quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

De a dor amar






pedes-me não reparar no amadorismo
mal sabes tu que m(eu) 
aforismo
adora
amarador
narra dor que sou










Desconto



                 Desperto, e, ao ver-me no espelho ao lado da cama, percebo os cabelos desgrenhados, o pijama frouxo, malamanhado, as olheiras que já não passam despercebidas, o resto da maquiagem que o travesseiro não tirou e, como se aqui ainda vivestes, com teus olhares me visto mesmo que nunca mais tenha te visto ainda me recordo do quão formoso estivestes na despedida, como se jamais antes houvestes planejado tua ida dá-me o chapéu tua última pedida voltas mais tarde tudo que te peço sem saber que de pedir me despedia dispersa ando em ti e no amor que não me tivestes embora tenhas tantas vezes deitado nesta cama onde tantas vezes deixastes cair tuas vestes por cima das tuas mentiras que com tuas roupas as revestes e me beijas com a língua e sinto as tuas lábias correrem até salgadas misturando-se a saliva doce de te esperar dos meus lábios que tantas vezes fingiram acreditar nos teus falsos prantos com os quais tantas vezes me envolvestes, fecho a porta, volto à casa, e é como se acabastes de sair ao trabalho, como de costume, e então me deparo com um envelope bem fechado com tua letra gravado o meu nome no anverso, meu nome destinatário por certo presságio de versos ser, vagarosamente abro-o fazendo da demora corolário do teu provável dizer querida à noite não tardo em meus braços te ter, em ter sido isso quimera ao fim de tua carta não acreditei, não tive voz, minha visão ficou turva, meus braços despencaram senti escapulir das mãos carta uma pitada aquosa de sal e envelope, minutos passaram sem que eu desse por eles sem que eu desse por nada dessa infeliz sorte tantos anos dedicada esposa fiel e delicada casa comida e roupa lavada por um caso uma comida e roupas suadas de 19 jovialidades em flor agora eu madura trocada faltaram-me forças para recobrar os sentidos o tempo a passar e a me ultrapassar, ainda atônita e perdida levantei-me e a largas e demoradas passadas movimentei-me em direção ao nosso quarto abro o guarda-roupa dele tiro com o que primeiro acho e então te visto com cuidado e esmero o teu melhor fato com o fato de que nunca fomos de fato um fato e te admiro e te sinto como se me chovestes e pairo no ar --- sentindo teus choviscos cada vez mais fortes e tuas gotas cada vez mais gordas encontrando meu só riso e molhando os meus cabelos as gotas gordas escorrendo pela roupa agora já molhada até não mais me distinguir da tua chuva e de chuva também estar sendo eu, é meio-dia, todos voltam para casa enquanto eu, eu abro a porta da entrada e saio à rua para o último gole de água-doce beber, e assim em meio aos incrédulos olhares e de já não me olhares desabotoando me despindo vou botão por botão, me despedindo e me despindo de todas as promessas e de todos os sonhos que me escre(vestes)





                                 - de olhos fechados levanto o rosto e abro a boca























aos dez8 dias do mês de dezembro do ano de dois mil de treze





quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Da escravidão





Disseram-me escritor
mas ritos não escrevo
em ritos não faço-me ver
eis me aqui pois
escravo
de ritos não entendo
e nada falo
com a sutileza do cravo 
confundo em meu peito estampado
escravo em espinho cravado
o árduo sofrer como fado e fardo


Disseram-me certa vez 
escritor
sou escravo ardo vejo dor
Disse-lhes retrucando então


escrevedor.










terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Da solidez





Solidão



Solidão não é estar desacompanhado
não é não ter alguém ao lado
não é o intervalo do desatar de mãos
não é ter carinho sem lhe dar afago


Solidão


é ter-se a si alado
é o tomar-se da sua própria mão
é afagar-se em afogar-se em si com carinho


Solidão é, antes de tudo, 
estar acompanhado com 

lidar
consigo.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

De ir-se e dar-se (II)

I



Suici(dar)-(se),
correto bem poderia ser
Suicid(ir)-(se):



II



Estrela d'alva 
anuncia
há de ser noite ou dia?



