quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Amor há dias



Sou casa contigo
e tu,
casa comigo?




quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Das mãos que carrego













quem me vê as unhas gastas
pensará de mim ser criada
de pratos ocupada

bem capaz ser sertaneja
na seca terra e gado
peleja

por certo juízo avariado
ânsia unha e dente
caqueado

mais bem me dirão puta
homem cigarro e suor
labuta

no meio da cidade
carros luzes bipes telefonemas humores
exaltados

que me vê as unhas gastas
pensará de mim tudo
menos fita dedos teclas
mãos à máquina
dizeres talhados.












segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Amanhã sendo







A cada detalhe de pele despida aparece como os primeiros raios solares do amanhecer:
os mesmos, tão velhos e, 
no entanto,
tão novos, inéditos


Assim surjo:
o velho pelo novo
hei de novo amanhã ser











13 de setembro de 2012


Nuando








Eu agora estou cada vez mais nua
despida dos acessórios
vestida apenas do essencial:
de mim






13 de setembro de 2012

Verbete:

Nuar: sinônimo de des(nu)(dar); 
ato do desnecesseário desp(ir)-se.



quinta-feira, 24 de outubro de 2013
















não é justo ir-se e calar as memórias como se delas fôssemos donos 
quando já ao tempo há muito pertencem.







O Espelho



















Lembro de quando saía de casa com pouco de roupa e pouco de vaidade, quando vaidade para mim era ser primeiramente eu antes que qualquer outra coisa, qualquer que seja, fosse. Porque antes de tudo e antes que tudo eu tinha que ser - apenas. Tento entrar naquele corpo que um dia me pertenceu - entrei - e me vejo ao espelho e o que vejo não reflete a imagem que o espelho projeta, vejo-me como sou, exatamente como sou e de repente não carrego mais roupas, não tenho mais orelhas, os olhos desapareceram-me, perdi as pernas que tinha, os braços cujas mãos me apontavam a mim mesma sumiram, os fios de cabelo caíam sinuosamente no chão, este que viu-se sem sustentar a quem instantes antes dava pé. Eu já não continuava mais ali embora ainda estivesse diante do espelho - que não me projetava, por que não me projetava? A falta repentina de alguma sugestão de mim mesma pelo espelho era um nada que me sugeria um tudo. Ao olhar-me no espelho eu, inconsciente ou não, independentemente disso ciente da reflexão que o espelho me traria - e ele mente - busco um encontro comigo mesma na forma, um conforto em minha aparência que não dá ciência do que sou, mas diz muito de mim - a forma inconforma. A minha fala aparentemente não tem nexo. Em muito mente o aparente, da mentira parente. Essa ânsia por atingir o que sou através do espelho me mostra o que o espelho não me mostra: as minhas angústias tão peculiares àqueles feitos de carne com seu medo de carne mais um dia sequer ser; a carne que busca conformismo em sua condição de carne pensante ainda assim carne, que procura com formar-se a resiliência na mesquinhez de si mesmo, à seita de perfeitar-se em peculiaridades de sua reles existência carnal, afeiçoando a vida com afeitar-se a barba há muito por fazer. Há muito por fazer que é tão pouco que é desprezado. Iria escrever agora para dar início a esta nova frase que iria começar com "nem eu"e de súbito detive-me nas primeiras duas letras. A frase a princípio seria: Nem eu sei como começar a fazer esse pouco que é muito. A frase terminou nas duas primeiras letras porque percebi o quão prepotente fui só de pensar e inclusive começar a dizer que "nem eu sei", como se eu soubesse de mais do que qualquer um, como se eu estivesse por cima da minha condição de eterna moribunda até que o nascimento da minha morte deste constante morrer a que chamam de vida me separe. Moribunda, saio da morte - finalmente morta: tenho vida. Isso também pude enxergar ao espelho na ausência do meu reflexo, uma breve refração de uma luz que ante ao espelho eu já não emitia. E o espelho me anula, me anula? A nula sou eu que intento desdobrar-me e números, com formar-se em algarismos que me ajudem a nortear o meu lugar no tempo e no espaço mundano onde ando em busca de mim mesma pelos caminhos das invenções humanas que em tudo propõem ser bússola para um destino indiferente a que nunca vai-se chegar. A nula sou eu que tento ser mais e acabo sendo mais porque me coaduno aos números alheios, porque não me basto em não saber se sou ímpar ou par e preciso me juntar ao dois ou três para alcançar uma definição - como se tudo fosse absolutamente definível - julgo-me rasa. Volto o meu olhar para o espelho e não sei se o odeio, não sei se lhe tenho afeto, percebo que juntamente às minhas pernas e meus braços sumiram-me também meus sentimentos - que julgava serem meus, tão somente meus. Não consigo odiá-lo! Não consigo sequer sentir indiferença, o que eu sinto é mais do que não me importar, é muito mais do que isso e na verdade nem se compara a isso, porque não é sequer sentimento, nem é cheio, nem vazio; (é menos!); não consegue passar pelo filtro carnal que sou, porque nem está e nem é o que está a me acontecer com nada a me acontecer. O espelho não me projeta, e ainda que assim o fizesse não poderia deixar de salientar que o que me saltaria a vista não seria nada mais do que um projeto do que sou: o que aparento: o que tento ser: o que não sou. Este espelho não me projeta, muito embora o pudesse fazer; mas este espelho, este espelho não me reflete porque não poderia nem poderá nunca jamais refletir-me: este espelho está. Eu sou. E o que sou é tudo o que eu aparento com não estar sendo nesta carcaça que na realidade de nada me serviria. O que sou ultrapassa meu entendimento pobre e prepotente de mim: este espelho não me reflete: o que eu sou não me é. -------------------------------------- Alguns anos depois volto a posicionar-me pretenciosamente despretenciosa diante do mesmo espelho que dantes nada me deu de volta, e o que vejo: vejo!
(Estou cega)






















