domingo, 21 de março de 2010

A Confissão

Não, querido, eu não tenho essa propriedade de que tanto falas ser necessário ter para então poder manifestar-se sobre determinado assunto. Sou bem despretensiosa, principalmente neste ponto, de modo contrário, nem falaria tanto. Talvez nem poderia falar tanto ou sequer pouco de mim mesma, pois que não me estudei, e o que sei sobre mim não passa de um achismo que por ora impera até outro dia não mais existir. Olha, eu não estudei bem a história, não sei das curiosidades da Segunda Guerra Mundial, muito menos dos nomes dos comandantes nazistas e seus cargos. Não li muito sobre filosofia. Não sei bem o que dizia Platão, ou melhor, quase não sei. Nunca estudei bem Sócrates, humildemente li algumas páginas de Nietzsche e menos ainda sei algo sobre Cícero ou Anaxímenes. Porém, penso. Não sei nada sobre as belas artes. Sobre pinturas: Picasso, Da Vinci, Goya, Van Gogh ou Cézanne, Modigliani, sequer posso identificar uma obra de Portinari. "O Grito", "Mona Lisa" ou "Maja desnuda", deles nada sei. Entretanto, vejo! Sei pouco, quase nada sobre Goethe. Com o coração li Vinicius de Moraes, pensei com Pessoa, tentei desvendar Lispector. Consegui apenas o que pude conseguir. Não conheço todas as obras de Rilke, García Márquez ou Llorca, sequer muitas ou o mínimo delas. Ganhei um livro de Victor Hugo e ainda não o li. Tenho na estante Dostoiévski e nunca o li. Nunca, ainda que tenha vontade, li Guimarães Rosa, nem terminei de ler alguma peça de Shakespeare. Ainda não terminei nem de ler Lolita, embora sempre planeje voltar à sua leitura. Sei pouco de todos eles. Porém, leio. Muitas vezes não decodifico as obras abstratas. Nunca aprendi a classificar frases como decassílabo, redondilha ou dodecassílado, embora na escola esse conteúdo me fosse passado. Pra falar a verdade, eu sempre quase nunca lia as obras ministradas pelo professor, entretanto, não me pergunte como, conseguia tirar boas ou ótimas notas. Não sei nada de métrica, sequer sei rimar. Não entendo nada de parnasianismo, classicismo, modernismo nem romantismo. Não sou especialista em contos de Machado de Assis, até hoje não li Dom Casmurro. Desconheço o olhar de Capitu. Não sei sequer tipificar literariamente o estilo de Saramago. Não entendo notas musicais muito menos partituras. Devaneio sobre noturnos, nada sei de sonatas. Não sei de cor nem salteado nem mesmo enumerado as músicas de Chico Buarque nem Frank Sinatra. Não, não sei da vida de Chopin, Bach, Beethoven, sequer Liszt. Mesmo assim, ouço! Ainda desconheço as obras de Dostoiévski, Camus, dei uma olhadinha em Schoppenhauer, também em Akhmátova - e sonho em ler Freud, Jung e Viktor Frankl. Entretanto, ouso. Sinto! Sinto, logo ouso. Da arte, da literatura: eu só entendo o que eu entendo dela. No mais, querido, e como se não bastasse, creio estar voltando a pensar que sou poeta. E não sei se isso é bom.