III



Da hora de suicid(ir)-(se):


desolação é o crepúsculo:
amorfo
nem dia
nem noite
indeciso
nasce a noite
morre-se o dia
desolado
sem sol e alado
daqui vou-me ou
fico?



IV



a noite teço:
amanheço?






domingo, 8 de dezembro de 2013

Querido Caderno I


Querido Caderno,


              Note que (até onde me lembro) nunca me referi a você dessa maneira. Não obstante, tal fato não se deve a que eu não goste de você, realmente querido és, mas pra falar a verdade, se assim hoje te chamei foi mais (ou quase só por isso, ou só por isso) porque me ausentei de pousar o punho a escrever em ti. Já nem sei bem o que contar, se o que eu fosse contar são palavras e nomes que em resumo resultam em redundância(s) facilmente encontrada(s) por aqui. Eu mesma continuo redundante, e até mesmo em alguns pontos redundantemente piorada, e, em outros, não tão redundante, não redundante. Hoje não sei se quero dedilhar as palavras e escutar algum sentido se delas viesse. Esse meu caderno já está cheio de eucentrismo e não sei mais se quero escrever e escrever e escrever até ver as folhas em branco preenchidas por rabiscos, palavras, sonhos e medos, até que a folha em branco se complete e vire uma pintura - onde eu, autora, posteriormente acabaria por tornar-me em mera arguta observadora qualquer, curiosa, em busca de um sentido para este quadro que se está compondo diante dos meus olhos ainda que o tenha parido (o estou parindo agora!) de mim mesma e que exatamente por isso não mais me pertence, sendo um desconhecido para mim.









Dos últimos dias







Como começar a falar sobre um começo? 

Pelo fim meço.


















Ajudem-me, que já não preciso de ajuda.







Um oco de mim



A cada 
tragada
um
pouco
de mim

Há 
em cada
tragada
um pouco 
de mim

A cada tragada
um pouco
de me traga
um pouco 
de mim

- Sou eu entrando e saindo de mim mesma.




26 de junho de 2009

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Sobre o dia de Finados - O dia em que Deverias ter Nascido






Lembrei-me de ti, pensei em te visitar.
Lembrei-me, porém, também, de que no meu coração não mais estás.

Bebi 
tua morte na cerveja, comemorei com etílicos teu fim em mim.

No isqueiro que acendia meu cigarro
Cremado 
fostes tu com o fogo que dentro de ti por mim nunca ardeu - e que em mim ardeu demais.

No meu coração, meu coração de dar dó,
falecido estás.






06 de novembro de 2009 
Mas aí tua mãe mexeu os pauzinhos e foste dia ímpar

Esc(ritos) antigos - n(em tanto)






Há alguém. Eu conheço uma menina que aprecia todas as coisas e seus detalhes, e este último é o que ela mais gosta. Os detalhes: ela vê o que muitos não vêem. Os detalhes são coisas muitas vezes desprezadas, subestimadas talvez. Mas também pode ser o medo de que o detalhe, esse mesmo detalhe, seja maior que toda a obra em si, mesmo escondido. O meu livro será um detalhe: desprezado, quiçá. Mas que ao menos seja percebido por pessoas como essa menina que tem olhos de compaixão por obras mal-sucedidas.


(Ou mal observadas).




17 de abril do ano de 2008




Ou obras-pessoas mal sucedidas.

(Ou mal observadas).


21 de novembro do ano de 2013











Mentiras de mim tiras



I


ai de mim 
que te quero assim
ai de ti
que não me queres a mim
ai de nós
que perto estamos do fim
ai de ti
em mim:
mim
ti.





II


Está na hora de mim te ires.