aos vinte e dois dias de outubro de dois mil e treze

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Do que é meu sem ser










Ao ler um livro tenho o costume de rasurá-lo em trechos que considero importantes. Acontece que depois de muito tempo de lido, lembro apenas vagamente de algumas passagens grifadas -  e de outras que esqueci de grifar - e fica um pouco difícil ou custoso encontrar meus grifos. Decidi, então, criar este espacinho para colacionar trechos bonitos e/ou interessantes dos livros que estiver lendo. Posteriormente, talvez, acrescente trechos de livros que li anteriormente a esta nova morada do que é meu sem ser: http://fantasiasdetecto.blogspot.com.br/















(Inesperimentos II)











do que
tenho lido
não tenho
tolhido






quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sobretudo










A única coisa que eu quero é que você não minta pra mim. Sobre nada.
- Sobre nada?
Sobre tudo.














terça-feira, 15 de outubro de 2013

Em Sendo Tarde (Do Teu Entardecer em Mim)







é fim de tarde
a saudade arde
o tédio amarga
e você
tarda
em tardes ser meu







ao décimo segundo dia do mês de outubro - de quando deveríamos começar a brotar nossas pétalas e no entanto, antes de nossa alvorada primaveril nossas folhas começaram a cair, secas...

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

AVE AMOR MORITURI TE SALUTANT!






SUBO DA ESCURIDÃO
AVE IMPERATOR
O MEU ESCUDO DISPENSO
CANSADO DE CARREGÁ-LO 
EU ESCUDO FAÇO-ME
DESEMBAINHO-ME NO MELHOR DE MIM
TODO O POVO A ME ASSISTIR
NAS BATALHAS SEMPRE ÚLTIMAS
HOMENS ATACAM-ME
ESCUTO OS GRITOS DE SURPRESA
MOVIMENTO-ME COM DESTREZA
POR ENTRE FAMINTOS LEÕES
ESCUTO A PLATÉIA INCRÉDULA
A ESTE HOMEM NADA IMPERA
SEM QUE AO SANGUE O LEVE
PORQUANTO EXISTIR QUEM O VEJA E O OVACIONE
EM SUAS ATUAÇÕES MORTAIS
EU, GLADIA E DOR
DESTROÇANDO-ME EM INTEIRICE
COMPLETANDO-ME COM ESVAIR-ME
FATIGADO DO MEU ETERNO SER VIR
SEMPRE À TUA INALCANÇÁVEL PESSOA
AVE CAESAR
IR-ME EMBORA VOU
DESTE TEU REINO
EM QUE SÓ  IMPERA A DOR






Tenho que começar a me guardar em mim, tácita e silenciosamente, até não caber mais. E quando já não me couber mais dentro de mim mesma, continuarei calada, observando meus estilhaços gritando por aí...


nove de novo novembro de há dois anos 








Constante 
inconstância
Sou mar em terra






13 de setembro de 2012

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Por onde ando (II)





Em ti, ode, ando




"O medo da dor, ainda que da dor infinitamente pequena não pode acabar de outra maneira que não seja na religião do amor"

Friedrich Nietzsche em "O Anticristo"  
Amém!


