segunda-feira, 19 de julho de 2010

Break Me Gently

- Estava passando a vista em algumas fotografias até meus olhos atentarem para uma em especial. E veio-me toda uma trilha sonora aos ouvidos - a música dançava comigo, sendo que eu não dançava, nem dançava com a música. Havia na foto uma menina, sentada, os cabelos quase longos, entrançados. Ia de branco, e a alma, abraçada. O rosto levava uma expressão de quem está contente com o que tem, o sorriso não mostrava os dentes, as mãos cruzadas acima do joelho, a menina recostada num banco, a menina com cara de rotina, mas com cara de quem apreciava isso. Naquele sorriso, que eu classificaria de doce, ela sorria toda - sem querer só rir. O vestido era longo, e era branco de uma brancura que tudo ficou branco, puro e inocente; que tudo ficou sonho, o sonho que ela nunca tinha sonhado, uma vontade como ela nunca tinha tido até então. Tudo ficou círculo, e círculos não têm fim. Não era um começo, certamente. E, também, não era o fim. Era o meio. Era quando a menina achava que tudo seria sempre meio, caminhada, nunca o fim. Ela tinha muito querer no coração. Sabia que queriam-se muito. Sentia que queriam-se desde muito antes, muito antes mesmo de se conhecerem - sem saber. Os fatos, até para céticos, tornaram-se fatos mágicos. Não mágicos no sentido daquele que faz mágicas, porque essas no fundo alguém sabe como acontece, mas mágicos no sentido de inexplicáveis, como um céu no nascer do sol parecer ter sido especial e minuciosamente pintado à mão por Michelangelo. Um céu que parecia sorrir, nuvens que pareciam abraçar. E o sorriso que carregava a menina era um sorriso de complacência com o rumo que as coisas tomavam; de desgustação para com o movimento da vida e de como as coisas, cada coisa e cada uma a seu tempo, iam tomando assento - e uma ponta de surpresa. Era um sorriso de condescendência para com o amor. A menina tinha no brilho dos olhos, como bem poderia dizer Fernando Pessoa: "Todos os sonhos do mundo". A música parou de tocar. Todo mundo tem uma música que lembra alguém. Eu tenho as minhas músicas, e, escutando uma música que um dia foi acompanhada por um pronome possessivo no plural, mas que nunca chegou a ser ouvida pelo nós, não pude deixar de lembrar da menina-do-sorriso-doce-e-rotineiro da foto e de como ela saiu feliz após jantar no Mc Donald's. Nunca tinha imaginado como a vida tiraria-lhe o assento de outra vida - até em outra vida. Bem verdade que verteram lágrimas os meus olhos. Mas não fui eu que chorei, foram só meus olhos - e debatiam-se os cílios. Somos lost souls...