III


meu amor, me tenho
agora cansada, levo
nos braços o meu peso
de tanto penar, e carrego
ainda a ti num coração
já também cansado
de viver o que não tem vivido,
os ouvidos cansados 
do que tampouco têm ouvido,
um todo a contentar-se com o 
ralo
lembrar do teu olvido
muito embora tenha eu lembrado
de tudo ao que este amor não
fostes atento,
do quanto
te faltou e tens faltado
do quão
acertado
foi teu falho
em evitar o meu descontentamento
não por obra do acaso,
espelho na parede eiriçado,
tu te pões de frente e, assustado,
vês-me reflexo teu ao espelho, ocaso 
em que vês dentro do teu corpo
o meu corpo
a mover-te como se estivesse a vir do alto
te balançando feito
fantoche em minha mão
que agora despida do cansaço
te mostra por onde tem andado
o corpo que precede essa mão e esse esforço
de conhecer o desconhecido 
que fizeste do meu sonho:

es 
    traça
               h
             l    ado,

feito vidro:
quebrado;
levanto o teu olho
para que me vejas enquanto
decepo teu braço
esfaqueio 
teu coração,
retiro teus abraços
e teus sonhos
ainda não realizados:
tudo que de mim tiras.














quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Conto ou não conto?



























Como me cansa minha periodi(cidade). É desgastante estar no cume da mim mesmo e despencar-me de mim - e cair em outro eu que resiste em sempre prestar-me amparo; acaso alguma vez pedi ajuda? Eu estava no cume, que mais podia querer eu além de permanecer ali em cima? Quem disse que dali sairia para algum lugar de menor altitude? Sairia, sim, mas para outra mesma altura ou mais alto. Céu  - ou inferno: dão no mesmo - mas nunca para mim mesmo, nunca para meu limbo em mim. Isso não importa tanto, importa, mas nem tanto quanto outra questão: por que Caio? Por que sempre Caio do ponto mais alto do alto? Caio? Parece-me um certo descuido de mim e da minha felicidade. Se venho a cair será por desleixo, será por falta de atenção na minha alegria, melhor dizendo. Se me desleixo é porque algo mais importante está acontecendo à minha volta (ou dentro de mim) e estar no cume já não me define tanto quanto no momento que precede meu desleixo. Eu me queixo: será desleixo? A perícia pode muito bem levantar outras possibilidades tão ou mais prováveis quanto esta que acabo de elencar. Atentemo-nos à cena: despenco. Despenco. Cume. Ausência de testemunhas. Insuficiência de provas. Ponto.  
Caí? Não se sabe, não se sabe. Podia muito bem ter sido infarto fulminante - mas tão novo? se fosse mais velho poderia até ter agüentado, mas o coração quando pega gente nova assim não devolve. Emoção demais dá nisso, pode o coração ou o juízo não agüentar. Pensemos adiante. Queda? Causa natural? Por que não falha no equipamento de escalada? Averigüemos a responsabilidade e ponderemos as indenizações, afinal, não estraçalhou-se apenas um homem, mas seus sonhos, seus filhos e esposa (e amantes), seus pais se ainda os tinha vivos - coitados vendo contrariada a ordem natural das coisas, que infeliz sorte os terá atingido -, seus amigos, seus cachorros, mas também suas contas bancárias e as dívidas pendentes e também a convivência da família estraçalhou-se com a proposição de abertura de inventario e as alfinetadas e trocas de calúnia injúria e difamações por uma herança que mais tarde descobriu-se nada mais do que dívidas - homem mais mesquinho, foi atrás do sonho quando o sonho deveria ser a família e os outros. 
