sábado, 1 de maio de 2010

Aos Bons Ventos

Eu sempre tive muito gosto pelos livros de capa dura, bom, ao menos especialmente por estes. Na verdade, eu sempre tive muita admiração por pencas de livros organizados em estantes. Ou até mesmo desorganizados. Eu sempre tive mesmo é vontade de ter muitos livros, milhares deles, cuidadosamente postos em várias estantes, onde nela haveria uma escada para que eu pudesse alcançar os livros que estivessem lá em cima. E todo dia ao invés de sair de casa para olhar futilidades sempre disponíveis porém cheias de pré-requisitos através de vidros e mais vidros; ao invés de ligar a tv e ficar vários minutos ou até horas olhando para uma tela onde propagandas e mais propagandas e programações simulacrais que de nada, ou quase isso, me acrescentam; no lugar de simplesmente não fazer nada e pensar em bobagens, eu teria sempre, na minha casa (quando eu tiver uma), várias estantes lotadas de livros e vários livros de capa dura com letras douradas, preferivelmente. E me prostarei em um divãque estaria posto estrategicamente de frente para minha estante, e meus livros exerceriam o cargo de um analista. Meus livros, meu analista. E todo o dia eu iria deitar-me ali, e devanear com meu analista - e ele nunca iria tachar-me de louca. Ora, sendo todos os livros uma constituição de loucuras e sanidades em folhas, como poderia? Eu veria em todos aqueles livros milhares de pessoas que morreram e que, de algum modo, continuaram vivas. Outros vivos que nunca morreão. Alguns, até, que nem sequer existiram grosso modo, mas se imortalizaram. E então, imaginaria se um dia eu estaria presente num lugar como aquele, numa estante, em uma biblioteca, ou num móvel de cabeceira, na forma de, no mínimo, um livro pequeno - e, preferencialmente, de capa dura. Imaginaria que se eu me livrasse, talvez, eu não seria tão finita quanto a carne em que habito - não que sou. Se, após a morte da carne, eu viveria no mundo dos que aqui ainda ficam e em seguida morrem, e que seus filhos permanecem e depois têm filhos que em seguida morrem e os filhos dos filhos dos seus filhos também têm filhos (ou não), mas eu realmente imaginaria se até neste provável futuro eu ainda continuaria aqui se eu me fizesse livro. Se eu me livrasse. E todos os dias eu passaria por minha estante e lhe farias odes e mais odes acompanhadas por lira, se eu pudesse tocar. Eu teria uma vitrine para todo dia olhar e não precisaria de dinheiro para ser melhor recebida; nela não haveriam objetos passíveis de sair da moda ou que dentro de alguns meses não me servisse mais. Não seria bem uma vitrine. Seria um misto de vitrine, biblioteca, santuário, altar, imaginação. E divã. Principalmente divã. Nas minhas futuras estantes eu eu teria, nas contáveis e finitas páginas dos livros que ali hão de estar: o infinito. E talvez, repare, talvez, o rémedio pra minha loucura que não é diferente da loucura dos que estão em manicômios. O açúcar em forma de remédio.
Texto com um toque da minha tchai,  

2 comentários:

.ana disse...

os livros são nossos melhores companheiros, sem dúvida.
e me identifiquei um monte com teu texto, pois tem algo que faz parte dos meus sonhos: eu quero uma sala cheia de estantes, um divã e almofadas coloridas pelo chão. é assim que imagino meu cantinho de leitura "ideal". heheheh
;)

beijos!

Vitor disse...

Eu só trocaria o divã por uma boa rede.

Adorei o "livrasse". Você tem umas sacações brincando com as palavras que me deixam com uma pontinha de inveja (daquela saudável).

Um beijo.