ter medo. Isso de no meio do sonho voltar à realidade, de extasiar-me durante o vôo e subitamente ter que parar. Tudo isso porque alguém um dia fez com que eu sentisse a dor de chegar até o chão - sem eu nunca planejar. Então, eu espero agora que a ausência que te restou na mão esquerda seja refeita em palavras e que essas palavras sejam, no mínimo, tomadas em forma de explicações e que a fumaça com forma de interrogação que restou do meu cigarro seja desfeita pelas respostas das formas que tomam o incinerar da tua nicotina.

domingo, 21 de março de 2010

A Confissão

Não, querido, eu não tenho essa propriedade de que tanto falas ser necessário ter para então poder manifestar-se sobre determinado assunto. Sou bem despretensiosa, principalmente neste ponto, de modo contrário, nem falaria tanto. Talvez nem poderia falar tanto ou sequer pouco de mim mesma, pois que não me estudei, e o que sei sobre mim não passa de um achismo que por ora impera até outro dia não mais existir. Olha, eu não estudei bem a história, não sei das curiosidades da Segunda Guerra Mundial, muito menos dos nomes dos comandantes nazistas e seus cargos. Não li muito sobre filosofia. Não sei bem o que dizia Platão, ou melhor, quase não sei. Nunca estudei bem Sócrates, humildemente li algumas páginas de Nietzsche e menos ainda sei algo sobre Cícero ou Anaxímenes. Porém, penso. Não sei nada sobre as belas artes. Sobre pinturas: Picasso, Da Vinci, Goya, Van Gogh ou Cézanne, Modigliani, sequer posso identificar uma obra de Portinari. "O Grito", "Mona Lisa" ou "Maja desnuda", deles nada sei. Entretanto, vejo! Sei pouco, quase nada sobre Goethe. Com o coração li Vinicius de Moraes, pensei com Pessoa, tentei desvendar Lispector. Consegui apenas o que pude conseguir. Não conheço todas as obras de Rilke, García Márquez ou Llorca, sequer muitas ou o mínimo delas. Ganhei um livro de Victor Hugo e ainda não o li. Tenho na estante Dostoiévski e nunca o li. Nunca, ainda que tenha vontade, li Guimarães Rosa, nem terminei de ler alguma peça de Shakespeare. Ainda não terminei nem de ler Lolita, embora sempre planeje voltar à sua leitura. Sei pouco de todos eles. Porém, leio. Muitas vezes não decodifico as obras abstratas. Nunca aprendi a classificar frases como decassílabo, redondilha ou dodecassílado, embora na escola esse conteúdo me fosse passado. Pra falar a verdade, eu sempre quase nunca lia as obras ministradas pelo professor, entretanto, não me pergunte como, conseguia tirar boas ou ótimas notas. Não sei nada de métrica, sequer sei rimar. Não entendo nada de parnasianismo, classicismo, modernismo nem romantismo. Não sou especialista em contos de Machado de Assis, até hoje não li Dom Casmurro. Desconheço o olhar de Capitu. Não sei sequer tipificar literariamente o estilo de Saramago. Não entendo notas musicais muito menos partituras. Devaneio sobre noturnos, nada sei de sonatas. Não sei de cor nem salteado nem mesmo enumerado as músicas de Chico Buarque nem Frank Sinatra. Não, não sei da vida de Chopin, Bach, Beethoven, sequer Liszt. Mesmo assim, ouço! Ainda desconheço as obras de Dostoiévski, Camus, dei uma olhadinha em Schoppenhauer, também em Akhmátova - e sonho em ler Freud, Jung e Viktor Frankl. Entretanto, ouso. Sinto! Sinto, logo ouso. Da arte, da literatura: eu só entendo o que eu entendo dela. No mais, querido, e como se não bastasse, creio estar voltando a pensar que sou poeta. E não sei se isso é bom.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Ensaio sobre o amor III

Ela era uma flor. Ainda é - e, penso, será assim sempre. Não havia como não ser, não pela beleza de uma flor, mas sim por necessitar ser podada, por necessitar cuidado e atenção. E, sendo uma rosa, era muito vaidosa, como não podia deixar de ser. Era-lhe fundamental estar bonita, senão, de que valeriam as rosas, tão cheias espinhos? Carente e vaidosa, mas sem convencimento, perguntou: Amor, tu me acha bonita? Acho amor. Eu te acho bonita, senão, eu não teria ficado com você, né?! Bonita por fora e mais ainda por dentro. É claro que eu já fiquei com mulheres mais bonitas, lindas, já namorei até uma modelo. Mas, o que vale é isso aqui, ó! (Cabeça) Pra mim você é perfeita.