Falha no equipamento? Interrupção de um vida que não queria se interromper - pelo menos não naquele momento, como se de alguma maneira estivesse vivo mais uns anos adiante teria querido muito provavelmente ter caído daquele penhasco, naquele exato momento, como bem sucedeu, mas esta alternativa de destino não vem ao caso, não agora. Avancemos. O homem pôde muito bem ter caído, é possível afigurar-se também alguém ter lá estado e sorrateiramente tê-li empurrado penhasco abaixo, por que não? Quer coisa mais comum que o desprezo pelo outro (e suas adjacências)? Os dez mandamentos não prestaram atenção em que o próximo, o próximo sempre será o próximo, nunca chegará a sua vez, ou seja, estatui-se então a obrigação de haver sempre um próximo a quem deveremos respeitar mediante o sacrifício das nossas vontades e dos nossos desejos. Até hoje estão em vigor os dez mandamentos pois continuamos a tratar o próximo como próximo. Próximos que sempre foram e serão até que editem o texto da lei sagrada - quem sabe? Está ficando escuro (escuro, como? se é tudo branco... - está tudo claro demais) e no adiantado da hora só terei feito isto que estou a fazer, o que dirá que não terei feito alguma coisa de utilidade - porque as coisas inúteis são coisas algumas, embora muitas delas sejam mais úteis que algumas coisas de utilidade. O mistério permanece e eu estou passando da hora de já ter deixado tudo isto para dar cabo às atividades pendentes - como se esta não me fosse questão pendente de mais importância do que qualquer outra, literalmente pendente tanto quanto o homem que talvez esteja pendurado em alguma pedra na encosta do penhasco, segurado apenas por um pedaço de roupa - ele pode vir a cair a qualquer momento!!!!!! Acalmemo-nos os ânimos, acalmemo-nos! Afinal, são meras possibilidades, não é para tanto. Passei da hora, já é madrugada e continuo nesta folha a remoer possibilidades. E se por acaso nosso homem valeu-se de companhia, delegando-lhe confiança, mantendo-lhe a par de qualquer mudança de planos, quem sabe não lhe tenha ajudado com levar as garrafas de água, ou uma barraca... Veja, não se encontrou nada no local, sequer pegadas ou restos de alimentos ou qualquer outro indício de que nosso escala dor tenha estado ali. E se ele foi sequestrado no ápice de sua maior realização? Mais... e se... E se nosso homem sequer chegou ao pé da montanha? 
O caso não é dos mais fáceis. Muito embora não saibamos o que de fato lhe ocorreu, sabemos, sim, e com muita certeza, que este homem não se encontra em parte alguma, e em alguma cena deverá ter ficado, seja queda, falha, homicício, sequestro, ah! Outra possibilidade: fraude! por que não? Não seria o primeiro a fugir das responsabilidades pecuniárias mesmo que elas lhe custem família ou coisa para ele mais valiosa. Nosso homem, como carinhosamente temos-lhe chamado, não dá falta a ninguém, ninguém dá por ele, nem ninguém. O sono chega e todavia me resta quase uma folha branca inteira por riscar. E se... e se nosso homem sequer existiu? Que sentido há em ir adiante? Se antes nada houve, nada ouve... O silêncio é ensurdecedor - e uma dor surda. Este homem ou grita em silêncio ou com silêncio berra. Pode estar perdido - não querer ser encontrado. Estará perdido? Quiçá. Perdera a cabeça um dia e não a conseguiu achar. Mas cabeça nenhuma fora encontrada. Nada foi encontrado. Está perdido esse homem, onde perdido estará? Tenho minhas dúvidas, se vamos considerar a hipótese. Não é difícil que esteja perdido no mercado, ali consegue-se dinheiro rapidamente, as vendas são desafiadoras a cada pão-duro mais duro que o outro. Poderá muito bem estar perdido nos prazeres das mulheres (ou secretamente por homens). Não faz mal considerar a hipótese de estar também perdido no coração de uma mulher (ou de um homem, também). Todas essas alternativas são potenciais realidades em alto grau de verossimilhança, mas não poderia deixar de citar uma que talvez seja a mais verossímil: nosso homem está perdido, sim, mas não em algum bosque, alguma cidade ou por alguma praia, mas em si mesmo. Importa saber agora porque foi-se perder nosso homem no lugar mais próximo de si - não sabendo ele, quiçá, tratar-se do lugar também mais distante ao qual um poderia nunca chegar ou ter chegado - não sem ajuda. Quem lhe ajudou? Pediu-lhe ajuda? Quem tão solitário resolveu fazer de si uma mão que ampara? Quem precisa salvar-se a si salvando ao outro?
(Ou danando-o). Se obteve ajuda foi porque quem lhe estendeu a mão é quem mais precisava ser ajudado. Nosso homem perdido, assim o julgamos, pode perfeitamente haver-se encontrado na perdição - ou perdido a si no encontro -- a busca era a lucidez entrementes. E lhe temos julgado perdido podendo perdidos estarmos nós a que lhe conjecturamos nossos valores e crenças por quase certezas vendidas por possíveis verdades. Quem as compra? Perdido ou encontrado, sabe-se lá que foi deste homem, agora já não mais importa, não tanto quanto antes, não importa se não chega a lugar algum ou se parou sua caminha definitivamente em algum lugar da estrada por entender ser-lhe conveniente, o que importa é que independente de estar perdido ou encocntrado, em nenhuma das duas hipóteses estará o nosso homem caminhando para além da estrada. Ou caminha em círculos ou caminha em volta de si mesmo - é pouco provável estar muito lúcido. A busca é o que nos faz mover as catracas dentro de nós e o que nos impulsiona o trajeto; buscando estaremos sempre a chegar, sempre quase. Viver é estar sempre quase até finalmente morrer-se. Se está perdido ou encontrado, nosso homem então morreu em vida pois escusou-se da busca, vaga vago pelos confins de si mesmo, ou está sentado em uma poltrona na sala de alguma realização sua que julgou ser-lhe já o bastante. A vida não é bastante, ela se basta com não nos bastarmos - tem ódio aos suicidas pela petulância e atrevimento com que desacatam-na em ir-se quando já tudo lhes bastou. Não há onde enterrar o nosso alpinista, enterrou-se a si mesmo onde quer que esteja. Já passo a acreditar que entrou por uma porta dentro de si trancando-a e pela fresta jogando a chave longe. Pelo o que sei dele deve ter entrado pela boca, jogando as chaves pelo espaço entre o diastema dos dentes frontais - tinha-os charmosamente separados. Deve ter subido um pouco até o nariz para exalar pela última vez o aroma da montanha, desceu, passeou pelo estômago, sentiu o gosto amargo do que era doce, forrou o seu estomaguinho e seguiu adiante; pegou um atalho rápido descendo pela perna direita que sempre lhe levara primeiramente adiante, passeou pelos pés para recordar dos caminhos que até ali havia trilhado, deu meia-volta rumo ao pé esquerdo e subiu pela perna esquerda que sempre sucede as escolhas da direita, subiu, não sem sacrifício, a passadas largas e cansadas até o pênis onde deteve-se deixando-se ficar até quase esquecer a que tinha vindo e não mais sair dali, um lapso de sobriedade lembrou-o do muito que tinha ainda por fazer. Seguiu. Chegou aos olhos e tudo ficou verde, outra hora castanho, e nuances de mel, no tom mais claro passou a mão no ombro e percebeu um pequeno verme "devo ter esquecido de limpar-me apropriadamente, não te afobes, ponho-te agora o chão"e compadeceu-se, "sou tanto quanto tu és - mais bem não és". E deixou os olhos em direção às memórias. Subiu e com um pouco de esforço conseguiu entrar naquela massa