segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Aos Bons Ventos (II)

Amor,

é primavera! Chegaste-me no inverno, na chuva que me consolava chorar, na escuridão das tempestades - na vala de uma morte minha, e do outro em mim, mas tão-somente minha. Amei, sim. Amei-o. Amei muito. E, ao longo da minha vida, muitos. Todos foram e tu sempre és. Foste o único a ficar. Não porque quiseste, mais bem porque eu quis assim. Melhor dito: nem quis tanto assim, era mais forte que meu próprio eu e meu querer. Já estava esmorecida, naufragada dentro do meu próprio barco - tão tido por conhecido. Um anel pesava a mão, sendo-me uma âncora no meu próprio pesar. A liberdade de amar não compreendia a liberdade de voar, nem de estar. Era sempre uma liberdade de ser. Mas eu não era nada - não sou nada, nem serei coisa alguma. Eu queria a liberdade de estar. E de amar. E isso foi-me impossível. Amei, bem verdade, mas não pude ter o prazer de desleixar-me ao deleite de estar sendo. O amor que eu tanto buscara como salvação, mais bem foi-me uma prisão. Porém, amei - e muito. Mas se a liberdade era de ser, então eu só era o que tinha sido, nada mais. E eu sou o que fui, o que estou sendo e o que estou por ser. E sou também o que não sou e o que não sei se serei. Amei, mas sempre faltava alguma coisa, e essa coisa era... ser eu mesma. E de assim amar, mingüei - é que já não podia amar. Como poderia? Se eu já nem existia... Então, amei? Sim, amei. Mas amei sempre no limite do lugar-comum que pra mim representava o amor. Tu não foste salvação alguma, e nem assim queria que tivesses sido. Não quero salvação, não estou danada a nada. O pecado apenas é a má intenção. Muito menos gostaria que tivesses sido um reparo e tão-somente um reparo a mim mesma - aos cacos. À ti, nunca os restos, sempre inteiros – sempre inteira. Foste-me, depois de incontáveis encontros e desencontros, um esperado e desejado encontro, díspar de tudo e todos por ter sido inevitável e presumível, mesmo sem determinação de época, porém, ímpar de tudo por ter tomado lugar sem nenhum planejamento prévio - de prévio só o anelo. Nosso encontro aconteceu como com o perpassar natural do tempo e das coisas acontece a primavera. Simplesmente: acontecemos! E então senti-me real e surrealmente caminhando sob uma chuva, só que dessa vez não uma chuva salgada, nem consoladora de amarguras, mas uma chuva de flores de cerejeiras. Sinto-me. Eu estou apenas te dizendo o tanto que eu já quis alguém, e com isso também te digo o tanto que te amo - nem mais, nem menos: infinitamente. Não me apagas nenhum passado, que isto já é o que já diz ser. Entretanto ocupas já todo o meu coração.
E é isso, é exatamente isso! Não és minha metade. Não preciso que tu sejas minha metade, nem eu a tua, já te o disse. Mas que sejamos completos e que ainda assim, eu e tu sigamos querendo um ao outro sempre perto. Assim querendo-te, descobri o que é o amor, que é tudo, menos querer que o outro preencha os vazios que pensamos possuir. Que é tudo menos delegar responsabilidades ou comprometer-se ao vir-a-ser; que é tudo menos predeterminar a si mesmo e ao outro. Contigo descobri que o amor só acontece quando há liberdade, não de ser, mas sim, também, de estar. A liberdade de poder desleixar-se com o presente de estar e o futuro de ser. Só assim acontece o amor, como a primavera: quando, mesmo inteiros e completos, queremos outro do nosso lado, não alguém, apenas, mas uma pessoa humana, "demasiadamente humana", um ser perfeito em toda a sua imperfeição. Então, eis que aí descobri quando acontece o amor: o amor chega quando se pode estar sendo. O amor só acontece quando, no âmago da completude do nosso ser, do nosso tão-somente ser, bastemo-nos sozinhos em nossa solidão de ser inteiro, que nos bastemos com o solilóquio de que é necessário ser para assim existir e, enfim, amar. É assim que acontece e floresce o amor. E assim, descobri o que é o amor. Eu, em toda minha completude, inteirice e soliloqüez, em toda minha perfeita falta de perfeição, se te chamo de amor, é porque amor pra mim o és. Porque tu és o amor.
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Que levem os bons ventos sempre eu na tua direção e tu na minha



