sábado, 10 de dezembro de 2011

Lavanderia

Eu escrevo e me lavo o que
com água não se pode limpar
eu me escrevo e te escrevo
e nos lavo as roupas sujas
que cuidamos em sujar
estendo-as no varal à minha vista
te estendendo a minha vida
pra que não venha a chuva e as molhe vez mais
espero o sol quente secá-las
pra então ver tudo branco outra vez
limpo mais uma vez
vagarosamente e com cuidado recolho-as
imaculadas como as nuvens
leves levo-as pra dentro de casa
limpas dobro-as e guardo-as
e assim de roupas faço-me
esperando a que venhas tu sempre tu
uma vez mais perfumá-las e quiçá sujá-las
pra que eu inda salgada com o corpo nu
das roupas que me as despem tu
mais uma vez nos tenha que lavar de novo


15 de maio de 2011

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Colcha de Retalhos (Já retalhos de uma colcha)


A tua pele tem o frescor
dos bons ventos
da tarde


Com os retalhos diários
que um ao outro nos damos de nós mesmos,
e embora seja a agudez das coisas
e do tempo que somos
a própria agulha a nos perpassar,
À quatro mãos nos tecemos
o que por vezes esquecemos
quando esquecemos de transbordar
à dois corações nos cosemos,
com o que um dia tivemos,
igual ao sol que sempre acorda
e nunca dorme
Quando tudo apercebamos
Uma vida costurámos
e finda o perpassar da linha no tecido, estará tudo feito;
quando de rugas nossos rostos de fantasiarem,
Virá o arremate:
na cama deitaremos os dois a mirar-nos
um ao outro todos os rostos que fomos,
todos os momentos que, como
chegamos a estar aqui?
E então ante o sono derradeiro,
e embora sob o calor
do que outrora fora paixão,
nos abraçaremos por inteiro
sob aquilo que construímos com ardor
Ternamente um ao outro sorriremos,
e entregar-nos-emos ao Roteiro
debaixo de uma colcha de retalhos feita à mão.





Que nosso amor seja
uma colcha de retalhos,
nunca retalhos de uma colcha

15 de setembro de 2011