densa e apertada que tem dentro da cabeça "então quer dizer que tudo quanto sou resume-se a isso"- tinha planejado rever o rosto da mãe, que devido ao tempo já nem conseguia mais lembrar, deitava-se à noite a implorar a todos os deuses e todas as coisas e por qualquer pessoa para que a visse em sonho e o sonho nunca vinha. Quis também sentir o gosto quase doce da primeira namorada quando tinha apenas nove anos - nunca mais soube dela desde que se fora com a família morar em outra cidade, na época não soube porquê lembro apenas dos comentários abafados e quase inaudíveis dos mais velhos lá de casa e da vizinhança "meu deus quanta monstruosidade", "que tragédia", "logo o pai?"e a mãe não parecia tão diferente assim já que levou "o pai"consigo mais a filha para bem longe fazendo questão de não fazer questão de dizer a ninguém aonde ia. De repente foi levado forçosamente para o outro lado da massa densa, encefálica, e viu-se arrodeado de gavetas, muitas gavetas, infinitas gavetas em um infinito que não parava de crescer, nunca havia visto aquilo antes, eram gavetas e mais gavetas, gavetas pelos lados, gavetas subindo empilhadas uma nas outras, não conseguia ver onde terminavam "que lugar é este?". Atreveu-se a abrir uma gaveta, estava escuro mas dava pra ver que uma luminosidade crescia, e enquanto crescia mais se podia ver o que estava encoberto pelo breu da gaveta, naquela: alguns sonhos de infância, um pequeno carrinho de ferro que ainda bebê ganhara do avô, o seu odioso e cansativo trabalho, os papéis do divórcio, quando ligeiramente e sobressaltado deu um passo atrás ao ver surgir das sombras da gaveta uns monstrengos nunca por ele vistos antes mas que por incrível que pareça sentiu-os grandes conhecidos seus de vida, tinham cara de frustração; frustração àqueles chamou-lhes. Abriu outras gavetas e mais outras e outras, algumas confusas outras supreendentemente explicatórias e monstrengos, muitos monstrengos a sair de dentro das gavetas uns a misturar-se aos outros até não mais ser possível distinguir se frustrações ou medos, ou cuidados, preocupações, angústias, misturaram-se e o barulho era ensurdecedor, por que agrupados assim se nunca os arrumei dessa maneira? quem é este que está a organizar as coisas sem que eu mande ou me peça? justo atrás de mim, nas minhas costas, e nunca dei por si... O barulho está cada vez mais alto, as coisas que remexi nas gavetas começam a cair do alto, uma moeda acaba de cair justo sobre minha cabeça ouço minha mãe gritar ouço o choro da pequena menina do beijo vejo seu último olhar de despedida olhando-me a mim com rabo-de-lho carregando sua boneca na mão enquanto vira a quina da porta escuto as lamentações dos vizinhos vejo o padre me perguntar se aceito o grito surdo do meu filho que nunca escutei seu choro e os papéis do divórcio caem sobre a minha cabeça no mesmo lugar onde bateu a moeda meu chefe me grita as folhas dos ipês do caminho de casa o incômodo raio solar que me acorda todos os dias pela manhã e que começa a me cegar os monstrengos a gritar --- saio dali correndo para qualquer lugar que me conforte, o homem foi buscar alento meteu-se dentro do ouvido a auscultar e escutar as palavras de conforto que tanto durante a toda a sua vida (vida?) escutou e para escutar também as mentiras que lhe apraziam tomar por verdades e algumas verdades por mentiras, embriagado delas ia andando e seguindo já sem saber o que tinha sido e quem era e quem é, ébrio andava pouco hesitante rumo a si mesmo sem perceber que estava a entrar agora no labirinto. Nunca mais souberam dele - nem ele de si.


















