terça-feira, 14 de setembro de 2010

Apenas um retrato

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Maria, que não é homem nem mulher, que apenas Maria é, com Onildo foi mulher. Não mulher, no sentido que ficou na frase. Mas mulher no sentido de mulher de. E foi de Onildo. De fato, papel passado, casamento consumado, marcha nupcial tradicional e padre, não. E isso ia ser por demais complicado. Onildo era filho de pastor, Maria de família católica, pendente ao espiritismo. Só tiveram a oportunidade de ensaiarem um casamento e sonhar com uma gravidez, que Maria ia ficar linda de bucho. E que Onildo, o que ia ser pai, ia querer falar de história com o guri. A palavra é feia, mas Onildo e Maria foram quase amancebados e o consumado antes do casamento. Os dois gostavam dos domingos, e do mar. Eram Maria que era Flor e Onildo que deveria ser Guerra.Maria, que já foi João dos Ais de Floripes, amou Onildo. E amou-o com tudo o que tinha: duas pernas, dois braços, dez dedos nos pés e dez nas mãos, um hímen, dois olhos, uma boca e um coração. Tinha nas costas o peso dos meninos que surrupiaram sua vida. Maria carrega agora o peso do menino que lhe foi homem, aquele que deitou seu corpo - e o coração. Tinha os olhos moribundos e a boca cheia de sonhos - os ouvidos cantarolavam. O sangue dançava uma alegria descompassada. Onildo deu a Maria mais do que uma casa para seu corpo. Foi-lhe uma casa para a alma - e para seus andares caleidoscópicos. Maria ria. Sorria. Suspirava. Mal dormia - e até pelo contrário, quando dormia. Dormia com ele, mesmo sem ele. Quis ter um filho. Quis até casar! Maria, tão revolucionária, agora de véu e grinalda. Maria mostrou que os sonhos são reais. Tirou o cético por sonhador. Tem agora a barriga faminta, a companhia ocupada e ainda os olhos moribundos, querendo morrer sem saber de quê. Ainda acredita em vidas passadas, naquela, em especial. Maria não conhece deus mas olhou pro céu e pediu que parasse a chuva de molhar, e a chuva parou, teimou outra vez, e parou. Maria não conhece o desconhecido e desconfia que é conhecida. Maria por Onildo chorou, e não porque tinha que chorar. Chorou porque chorou, porque chorar é chorar. Maria um dia dormiu e quis nunca acordar. Maria acordou. E o coração de Maria agora é só um coração. Maria sonhou. Acorda, Maria!
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12 de maio de 2010

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