quinta-feira, 24 de outubro de 2013

O Espelho



















Lembro de quando saía de casa com pouco de roupa e pouco de vaidade, quando vaidade para mim era ser primeiramente eu antes que qualquer outra coisa, qualquer que seja, fosse. Porque antes de tudo e antes que tudo eu tinha que ser - apenas. Tento entrar naquele corpo que um dia me pertenceu - entrei - e me vejo ao espelho e o que vejo não reflete a imagem que o espelho projeta, vejo-me como sou, exatamente como sou e de repente não carrego mais roupas, não tenho mais orelhas, os olhos desapareceram-me, perdi as pernas que tinha, os braços cujas mãos me apontavam a mim mesma sumiram, os fios de cabelo caíam sinuosamente no chão, este que viu-se sem sustentar a quem instantes antes dava pé. Eu já não continuava mais ali embora ainda estivesse diante do espelho - que não me projetava, por que não me projetava? A falta repentina de alguma sugestão de mim mesma pelo espelho era um nada que me sugeria um tudo. Ao olhar-me no espelho eu, inconsciente ou não, independentemente disso ciente da reflexão que o espelho me traria - e ele mente - busco um encontro comigo mesma na forma, um conforto em minha aparência que não dá ciência do que sou, mas diz muito de mim - a forma inconforma. A minha fala aparentemente não tem nexo. Em muito mente o aparente, da mentira parente. Essa ânsia por atingir o que sou através do espelho me mostra o que o espelho não me mostra: as minhas angústias tão peculiares àqueles feitos de carne com seu medo de carne mais um dia sequer ser; a carne que busca conformismo em sua condição de carne pensante ainda assim carne, que procura com formar-se a resiliência na mesquinhez de si mesmo, à seita de perfeitar-se em peculiaridades de sua reles existência carnal, afeiçoando a vida com afeitar-se a barba há muito por fazer. Há muito por fazer que é tão pouco que é desprezado. Iria escrever agora para dar início a esta nova frase que iria começar com "nem eu"e de súbito detive-me nas primeiras duas letras. A frase a princípio seria: Nem eu sei como começar a fazer esse pouco que é muito. A frase terminou nas duas primeiras letras porque percebi o quão prepotente fui só de pensar e inclusive começar a dizer que "nem eu sei", como se eu soubesse de mais do que qualquer um, como se eu estivesse por cima da minha condição de eterna moribunda até que o nascimento da minha morte deste constante morrer a que chamam de vida me separe. Moribunda, saio da morte - finalmente morta: tenho vida. Isso também pude enxergar ao espelho na ausência do meu reflexo, uma breve refração de uma luz que ante ao espelho eu já não emitia. E o espelho me anula, me anula? A nula sou eu que intento desdobrar-me e números, com formar-se em algarismos que me ajudem a nortear o meu lugar no tempo e no espaço mundano onde ando em busca de mim mesma pelos caminhos das invenções humanas que em tudo propõem ser bússola para um destino indiferente a que nunca vai-se chegar. A nula sou eu que tento ser mais e acabo sendo mais porque me coaduno aos números alheios, porque não me basto em não saber se sou ímpar ou par e preciso me juntar ao dois ou três para alcançar uma definição - como se tudo fosse absolutamente definível - julgo-me rasa. Volto o meu olhar para o espelho e não sei se o odeio, não sei se lhe tenho afeto, percebo que juntamente às minhas pernas e meus braços sumiram-me também meus sentimentos - que julgava serem meus, tão somente meus. Não consigo odiá-lo! Não consigo sequer sentir indiferença, o que eu sinto é mais do que não me importar, é muito mais do que isso e na verdade nem se compara a isso, porque não é sequer sentimento, nem é cheio, nem vazio; (é menos!); não consegue passar pelo filtro carnal que sou, porque nem está e nem é o que está a me acontecer com nada a me acontecer. O espelho não me projeta, e ainda que assim o fizesse não poderia deixar de salientar que o que me saltaria a vista não seria nada mais do que um projeto do que sou: o que aparento: o que tento ser: o que não sou. Este espelho não me projeta, muito embora o pudesse fazer; mas este espelho, este espelho não me reflete porque não poderia nem poderá nunca jamais refletir-me: este espelho está. Eu sou. E o que sou é tudo o que eu aparento com não estar sendo nesta carcaça que na realidade de nada me serviria. O que sou ultrapassa meu entendimento pobre e prepotente de mim: este espelho não me reflete: o que eu sou não me é. -------------------------------------- Alguns anos depois volto a posicionar-me pretenciosamente despretenciosa diante do mesmo espelho que dantes nada me deu de volta, e o que vejo: vejo!
(Estou cega)






















aos vinte e dois dias de outubro de dois mil e treze

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