sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Taciturna mente

Ah! Menina desatenta, desastrada. Costumava sorrir e rir um riso alto. Gargalhava!
Moleca.
Andava conforme qualquer letra animada, qualquer canção sem sofrimento, dançava uma letra sofrida com prazer. Era arrodeada de amigos. Sempre.
Não costumava gostar de ficar em casa. Agradava-lhe sair a desbravar ruas já desbravadas.
Ela gostava de buscar o implícito no óbvio.
Tinha a alma transparente. Talvez ainda a tenha assim. Talvez a tenha hoje um pouco mais escura, mais sóbria - ou seria, embriagada de tanta realidade?
Terna, acreditava em sonhos. E os sonhos acreditavam nela, por isso lhes vinham tantos. Hoje, nem tantos.
O dia não foi dia, nem foi noite, nem tarde. O dia não foi dia. Foi o que não deveria ter sido. Faltou luz, faltou sombra, faltou calor, faltou chuva, faltou tudo. Sobrou. Ela sobrou. Faltou sonho.
Hoje, é só. Sozinha. Os amigos lhe mostraram que é difícil uma amizade de verdade. Aprendeu da pior forma possível. Pior forma impossível. Tocou-lhe a alma o cinismo.
Sente agora uma tristeza tão grande! Não pelos amigos, não, sabe? Ainda restam alguns pouquíssimos. Mas por algo que nem ela mesma saberia definir, se é que haveria definição para tanto.
Do nada, é acometida por um sentimento avassalador de tristeza. Uma tristeza imensa, sem fim.
Nem começo. Só meio.
Chorou.
Seu corpo de repente se desvanece. As pétalas caem, silenciosamente. Sabe como é?
Estado obtuso-agudo de infelicidade. Enorme. Pontiagudo. Silêncio.
Na varanda, já de madrugada, olhou o mar, o céu - sem estrelas, sem lua -, olhou pra dentro de si mesma. Tentou ver-se de fora.
Mais uma vez olhou o mar e o céu. Não. Não te assustes, talvez seja alguma coisa, ou talvez seja nada.
Ela olhou pra baixo e , não sem um quase irrelevante súbito ímpeto de gana, ousou: "E se eu pulasse?"
"O que aconteceria?"
"Como um passarinho, voaria?"
"Como humana, morreria?"
"O que aconteceria?"
Corou.
Chorou.
Essa menina... Conheço-a tão bem, tanto quanto não a conheço. Sou-lhe um outro eu. Outra dela, dentro dela mesma. Outra dela que vê mais do que ela vê, ou não. Mas que pelo menos chora além da razão (quiçá sem razão) pela qual ela chora. Ela, a que está sendo. Eu sou ela, a que um dia foi - e que permanece sendo. Taciturnamente.