quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Conto ou não conto?



























Como me cansa minha periodi(cidade). É desgastante estar no cume da mim mesmo e despencar-me de mim - e cair em outro eu que resiste em sempre prestar-me amparo; acaso alguma vez pedi ajuda? Eu estava no cume, que mais podia querer eu além de permanecer ali em cima? Quem disse que dali sairia para algum lugar de menor altitude? Sairia, sim, mas para outra mesma altura ou mais alto. Céu  - ou inferno: dão no mesmo - mas nunca para mim mesmo, nunca para meu limbo em mim. Isso não importa tanto, importa, mas nem tanto quanto outra questão: por que Caio? Por que sempre Caio do ponto mais alto do alto? Caio? Parece-me um certo descuido de mim e da minha felicidade. Se venho a cair será por desleixo, será por falta de atenção na minha alegria, melhor dizendo. Se me desleixo é porque algo mais importante está acontecendo à minha volta (ou dentro de mim) e estar no cume já não me define tanto quanto no momento que precede meu desleixo. Eu me queixo: será desleixo? A perícia pode muito bem levantar outras possibilidades tão ou mais prováveis quanto esta que acabo de elencar. Atentemo-nos à cena: despenco. Despenco. Cume. Ausência de testemunhas. Insuficiência de provas. Ponto.  
Caí? Não se sabe, não se sabe. Podia muito bem ter sido infarto fulminante - mas tão novo? se fosse mais velho poderia até ter agüentado, mas o coração quando pega gente nova assim não devolve. Emoção demais dá nisso, pode o coração ou o juízo não agüentar. Pensemos adiante. Queda? Causa natural? Por que não falha no equipamento de escalada? Averigüemos a responsabilidade e ponderemos as indenizações, afinal, não estraçalhou-se apenas um homem, mas seus sonhos, seus filhos e esposa (e amantes), seus pais se ainda os tinha vivos - coitados vendo contrariada a ordem natural das coisas, que infeliz sorte os terá atingido -, seus amigos, seus cachorros, mas também suas contas bancárias e as dívidas pendentes e também a convivência da família estraçalhou-se com a proposição de abertura de inventario e as alfinetadas e trocas de calúnia injúria e difamações por uma herança que mais tarde descobriu-se nada mais do que dívidas - homem mais mesquinho, foi atrás do sonho quando o sonho deveria ser a família e os outros. 
Falha no equipamento? Interrupção de um vida que não queria se interromper - pelo menos não naquele momento, como se de alguma maneira estivesse vivo mais uns anos adiante teria querido muito provavelmente ter caído daquele penhasco, naquele exato momento, como bem sucedeu, mas esta alternativa de destino não vem ao caso, não agora. Avancemos. O homem pôde muito bem ter caído, é possível afigurar-se também alguém ter lá estado e sorrateiramente tê-li empurrado penhasco abaixo, por que não? Quer coisa mais comum que o desprezo pelo outro (e suas adjacências)? Os dez mandamentos não prestaram atenção em que o próximo, o próximo sempre será o próximo, nunca chegará a sua vez, ou seja, estatui-se então a obrigação de haver sempre um próximo a quem deveremos respeitar mediante o sacrifício das nossas vontades e dos nossos desejos. Até hoje estão em vigor os dez mandamentos pois continuamos a tratar o próximo como próximo. Próximos que sempre foram e serão até que editem o texto da lei sagrada - quem sabe? Está ficando escuro (escuro, como? se é tudo branco... - está tudo claro demais) e no adiantado da hora só terei feito isto que estou a fazer, o que dirá que não terei feito alguma coisa de utilidade - porque as coisas inúteis são coisas algumas, embora muitas delas sejam mais úteis que algumas coisas de utilidade. O mistério permanece e eu estou passando da hora de já ter deixado tudo isto para dar cabo às atividades pendentes - como se esta não me fosse questão pendente de mais importância do que qualquer outra, literalmente pendente tanto quanto o homem que talvez esteja pendurado em alguma pedra na encosta do penhasco, segurado apenas por um pedaço de roupa - ele pode vir a cair a qualquer momento!!!!!! Acalmemo-nos os ânimos, acalmemo-nos! Afinal, são meras possibilidades, não é para tanto. Passei da hora, já é madrugada e continuo nesta folha a remoer possibilidades. E se por acaso nosso homem valeu-se de companhia, delegando-lhe confiança, mantendo-lhe a par de qualquer mudança de planos, quem sabe não lhe tenha ajudado com levar as garrafas de água, ou uma barraca... Veja, não se encontrou nada no local, sequer pegadas ou restos de alimentos ou qualquer outro indício de que nosso escala dor tenha estado ali. E se ele foi sequestrado no ápice de sua maior realização? Mais... e se... E se nosso homem sequer chegou ao pé da montanha? 
