quinta-feira, 11 de março de 2010

Ensaio sobre o amor II

Deitada como nunca antes esteve, sentindo o que nunca antes sentiu, feito o que nunca tinha feito, ela pensou em tudo que lhe ocorrera durante suas primaveras e, principalmente, seus invernos. Pensou que tinha aguardado chegar aquele que lhe roubaria o corpo, (uma parte de sua liberdade,) sua intimidade, seus pensamentos e seus planos, anelos e sentimentos. (Considerando tudo isso, e que tudo agora não passa mais de querer, mas sim de poder, conseguir: não só uma parte da sua liberdade, mas quase toda - ou toda...). Roubaria-lhe calado ou pouco falante todos os seus sentimentos, pois tudo que iria sentir a partir deste, seria sentido com ele, para ele, por ele, através dele. Ela pensou: chegou e nem avisou. Quieto, calado, discreto. Sem gritaria, alardes. Sem um cavalo branco, olhos azuis e nariz afilado - nunca lhe importou -, chegou. Ficaram juntos, calados por uma multidão de palavras. Eram tantas palavras e não-palavras que não lhes fora possível sequer arriscar proferir uma letra. O tempo passava devagar, mas sentiam-se há anos conhecidos, há anos amantes. Talvez se conheciam há anos, muito antes de realmente se conhecer neste século. Estavam os dois ali, admirando-se pela escuridão, através do silêncio, sem saberem. Admiravam-se pela escuridão mas sem imaginar que seriam perfeitos à luz do dia, quando ela chegasse - e não iria demorar. Posso te contar um segredo? Pode. E no ouvido dela ele disse, com a voz baixa porém surpresamente, para seus parâmetros, gritante para uma confissão, e cochichou: te amo. Ela permaneceu calada por alguns instantes. Estava tentando assimilar o que acabara de ouvir. Nunca imaginou-o declarando isso assim, tão inusitado para seus modos. Jamais havia essas palavras foram tão belas aos seus ouvidos, tão doces. Nunca imaginara sequer que ele um dia diria isso com tanta ternura, muito menos que essas palavras entre os dois sairiam primeiramente da sua boca. Ela sabia que havia sido por amor, e não só por amor no sentido de pelo o amor, mas sabia que havia sido por amor porque que amor havia dentro dela. Amor por ele. Através dele. Amor. Ela descobriu, naquele momento, que por mais que por algum tempo houvesse tido a cegueira dos que vêem e por isso acreditado não ser nada, não valer nada e acreditado que sempre mereciam mais do que ela, naquele momento ela percebeu que havia doçura por trás da sua recente vulgaridade. Havia uma inimaginável vergonha das vergonhas. Ternura. Percebeu que a despeito de tudo que ousara pensar, ela valia muito - só não sabia o quanto, se esse quanto for possível de ser quantificado. Pela primeira vez envolta por braços e abraços do jeito que nunca esteve antes, ela franziu o cenho. Não queria dizer tanto em tão pouco tempo. Pensou: mas, o que é o tempo? O que é o tempo em relação ao que se sente? O mundo que adote outro, mas aqui o sistema de coordenadas é espaço-coração. Espaço-coração. Ele foi o primeiro e será o derradeiro. Não sem estar com os olhos transbordando felicidade em estado líquido, falou de coração pra coração, de alma pra alma: eu também te amo. E nessa hora voltou a ser menina que sempre fora - dentro da mulher que ela era, e é -, mas que por alguns instante-meses deixara de ser. Sentia, sabia que ele já era dela. Daqui a dois anos a gente vai se casar. Eu te amo.

3 comentários:

R.L. disse...

Dois anos?
Muito tempo pra tamanha paixão...

Lindo.
É verpidico esse conto?

vc some.. apareça!
beijos

R.L. disse...

E esse posso te contar um segredo?
foi roubado do meu conto a tinta sobre o papel?
hahah
beijos

Nath Dumas disse...

Lindo lindo ;)