fins de outubro deste ano

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quebra-cabeça




Tenho estado há algum tempo já considerável bastante omissa ao que fora a este caderno inicialmente proposto.  Já quase tinha esquecido da sua função de "rotaciondo"- mais bem também já havia perdido o gosto de pôr-me a escrever qualquer coisa por aqui só por escrever. Lembrando da época em que o fazia, lembrei que era interessante porque falando qualquer coisa me levava a falar de outra coisa e de outra e de outra e eu acabava descobrindo uma coisa nova em mim que se eu não tivesse vasculhado em minhas trivialidades não as teria encontrado ali - na aparente insignificância que a despretensiosa investigação delatou: vou pensando e escre(vendo) ou escre(vendo) antes de pensar e, por vezes, ao término de uma frase surpreendo-me comigo mesma e aprendo mais de mim vendo palavras saírem aleatórias - cada uma, porém, tendo um sentido e um significado que ainda estou aquém em perceber. É quase um longo quebra-cabeça, onde as peças não estão de pronto dispostas à mesa: muitas peças à espera de serem posicionadas e encaixadas, outras ainda reclusas: vou brincando em montar-me esse quebra-cabeça de mim enquanto escrevo qualquer coisa como tudo isso aqui.






Aos vinte e cinco dias de fevereiro deste ano

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Meu Pai










passar na sala e ver meu pai fazendo uma das coisas que mais gosta: cena que vejo desde de pequena e que muito me apraz ver. ele ali sentado entretido com sua leitura, mas ali, sempre ali; perto, aqui. É o homem da minha vida inteira e é a razão de uma felicidade absurda de pouquíssimos segundos tantos quanto durem o momento em que desvio meu olhar para ele e sigo de volta para o meu quarto - segundos que bem poderiam durar uma eternidade em mim.









A propósito do Homem da Minha Vida








quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Embora vou












vou-me embora
queira tanto ficar














És uma saudade
que eu gosto
[por]que
me doa







terça-feira, 5 de novembro de 2013

De ir-se e dar-se

















Se
ir-se 
e
dar-se
for
suicidar-se
condenada ao inferno vou
resiliente a que me maltrates
- por um último instante 
de catarse

































inho







UMA 
RAPO(U)SA                    
 OUSA              
DE UM POUSO    
USAR       
O PASS(AR)INHO
CEDE                         
O NINHO - :














quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Amor há dias



Sou casa contigo
e tu,
casa comigo?




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Das mãos que carrego













quem me vê as unhas gastas
pensará de mim ser criada
de pratos ocupada

bem capaz ser sertaneja
na seca terra e gado
peleja

por certo juízo avariado
ânsia unha e dente
caqueado

mais bem me dirão puta
homem cigarro e suor
labuta

no meio da cidade
carros luzes bipes telefonemas humores
exaltados

que me vê as unhas gastas
pensará de mim tudo
menos fita dedos teclas
mãos à máquina
dizeres talhados.












segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Amanhã sendo







A cada detalhe de pele despida aparece como os primeiros raios solares do amanhecer:
os mesmos, tão velhos e, 
no entanto,
tão novos, inéditos


Assim surjo:
o velho pelo novo
hei de novo amanhã ser











13 de setembro de 2012


Nuando








Eu agora estou cada vez mais nua
despida dos acessórios
vestida apenas do essencial:
de mim






13 de setembro de 2012

Verbete:

Nuar: sinônimo de des(nu)(dar); 
ato do desnecesseário desp(ir)-se.



quinta-feira, 24 de outubro de 2013
















não é justo ir-se e calar as memórias como se delas fôssemos donos 
quando já ao tempo há muito pertencem.