domingo, 14 de março de 2010

Dia Nacional da Poesia

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Há dias em que não temos nada
E pensamos ter tudo
Há dias em que sei que não tenho nada, mas quero ter tudo,
Fantasio ter tudo;
Pois só assim me conformo,
Ouso até dizer que me iludo,
Pensando que tenho tudo
Não tendo nada;
Nada que eu quero.
E o que eu quero é
Talvez, tão simples que nem o
Piscar de olhos sadios e
Felizes, o que falta nos meus.




Achei hoje um poeminha meu, em sua forma bruta, escrito em meados de 2005, quando eu tinha 14 anos de primaveras e verões - quando os invernos ainda planejavam chegar-me em toda sua fúria e castigo. Quando eu ainda queria ser poeta.

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sábado, 13 de março de 2010

Nota de Rodapé

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Tu que acolá estás: escreve -
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que eu ainda tento
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.ler-te.
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quinta-feira, 11 de março de 2010

Ensaio sobre o amor II

Deitada como nunca antes esteve, sentindo o que nunca antes sentiu, feito o que nunca tinha feito, ela pensou em tudo que lhe ocorrera durante suas primaveras e, principalmente, seus invernos. Pensou que tinha aguardado chegar aquele que lhe roubaria o corpo, (uma parte de sua liberdade,) sua intimidade, seus pensamentos e seus planos, anelos e sentimentos. (Considerando tudo isso, e que tudo agora não passa mais de querer, mas sim de poder, conseguir: não só uma parte da sua liberdade, mas quase toda - ou toda...). Roubaria-lhe calado ou pouco falante todos os seus sentimentos, pois tudo que iria sentir a partir deste, seria sentido com ele, para ele, por ele, através dele. Ela pensou: chegou e nem avisou. Quieto, calado, discreto. Sem gritaria, alardes. Sem um cavalo branco, olhos azuis e nariz afilado - nunca lhe importou -, chegou. Ficaram juntos, calados por uma multidão de palavras. Eram tantas palavras e não-palavras que não lhes fora possível sequer arriscar proferir uma letra. O tempo passava devagar, mas sentiam-se há anos conhecidos, há anos amantes. Talvez se conheciam há anos, muito antes de realmente se conhecer neste século. Estavam os dois ali, admirando-se pela escuridão, através do silêncio, sem saberem. Admiravam-se pela escuridão mas sem imaginar que seriam perfeitos à luz do dia, quando ela chegasse - e não iria demorar. Posso te contar um segredo? Pode. E no ouvido dela ele disse, com a voz baixa porém surpresamente, para seus parâmetros, gritante para uma confissão, e cochichou: te amo. Ela permaneceu calada por alguns instantes. Estava tentando assimilar o que acabara de ouvir. Nunca imaginou-o declarando isso assim, tão inusitado para seus modos. Jamais havia essas palavras foram tão belas aos seus ouvidos, tão doces. Nunca imaginara sequer que ele um dia diria isso com tanta ternura, muito menos que essas palavras entre os dois sairiam primeiramente da sua boca. Ela sabia que havia sido por amor, e não só por amor no sentido de pelo o amor, mas sabia que havia sido por amor porque que amor havia dentro dela. Amor por ele. Através dele. Amor. Ela descobriu, naquele momento, que por mais que por algum tempo houvesse tido a cegueira dos que vêem e por isso acreditado não ser nada, não valer nada e acreditado que sempre mereciam mais do que ela, naquele momento ela percebeu que havia doçura por trás da sua recente vulgaridade. Havia uma inimaginável vergonha das vergonhas. Ternura. Percebeu que a despeito de tudo que ousara pensar, ela valia muito - só não sabia o quanto, se esse quanto for possível de ser quantificado. Pela primeira vez envolta por braços e abraços do jeito que nunca esteve antes, ela franziu o cenho. Não queria dizer tanto em tão pouco tempo. Pensou: mas, o que é o tempo? O que é o tempo em relação ao que se sente? O mundo que adote outro, mas aqui o sistema de coordenadas é espaço-coração. Espaço-coração. Ele foi o primeiro e será o derradeiro. Não sem estar com os olhos transbordando felicidade em estado líquido, falou de coração pra coração, de alma pra alma: eu também te amo. E nessa hora voltou a ser menina que sempre fora - dentro da mulher que ela era, e é -, mas que por alguns instante-meses deixara de ser. Sentia, sabia que ele já era dela. Daqui a dois anos a gente vai se casar. Eu te amo.

