terça-feira, 13 de abril de 2010

Informes in úteis

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3h23: eu ainda estou acordada passa um carro e dele jogam uma garrafa de vidro que se espatifa no chão e eu consigo escutar o barulho estando no terceiro andar onde há dois mensageiros do vento que não me deixam sozinha nem me relegam a um silêncio imenso onde eu poderia perder a voz e foi nesse ínterim que eu vi que eu não estava acordada sozinha e percebi que havia alguém que me acompanhava desde sua insônia e então eu passei minha vista sobre essa ausência de sono e daí resolvi deitar na cama ainda bagunçada chamar meu cachorro pra me fazer companhia lamentar a ausência do meu abraço cotidiano e fechar os dois olhos que possuo mais os dois que me faltam e talvez conseguir dormir porque a cabeça muitas vezes não pára quando o corpo deseja
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22/03/2010

terça-feira, 6 de abril de 2010

À meu corpo separado de mim

..Não. Não brinque com meu passado. Nem me critique fazendo uso dele. Sequer faça uso dele, isso foge ao teu controle. Isso repercute mais do que imaginas repercutir no meu presente, no meu futuro. Não mexa com o que está petrificado em mim, meu passado é algo que não se pode desfazer. Nem diluir. Ou apagar. Não me faça reviver o que já passou, o que a terra enterrou nos confins do arrependimento e muitos posteriores aprenzidados, que enterrou em mim mesma sendo uma parte constituinte do que hoje eu sou, e serei. Não, não jogue assim tão sujo. Sujo. Eu sugo. Fujo. Não. Meu amor, meus olhos, ouvidos, meus pés e meu caminho: desculpa se algumas vezes em outros tempos eu te feri sem saber. Desculpa se um dia fiz-te mal sem imaginar que em uma tarde de verão chegarias. Não, minha vida, não me devolvas o passado junto com teu ódio por ele. Isso já passa de ser demais para mim. Não me jogue o tão sujo, que eu não aguento a dor. Não me jogue o tão sujo. Um dia vieste apontar com teu dedo, assaz empoeirado, a poeira debaixo da minha carne. E dessa carne fiz um pouco da dor da alma sair avermelhada. Não, não voltes a jogar tão sujo assim que eu não posso mais. Que eu não gosto. Eis que nisso sou eu confrontando-me a mim mesma - e dessa luta pode ser que um dia me saia toda a alma pela carne. Olha, ainda lembro de uma noite que passamos na praia, juntos, que eu decidi que quiçá um dia em outra vida foste meu. Foi naquele dia que eu percebi a completude de nós dois. Eu na minha euforia, tu no teu jeito contido: somos juntos um todo que é só metade quando separados. Lembro ainda do nascer do sol e nós ainda juntos sentados na praia, desenhando na areia. E desenhávamos nosso futuro sem saber. O caminho pra isso foi amargo, severo. A colheita não foi das melhores, e, confesso-te ainda: não foi nada afortunada. Ou quase nada. Sem embargo, parece-me tudo isso ter sido necessário, toda a amargura dos meus frutos quase inúteis para que depois desse longo e duro período de inverno cruel chegares junto com o sol. Então, não. Não meu amor, meu corpo separado de mim com exceção do meu coração, sendo neste espaço ocupado pelo teu coração carregando o sentir do meu, nunca mais: me venhas com meu passado de novo.
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El pasado es mío, de nadie más. Mi pasado es mi pasado. No importa a nadie más que yo. Pasado es pasado, pero es mi pasado.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A Confissão II

Nunca te quis, nunca sequer pensei em ti. Todas as vezes que quis ir mais rápido do que o carro podia e, sim, voar os 120km que às vezes nos separam, todas essas vezes que desejei chegar o mais depressa possível: não foram por tua pessoa. Sequer um dia imaginei-me contigo! Oras, contigo? Nunca! Tinha apatia por ti desde o dia em que vislumbrei teu rosto. Sabe aquele dia que eu te pedi um cigarro? É... só pra puxar conversa mesmo. Olha, isso não passou de uma mera tática minha pra não parecer mendiga de cigarros alheios, daí enrolei um pouco, dei uma de simpática e te deixei com um cigarro a menos na carteira. Mais: depois que apareceste em minha vida, tudo continuou aquela mesmisse. A casa já não é a mesma. Odeio chegar em casa e sentir teu cheiro, odeio acordar pela manhã e ver o tapete do banheiro fora do lugar. Sinto asco até pela tua sombra. Vou jogar fora esse ovo de páscoa que me deste. Depois que entraste na minha vida eu desisti de um dia me casar e ter filhos e todo o blá blá blá e as conseqüências de se casar e ter filhos. Também desisti de envelhecer ao lado de alguém: decidir ser uma velha nova, daquelas lipodadas, de olhar meio oriental como um resultado das plastificações em prol da estática da idade. Olha, vou te dizer a verdade. A verdade é, sei que não vai doer: não quero mais te ver, nunca mais. Abdico de ti como quem abdica de fazer qualquer coisa na manhã seguinte a um porre: sem qualquer hesitação, sem qualquer esforço. São quase seis horas da manhã e tudo o que eu fiz desde que, para minha felicidade, saiste por essa portinha aqui de casa foi não pensar em ti ou em qualquer coisa que esteja relacionado contigo. Ah, não tranquei a porta de propósito. Quanto à verdade... a verdade é que já não te quero mais, nunca mais hei de querer-te. Estarei melhor só, comigo e não mais só. As coisas fazem mais sentido assim e tudo o que eu disse e disser aqui não deverá ser considerado pelo avesso. Desde já não penso em ti, nem pensarei. Teu nome nunca ousarei proferir mais uma vez. Teus gestos nunca sequer me fariam falta, teus abraços... repudio-os! Prerifo o frio entre os braços que já não se encontrarão. O vento e sua falta de destino: a falta de caminho. Prefiro preferir não querer-te mais, nem mais. Nunca te amei, nunca te quis. Não te amo. Feliz dia primeiro de abril, des(amor).