Por onde ando









No amor ando


No amor ando

No amor ando

No amor ando







terça-feira, 8 de outubro de 2013

Escasso, escassamente humano







Eu acho engraçado quando as pessoas estigmatizam o outro por sua "maldade" ou por seus atributos maléficos, supostamente particulares e peculiares ao ser indefinido a quem se critica e marginaliza da "humanidade", condenando-os a classificação de humanos não serem, estipulando o humano como ser benévolo e incapaz de praticar atos contrários ao que se espera pelo contrato da sociedade, quando na verdade é justamente essa nossa característica, que muitos não querem admitir, bichos selvagens domesticados e pensantes que somos, que nos tornam em HUMANOS, por justamente não querermos sê-lo. É só uma reflexão minha que faço toda vez que escuto/leio alguém dizer que uma pessoa não é/pode ser considerado um ser humano por suas atrocidades, postulando o mal como um abjeto. Eximindo-nos da nossa parte fétida e podre.






24 de setembro de 2013

De kronos e arranjos desarranjados










arranjadas -
E não sei como vou fazer quando todas as coisas caírem de volta, inusitadamente acomodadas e 
Eu que estou.
O tempo é.
to sou a que dia após dia, noite após noite estou a esgotar.
que a isto se resume o kronos ao trocar do dia pela noite, é isto que fica enquanto eu me vou, enquan-
trar, porque o tempo está em mim e não na luz e na escuridão que, contrariamente credita-se a idéia de
está passando e meu corpo mo vai indicando o que o ponteiro do relógio quebrado não consegue mos-
vejo-me envelhecendo e não roupas, nem pó-de-arroz nem rouge para me disfarçar; mas o meu tempo 
guindo seu fluxo para cima, em direção aos cumes das montanhas, mas o meu tempo está correndo e 
suspensas balançarem e eventualmente desprenderem-se, ainda que os córregos de água continuem se-
respirar, e eu percebo o tempo também suspenso, embora eu ainda consiga ver as folhas das árvores 
isto está sacudido, caiu de baixo pra cima e está suspenso, pairando no ar que não consigo mais
dou-me conta de que até o chão vai subindo e eu vou ficando abaixo, em algo que nem nome tem; tudo
as outras vão-se fincando nas nuvens; vejo a cascata lá de baixo fluir em direção ao alto das montanhas;
do da janela, que me mostra árvores flutuando no céu e suas raízes desprendendo-se da terra enquanto
adormecida e meio viva e não-viva, vou caindo no chão com a cabeça acidentalmente virada para o la-
como estou eu cá deitada na cama que também está a levantar-se, enquanto eu, meio acordada, meio
outros, as águas perfumadas misturando-se em um aroma bruto, estranhamente agradável e confuso,
se estilhaça em mil duzentos e vinte e três pedacinhos; os frascos de perfume chocando-se uns com os 
de me cobrir a nudez com que me visto agora, vejo pingos de água pairando enquanto o copo de cristal
invertido e pela idade que têm que as fez soltarem; eu vejo os travesseiros voando e os lençóis deixarem 
violência e os lembretes caindo de dentro das suas folhas, algumas delas rompendo-se devido ao baque
me apresenta diante dos meus olhos, eu vejo a mobília sacudida, vejo os livros no ar se abrindo com 
gostar também se fosse de outra cor, um verde-esmeralda por exemplo; mas vejo mais do que o que se
Estou deitada e, enquanto isso, quando volto os olhos para cima eu vejo um teto branco que poderia 






Ditongo






DITONGO
EU E VOCÊ
DE TANGO
EU DE TANGA
E VOCÊ DITANDO





sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Tic-Tac
















O HOMEM LEVA O RELÓGIO
MAS É O RELÓGIO QUE LEVA O HOMEM











De Cartas Nunca Enviadas



















































Campina Grande, PB                                                                                         03 de outubro de 2013