A Confissão (III e à outra pessoa)

Posso afirmar que talvez um dia teus olhos me troquem por outra mirada. Ouso ainda dizer que teus olhos podem ainda não me fitar por inteira, mas sim, com um pouco de soslayo no olhar. Não creio que seja por querer, talvez, se verdade, seja mais forte que tu mesmo. Ainda assim, com o amor escravo que a ti sempre devotei, serei feliz. Porque terei sido feliz ao menos uma vez só por ter vislumbrado teu sorriso. Sei que não te amo, apenas. E se assim tenho dito, realmente desejo que fique claríssimo que o que eu sinto por ti só pode, no mínimo, expressar-se nessas meras 7 letras. Estou inspirando e expirando sentimentos que ainda não posso textear. Só consigo sentir - sem ainda nomear. Porque eu, tu e o que eu sinto que faz com que eu e tu sejamos nós, para isso... para isso não há palavras que definam. Eu te 8.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Mon amour,

eu te amo, tão absurdamente, tão inteiramente, tão sem fim, e tanto!
que dizer apenas isso parece dizer pouco,
e essa saudade é uma tortura - que só é doce porque é tua;
vou inventar um novo vocabulário pro amor,
esse amor,
ínfimo
diante
de
nós
do
is
ii
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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Apenas um retrato

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Maria, que não é homem nem mulher, que apenas Maria é, com Onildo foi mulher. Não mulher, no sentido que ficou na frase. Mas mulher no sentido de mulher de. E foi de Onildo. De fato, papel passado, casamento consumado, marcha nupcial tradicional e padre, não. E isso ia ser por demais complicado. Onildo era filho de pastor, Maria de família católica, pendente ao espiritismo. Só tiveram a oportunidade de ensaiarem um casamento e sonhar com uma gravidez, que Maria ia ficar linda de bucho. E que Onildo, o que ia ser pai, ia querer falar de história com o guri. A palavra é feia, mas Onildo e Maria foram quase amancebados e o consumado antes do casamento. Os dois gostavam dos domingos, e do mar. Eram Maria que era Flor e Onildo que deveria ser Guerra.Maria, que já foi João dos Ais de Floripes, amou Onildo. E amou-o com tudo o que tinha: duas pernas, dois braços, dez dedos nos pés e dez nas mãos, um hímen, dois olhos, uma boca e um coração. Tinha nas costas o peso dos meninos que surrupiaram sua vida. Maria carrega agora o peso do menino que lhe foi homem, aquele que deitou seu corpo - e o coração. Tinha os olhos moribundos e a boca cheia de sonhos - os ouvidos cantarolavam. O sangue dançava uma alegria descompassada. Onildo deu a Maria mais do que uma casa para seu corpo. Foi-lhe uma casa para a alma - e para seus andares caleidoscópicos. Maria ria. Sorria. Suspirava. Mal dormia - e até pelo contrário, quando dormia. Dormia com ele, mesmo sem ele. Quis ter um filho. Quis até casar! Maria, tão revolucionária, agora de véu e grinalda. Maria mostrou que os sonhos são reais. Tirou o cético por sonhador. Tem agora a barriga faminta, a companhia ocupada e ainda os olhos moribundos, querendo morrer sem saber de quê. Ainda acredita em vidas passadas, naquela, em especial. Maria não conhece deus mas olhou pro céu e pediu que parasse a chuva de molhar, e a chuva parou, teimou outra vez, e parou. Maria não conhece o desconhecido e desconfia que é conhecida. Maria por Onildo chorou, e não porque tinha que chorar. Chorou porque chorou, porque chorar é chorar. Maria um dia dormiu e quis nunca acordar. Maria acordou. E o coração de Maria agora é só um coração. Maria sonhou. Acorda, Maria!
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12 de maio de 2010

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quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Informes in úteis II

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Algo me dizia que só serias meu quando eu um dia fosse tua. E eu sempre fui tua, sabes bem. Sempre me tivestes... porém, nunca possuiste-me. Eu sentia, sabia, ou melhor, eu não sentia, mas sabia. Sabia que quando se unissem os nossos corpos, não nos separariam os homens.
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