O Espelho



















Lembro de quando saía de casa com pouco de roupa e pouco de vaidade, quando vaidade para mim era ser primeiramente eu antes que qualquer outra coisa, qualquer que seja, fosse. Porque antes de tudo e antes que tudo eu tinha que ser - apenas. Tento entrar naquele corpo que um dia me pertenceu - entrei - e me vejo ao espelho e o que vejo não reflete a imagem que o espelho projeta, vejo-me como sou, exatamente como sou e de repente não carrego mais roupas, não tenho mais orelhas, os olhos desapareceram-me, perdi as pernas que tinha, os braços cujas mãos me apontavam a mim mesma sumiram, os fios de cabelo caíam sinuosamente no chão, este que viu-se sem sustentar a quem instantes antes dava pé. Eu já não continuava mais ali embora ainda estivesse diante do espelho - que não me projetava, por que não me projetava? A falta repentina de alguma sugestão de mim mesma pelo espelho era um nada que me sugeria um tudo. Ao olhar-me no espelho eu, inconsciente ou não, independentemente disso ciente da reflexão que o espelho me traria - e ele mente - busco um encontro comigo mesma na forma, um conforto em minha aparência que não dá ciência do que sou, mas diz muito de mim - a forma inconforma. A minha fala aparentemente não tem nexo. Em muito mente o aparente, da mentira parente. Essa ânsia por atingir o que sou através do espelho me mostra o que o espelho não me mostra: as minhas angústias tão peculiares àqueles feitos de carne com seu medo de carne mais um dia sequer ser; a carne que busca conformismo em sua condição de carne pensante ainda assim carne, que procura com formar-se a resiliência na mesquinhez de si mesmo, à seita de perfeitar-se em peculiaridades de sua reles existência carnal, afeiçoando a vida com afeitar-se a barba há muito por fazer. Há muito por fazer que é tão pouco que é desprezado. Iria escrever agora para dar início a esta nova frase que iria começar com "nem eu"e de súbito detive-me nas primeiras duas letras. A frase a princípio seria: Nem eu sei como começar a fazer esse pouco que é muito. A frase terminou nas duas primeiras letras porque percebi o quão prepotente fui só de pensar e inclusive começar a dizer que "nem eu sei", como se eu soubesse de mais do que qualquer um, como se eu estivesse por cima da minha condição de eterna moribunda até que o nascimento da minha morte deste constante morrer a que chamam de vida me separe. Moribunda, saio da morte - finalmente morta: tenho vida. Isso também pude enxergar ao espelho na ausência do meu reflexo, uma breve refração de uma luz que ante ao espelho eu já não emitia. E o espelho me anula, me anula? A nula sou eu que intento desdobrar-me e números, com formar-se em algarismos que me ajudem a nortear o meu lugar no tempo e no espaço mundano onde ando em busca de mim mesma pelos caminhos das invenções humanas que em tudo propõem ser bússola para um destino indiferente a que nunca vai-se chegar. A nula sou eu que tento ser mais e acabo sendo mais porque me coaduno aos números alheios, porque não me basto em não saber se sou ímpar ou par e preciso me juntar ao dois ou três para alcançar uma definição - como se tudo fosse absolutamente definível - julgo-me rasa. Volto o meu olhar para o espelho e não sei se o odeio, não sei se lhe tenho afeto, percebo que juntamente às minhas pernas e meus braços sumiram-me também meus sentimentos - que julgava serem meus, tão somente meus. Não consigo odiá-lo! Não consigo sequer sentir indiferença, o que eu sinto é mais do que não me importar, é muito mais do que isso e na verdade nem se compara a isso, porque não é sequer sentimento, nem é cheio, nem vazio; (é menos!); não consegue passar pelo filtro carnal que sou, porque nem está e nem é o que está a me acontecer com nada a me acontecer. O espelho não me projeta, e ainda que assim o fizesse não poderia deixar de salientar que o que me saltaria a vista não seria nada mais do que um projeto do que sou: o que aparento: o que tento ser: o que não sou. Este espelho não me projeta, muito embora o pudesse fazer; mas este espelho, este espelho não me reflete porque não poderia nem poderá nunca jamais refletir-me: este espelho está. Eu sou. E o que sou é tudo o que eu aparento com não estar sendo nesta carcaça que na realidade de nada me serviria. O que sou ultrapassa meu entendimento pobre e prepotente de mim: este espelho não me reflete: o que eu sou não me é. -------------------------------------- Alguns anos depois volto a posicionar-me pretenciosamente despretenciosa diante do mesmo espelho que dantes nada me deu de volta, e o que vejo: vejo!
(Estou cega)






















aos vinte e dois dias de outubro de dois mil e treze