        Querida Eu,

                             Por favor, volte, mas volte como se por favor não tratasse. Volte, como quem vai por querer e volta por mais do que querer, por precisar e até mais do que isso: para ser. Parece que não me pareço contigo. O preço é sempre procurar um par que me procure sempre enquanto eu não me encontrar. No mais, te conto que sem ti não encontro o ar: estou trancada, me tranquei dentro de mim e escondi a chave em algum lugar que já não lembro onde. Tenho algumas lembranças, porém. Algo me diz que a chave deve estar em um lugar não tão distante de onde estou agora, no meu quarto, sentada à beira da cama. Sinto como se estivesse escutando o barulho das chaves perto daqui... Não sei dizer desde quando não nos vemos, foste embora tão vagarosamente que não dei pela tua ida e sem querer fui me acostumando com a tua ausência que cada vez mais crescia sorrateiramente, sem que eu percebesse. Fui me interessando por outras coisas, fingindo interesse por outras, conhecendo novas pessoas e me fazendo nova para elas, uma pessoa que me era por inteiro, mas Eu não era ela. Eu não era uma pessoa nova, pequeno passo de vida, mais do que 23 invernos já tinha passado Eu, no mínimo, por umas quarenta e oito tempestades em pouco mais que duas décadas. Tenho te buscado em vários lugares. Às vezes abro um livro na esperança de te encontrar, mas é frustrado, nos papéis dos outros, nas palavras desconhecidas que, embora conheça e ame alguma coisa, nas letras não consigo te ver, não consigo avistar tua presença que, entretanto, se faz tão forte ao segurar um livro ou um lápis diante de um papel. Aonde foste vi, mas não quero ver. A culpa talvez seja minha. Enquanto sumias, não, mas com a crescente falta de ti, foi-me entrando um remorso. Em morse finjo escutar teus gritos. Escuto as músicas novas para evitar atentar-me ao que gritas, e clamas, e reclamas, e amas. Na lama fui me dando conta que estás, porque o teu choro insuficientemente abafado me delatou ter molhado a terra que desamparada te faz. Escrevo esta carta com bastante egoísmo, pois acredito-me cúmplice do teu enclausuramento. Faço coisas novas deixando de fazer as velhas na esperança de esquecer-me da masmorra em que estás metida. Antes por árdua tida, revoltosa querida, mas morta mais bemquista. E fui, assim-assim, tateando pelos caminhos novos para mim, ainda que normalmente pela maioria conhecidos, por mim nunca enaltecidos, tecidos por mim agora são. No meu novo caminhar até o jeito de andar mudou, até a voz afinou, o cabelo cresceu - não cresço mais em mim, a flor murchou, de mim não mais se crê ser. As pessoas vão passando, vão-se indo enquanto vou passando despercebida, percebidamente perdida. A minha carta, esta carta, é egoísta, porque, admitindo, te tranquei dentro de mim porque não era fácil viver contigo, porque não era sem dor. E fui lentamente te escondendo de mim, te levando para longe, para onde eu pudesse estar a salvo de ti. E fui me lavando da tua presença, do teu cheiro, do teu pensar, do teu pesar. E quando quase ninguém mais observava, enquanto ninguém olhava, fui te trancando em mim sem hesitar, e fui vivendo, e fui levando, mas, sem imaginar, de te levar trancada dentro de mim, esqueci-me que do teu peso não conseguiria me livrar. Ria com o êxito das minhas atitudes. Ria com o logro do teu cárcere. Não, obstante, o teu peso foi fazendo-me lembrar do que custosamente tinha conseguido esquecer, eis que ser outra que não a ti e te carregando dentro me custava não ser espontânea a leveza com que eu aparentava andar. Esta carta é egoísta, pois te a mando na tentativa de te encontrar em cada letra que vou juntando, porquanto em palavras andava todo o teu ser mesmo que as palavras não conseguissem ser a ti. Esta carta é egoísta porque só te amando para pedir que nesta carta encontres as chaves para sair de onde, agora arrependida, te tranquei, pois não tenho coragem de buscá-la onde larguei, e por isso ficarei à espera de ti, ansiosamente esperando pelo teu grito selvagem de liberdade, quando conseguires daí escapar. Porque sou fraca.