terça-feira, 9 de março de 2010

Tanka

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é a nossa desgraça.
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porém, por outras vezes
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a nossa graça
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diferentes, essa é
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somos muito
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quinta-feira, 4 de março de 2010

Ensaio sobre o amor I

Não se conheciam até então. Começo de ano, algumas coisas começando literalmente, a maioria só prosseguindo. Ano novo nem é ano novo. É um ano velho com carapuça de novo e vem pra enganar as pessoas com os segredos que o futuro nos guarda. Ludibriando-nos com as possibilidades de um futuro bem melhor que o passado e o presente. O ano novo é apenas mais um presente. O ano novo é a mesma coisa que o ano velho, só que o ano novo é um presente novo, onde o passado sempre está presente - sorrateiramente. Cada novo dia, sim, é um ano novo - ou pelo menos uma possibilidade de modificar todo um ano em um dia novo. Enfim, algumas coisas continuando, outras coisas, novas, chegando. Pessoas, oras, também. Não se conheciam até então. Obviamente, ela proferiu as primeiras palavras. Ei, tu tem um cigarro? Tenho. Por que tu não fala com ninguém? E a conversa acabou nessa espontaneidade, se assim se pode chamar. Como obra de um destino um tanto malvado com algums pessoas, esses dois, tão opostos quanto dois lados, um positivo e outro negativo - porém, tão anulavelmente uníveis quanto - acabaram, a despeito da conturbada rotina e do tão provável futuro decadente, se juntando. Quer namorar comigo? Quero.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Taciturna mente

Ah! Menina desatenta, desastrada. Costumava sorrir e rir um riso alto. Gargalhava!
Moleca.
Andava conforme qualquer letra animada, qualquer canção sem sofrimento, dançava uma letra sofrida com prazer. Era arrodeada de amigos. Sempre.
Não costumava gostar de ficar em casa. Agradava-lhe sair a desbravar ruas já desbravadas.
Ela gostava de buscar o implícito no óbvio.
Tinha a alma transparente. Talvez ainda a tenha assim. Talvez a tenha hoje um pouco mais escura, mais sóbria - ou seria, embriagada de tanta realidade?
Terna, acreditava em sonhos. E os sonhos acreditavam nela, por isso lhes vinham tantos. Hoje, nem tantos.
O dia não foi dia, nem foi noite, nem tarde. O dia não foi dia. Foi o que não deveria ter sido. Faltou luz, faltou sombra, faltou calor, faltou chuva, faltou tudo. Sobrou. Ela sobrou. Faltou sonho.
Hoje, é só. Sozinha. Os amigos lhe mostraram que é difícil uma amizade de verdade. Aprendeu da pior forma possível. Pior forma impossível. Tocou-lhe a alma o cinismo.
Sente agora uma tristeza tão grande! Não pelos amigos, não, sabe? Ainda restam alguns pouquíssimos. Mas por algo que nem ela mesma saberia definir, se é que haveria definição para tanto.
Do nada, é acometida por um sentimento avassalador de tristeza. Uma tristeza imensa, sem fim.
Nem começo. Só meio.
Chorou.
Seu corpo de repente se desvanece. As pétalas caem, silenciosamente. Sabe como é?
Estado obtuso-agudo de infelicidade. Enorme. Pontiagudo. Silêncio.
Na varanda, já de madrugada, olhou o mar, o céu - sem estrelas, sem lua -, olhou pra dentro de si mesma. Tentou ver-se de fora.
Mais uma vez olhou o mar e o céu. Não. Não te assustes, talvez seja alguma coisa, ou talvez seja nada.
Ela olhou pra baixo e , não sem um quase irrelevante súbito ímpeto de gana, ousou: "E se eu pulasse?"
"O que aconteceria?"
"Como um passarinho, voaria?"
"Como humana, morreria?"
"O que aconteceria?"
Corou.
Chorou.
Essa menina... Conheço-a tão bem, tanto quanto não a conheço. Sou-lhe um outro eu. Outra dela, dentro dela mesma. Outra dela que vê mais do que ela vê, ou não. Mas que pelo menos chora além da razão (quiçá sem razão) pela qual ela chora. Ela, a que está sendo. Eu sou ela, a que um dia foi - e que permanece sendo. Taciturnamente.