sexta-feira, 18 de junho de 2010

Saramago

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- Um dia, em meio a uma conversa deveras despretenciosa, alguém disse-me: Ah, então você vai gostar de Saramago! Passou um certo tempo até encontrá-lo. Lembro que conheci-o aos 16 anos, em uma livraria da cidade. Ia assim: não ia, até quando lá cheguei. Impávido, tinha essa conotação seu nome nas estantes. Seu nome e Saramago em pessoa, num livro. Não tinha a capa de quem implora para ir embora do lugar onde momentaneamente jaz-se vivo. Não tinha pedantismo na estampa. Nem pedia arrego. Levei-o comigo assim: sem nada, quase do nada, sem muito esperar. Alimentei-me de novas palavras, nova estética. E assim, com uma fome súbita, devorei-o. Conheci o até então desconhecido, e, pelo desconhecido conhecido no aconchego das minhas mãos, apaixonei-me. Morreram sonhos e pedaços de realidades. Queria não ser viva quando na morte de Saramago. Difícil viver a morte de um vivente que dissecou a realidade e o trascendental com a dor do cordeiro que é sacrificado e a ironia de quem sabe o que se passa, o escárnio de deus, e, principalmente, com um olhar em demasia humano. Queria não ser viva para morrer também, junto com ele, mas continuar respirando. E continuar vivendo. Melhor deve ser já conhecer um célebre já póstumo do que estar viva vivendo no mesmo mundo de um exímio vivente que está por ir-se. Agora, que foi-se. Uma ruma de valores estraçalhados que foram na mão do poeta, acabaram por irem todos ao túmulo por conta da carne. Uma ponta de felicidade, entretanto, me atinge: filhos, ou muito com isso parecidos, deixou Saramago. Filhos, ou pergaminhos; bíblias, não, que Saramago desconstruiu a divinidade não foi para tornar-se idolatrado feito deus; cartas, lembranças, pedaços seus em folhas, pelo mundo. Sementes. A mesma carne que daqui levou o português, fez com que o mesmo passasse da carne pro papel, do papel pra eternidade - até quando possa assim ser. Difícil ver sonhos e realidades encaminhando-se ao pó. Desconcertante, quase, respirar num mundo que já não respira Saramago. Um dia direi: era viva quando morreu Saramago, e até o dia de sua morte nunca me havia abatido qualquer sentimento de perda assim, inesperadamente aguda. Foi uma perda não só pra mim, mas para o mundo - que o perde como um pai que, ao contrário da ordem cronológica natural, vê morrer o filho; vertendo suas vezes de lágrimas. Quis não ser viva quando parou de escrever a mente de Saramago. Não ser viva, que também não é estar morta.
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3 comentários:

Le fer, l'or, précieux disse...

É, lá se vai um dos grandes...

Vitor disse...

Confesso que ainda nao tive coragem de tirar O Evangelho da estante, mas pude reverenciar o mestre em adaptações para o teatro e para o cinema. Talvez um dia eu esteja preparado para ele.

Idéias são a prova de balas, não envelhecem, nem são cremadas.

aaluah disse...
Este comentário foi removido pelo autor.