quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Inaudito

...Deixei o cigarro.
...E nem era viciada (ainda). Provei um trago de cigarro pela primeira vez lá pelos meus 16 ou 17 anos. Eu queria sentir o gosto de fumaça na língua, sentir a saliva de nicotina. Depois quis fumar porque queria fumar. É, fu-mar. Eu queria era tá fumando por aí e queimando as convenções sociais. O protocolo. Só que depois o cigarro passou a acompanhar as festas. As bebedeiras. Os livros. E enfim, a solidão.
...O abstratismo (sur)real do amor começou a preencher o que antes a nicotina preenchia, o que antes a fumaça enchia, o que minha mão segurava e minha boca sentia.
...A ociosidade já não requeria mais um aparato fumacento. Os livros enfim repeliram aquela distração. E o álcool... bem, o álcool já não me é tão cotidiano. Não mais me sinto sóbria na embriaguez.
...Enfim encontrei o que com muitos trancos, choros e decepções procurei ao longo da minha vida desde que eu a vejo como vida - e morte.
...Lembro-me bem de quando criança. Adorava fantasiar-me, vestir um vestido por cima do outro acreditando que assim eu conseguiria uma vestimenta daquelas de princesa, bem volumosa. Via-me no espelho e não via o que o espelho me mostrava. Eu via o que eu queria ver. E eu via uma princesa em um vestido de seda, volumoso, dourado e reluzente e com luvas nas mãos. Eu não via a carcaça. Eu via o que a carcaça escondia - e não sabia por que escondia.
...Adorava me fantasiar. Também adorava escrever cartas e poemas - que eu acreditava serem excelentes. Gostava de desenhar, de colorir. Já tentei pintar quadros com tinta à óleo, dessa tentativa resultaram talvez umas três pinturas das quais eu só lembro de duas: uma, que ainda tenho, tem um lago e alguns coqueiros; a outra, que a traça uma parte comeu, depois, por isso e pela não compreensão da grandiosíssima arte que figurava na tela, foi jogada ao lixo (creio eu), e esta era composta apenas por um céu azul-escuro e uma única e relegada casa ao lado esquerdo da tela. Uma casa indescritível por sua indiferença e evasão.
...Uma vez no quintal da casa em que morei 11 anos, achei uma pena e com todo cuidado guardei-a. Pouco tempo depois, consegui tinta e tentei molhar a ponta da pena na tinta preta e em seguida escrever alguma coisa, qualquer coisa. Frustração. Não funcionou e minha tentativa de voltar no tempo e desenhar letras belas foi pro lixo junto com a pena.
...Houve um tempo, acabo de lembrar, que eu queria ser escritora. Uu tinha um caderno pequeno, brochura de 96 ou 46 folhas, não lembro, e nele eu escrevi um livro em oito folhas, frente e verso - mas nunca terminei. Só lembro que era uma narrativa em terceira pessoa. E era uma história de amor.
...Há quem diga que o amor é uma libertação. O amor nos liberta de muitas coisas, pessoas: vícios. Liberta-se de alguns vícios, prende-se em outros. Engraçado (para não dizer irônico) que o amor seja uma libertação - e em seguida, uma nova prisão.Uma prisão que por vezes gosta-se de estar. Outras não.
...Um dia desses descobri que muitas vezes também dói o amor. O que um dia me fora tão almejado: o amor correspondido. E não deixei de amar o amor - nem ele.
...Dentro de mim, além de mim, há uma vida secreta. E ela é só minha.
...E o cigarro? De súbito decidi que não queria mais. Porém, ainda há pouco quase saí sozinha de casa atrás de um. Ainda há pouco da vontade de fumar, ou melhor, de sentir alguma coisa que não seja por demais abstrata. Enquanto isso, disserto sobre alguns devaneios meus, todos dormem, alguns sonham. E eu, que deveria estar dormindo, ou acordada sonhando... eu sangro. Sangro para ter certeza de que estou viva: morrendo.

2 comentários:

sara castillo disse...

faço RI sim, e direito. finalizando uma e no início da outra. e você?

Vitor disse...

O cigarro já foi o símbolo da mulher bem resolvida, senhora de si.

Para mim sempre foi um vício como qlqr outro. Cada um tem liberdade para escolher seus vícios, escolher onde se prender.

Se vc de fato trocou cigarro por amor, eu diria que foi uma escolha sabia.

Desejo-lhes boa sorte. E que não passe a julgar-se boba, censurando seus textos. Continue escrevendo!