sábado, 14 de maio de 2011

"Tive sim"

Chamam-me Jacinto, Jacinto Saudades. Mas me renego a dizer que assim chamo-me. Sinto que sou dos que vêm o que já foi. O que silenciosamente diz o que não sente, e de dizer o não sentir já sente demais. Fui aquele que chora enquanto houver música, que há algum tempo andava pendendo pr'um lado e pr'outro por vias de me terem levado um amor - há quem diga que inda vou assim: torto pro mo de um amor me ter deixado, ao relento, me obrigando a buscar um outro brilho nos olhos que mascarasse o que de verdade me brilhava a vista. A menina dos meus olhos me deixou torto no andar, só que (quase) ninguém percebe. Quem percebe diz que já nem torto vou, que de torto agora só levo o olhar, que vezenquando paira no meio do nada, torto como uma balança que perde um peso. Continuei balança, coisa, sem sonho, estancado, vendo o outro lado no alto e eu, coisa, no chão. Balanço, pairo. João-Bobo. Sinto que fui dos homens o mais homem. Coragem. A sua escolha marcou minha cara, que da dor se marcou sozinha tão triste meu semblante e o coração cicatriz. Mostrei pela cara marcada o coração flagelado. Sinto que fui dos homens o mais homem que tenho tentado ser. Fraqueza. Inda ando elegante, mas já deito n'outra cama outra moça, aquela: essa, depois daquela com quem que deitei depois de ti. A cama, a tua, essa já não figura no meu quarto. Tem  agora outra forma, outro tamanho, teve um cheiro e agora tem outro, tem o cheiro dos cheiros que nela se deitaram. Os ventos da tua hora inda são os mesmos, e a cama, não esta que cá está, mas a cama, a minha cama, sempre foi tua - e continua sendo. A tua cama já não existe, tenho agora outra fronha, outro lençol. Outro amor, um grande amor. Outra... pessoa. Que me regra a vida, me mostra o certo, me dá o colo e me enxuga as lágrimas e me dá o corpo - e o coração; forra a cama, troca a fronha, ajeita as coisas fora do lugar, o tapete, as roupas, a toalha molhada em cima da cama, a cueca jogada no chão. Ela faz tudo o que nunca senti falta de que o fizesses, sequer quis. Ela é meu porto seguro. Ela é tudo. Menos você.  Ela é nada. Coisas de quem já teve um amor, o primeiro amor. O amor. Tu. Ela, ela é meu terceiro amor, acho mesmo que segundo, que também é amor. Mas depois do primeiro amor, querida, todos os amores serão apenas... amores.