O caso não é dos mais fáceis. Muito embora não saibamos o que de fato lhe ocorreu, sabemos, sim, e com muita certeza, que este homem não se encontra em parte alguma, e em alguma cena deverá ter ficado, seja queda, falha, homicício, sequestro, ah! Outra possibilidade: fraude! por que não? Não seria o primeiro a fugir das responsabilidades pecuniárias mesmo que elas lhe custem família ou coisa para ele mais valiosa. Nosso homem, como carinhosamente temos-lhe chamado, não dá falta a ninguém, ninguém dá por ele, nem ninguém. O sono chega e todavia me resta quase uma folha branca inteira por riscar. E se... e se nosso homem sequer existiu? Que sentido há em ir adiante? Se antes nada houve, nada ouve... O silêncio é ensurdecedor - e uma dor surda. Este homem ou grita em silêncio ou com silêncio berra. Pode estar perdido - não querer ser encontrado. Estará perdido? Quiçá. Perdera a cabeça um dia e não a conseguiu achar. Mas cabeça nenhuma fora encontrada. Nada foi encontrado. Está perdido esse homem, onde perdido estará? Tenho minhas dúvidas, se vamos considerar a hipótese. Não é difícil que esteja perdido no mercado, ali consegue-se dinheiro rapidamente, as vendas são desafiadoras a cada pão-duro mais duro que o outro. Poderá muito bem estar perdido nos prazeres das mulheres (ou secretamente por homens). Não faz mal considerar a hipótese de estar também perdido no coração de uma mulher (ou de um homem, também). Todas essas alternativas são potenciais realidades em alto grau de verossimilhança, mas não poderia deixar de citar uma que talvez seja a mais verossímil: nosso homem está perdido, sim, mas não em algum bosque, alguma cidade ou por alguma praia, mas em si mesmo. Importa saber agora porque foi-se perder nosso homem no lugar mais próximo de si - não sabendo ele, quiçá, tratar-se do lugar também mais distante ao qual um poderia nunca chegar ou ter chegado - não sem ajuda. Quem lhe ajudou? Pediu-lhe ajuda? Quem tão solitário resolveu fazer de si uma mão que ampara? Quem precisa salvar-se a si salvando ao outro?
(Ou danando-o). Se obteve ajuda foi porque quem lhe estendeu a mão é quem mais precisava ser ajudado. Nosso homem perdido, assim o julgamos, pode perfeitamente haver-se encontrado na perdição - ou perdido a si no encontro -- a busca era a lucidez entrementes. E lhe temos julgado perdido podendo perdidos estarmos nós a que lhe conjecturamos nossos valores e crenças por quase certezas vendidas por possíveis verdades. Quem as compra? Perdido ou encontrado, sabe-se lá que foi deste homem, agora já não mais importa, não tanto quanto antes, não importa se não chega a lugar algum ou se parou sua caminha definitivamente em algum lugar da estrada por entender ser-lhe conveniente, o que importa é que independente de estar perdido ou encocntrado, em nenhuma das duas hipóteses estará o nosso homem caminhando para além da estrada. Ou caminha em círculos ou caminha em volta de si mesmo - é pouco provável estar muito lúcido. A busca é o que nos faz mover as catracas dentro de nós e o que nos impulsiona o trajeto; buscando estaremos sempre a chegar, sempre quase. Viver é estar sempre quase até finalmente morrer-se. Se está perdido ou encontrado, nosso homem então morreu em vida pois escusou-se da busca, vaga vago pelos confins de si mesmo, ou está sentado em uma poltrona na sala de alguma realização sua que julgou ser-lhe já o bastante. A vida não é bastante, ela se basta com não nos bastarmos - tem ódio aos suicidas pela petulância e atrevimento com que desacatam-na em ir-se quando já tudo lhes bastou. Não há onde enterrar o nosso alpinista, enterrou-se a si mesmo onde quer que esteja. Já passo a acreditar que entrou por uma porta dentro de si trancando-a e pela fresta jogando a chave longe. Pelo o que sei dele deve ter entrado pela boca, jogando as chaves pelo espaço entre o diastema dos dentes frontais - tinha-os charmosamente separados. Deve ter subido um pouco até o nariz para exalar pela última vez o aroma da montanha, desceu, passeou pelo estômago, sentiu o gosto amargo do que era doce, forrou o seu estomaguinho e seguiu adiante; pegou um atalho rápido descendo pela perna direita que sempre lhe levara primeiramente adiante, passeou pelos pés para recordar dos caminhos que até ali havia trilhado, deu meia-volta rumo ao pé esquerdo e subiu pela perna esquerda que sempre sucede as escolhas da direita, subiu, não sem sacrifício, a passadas largas e cansadas até o pênis onde deteve-se deixando-se ficar até quase esquecer a que tinha vindo e não mais sair dali, um lapso de sobriedade lembrou-o do muito que tinha ainda por fazer. Seguiu. Chegou aos olhos e tudo ficou verde, outra hora castanho, e nuances de mel, no tom mais claro passou a mão no ombro e percebeu um pequeno verme "devo ter esquecido de limpar-me apropriadamente, não te afobes, ponho-te agora o chão"e compadeceu-se, "sou tanto quanto tu és - mais bem não és". E deixou os olhos em direção às memórias. Subiu e com um pouco de esforço conseguiu entrar naquela massa densa e apertada que tem dentro da cabeça "então quer dizer que tudo quanto sou resume-se a isso"- tinha planejado rever o rosto da mãe, que devido ao tempo já nem conseguia mais lembrar, deitava-se à noite a implorar a todos os deuses e todas as coisas e por qualquer pessoa para que a visse em sonho e o sonho nunca vinha. Quis também sentir o gosto quase doce da primeira namorada quando tinha apenas nove anos - nunca mais soube dela desde que se fora com a família morar em outra cidade, na época não soube porquê lembro apenas dos comentários abafados e quase inaudíveis dos mais velhos lá de casa e da vizinhança "meu deus quanta monstruosidade", "que tragédia", "logo o pai?"e a mãe não parecia tão diferente assim já que levou "o pai"consigo mais a filha para bem longe fazendo questão de não fazer questão de dizer a ninguém aonde ia. De repente foi levado forçosamente para o outro lado da massa densa, encefálica, e viu-se arrodeado de gavetas, muitas gavetas, infinitas gavetas em um infinito que não parava de crescer, nunca havia visto aquilo antes, eram gavetas e mais gavetas, gavetas pelos lados, gavetas subindo empilhadas uma nas outras, não conseguia ver onde terminavam "que lugar é este?". Atreveu-se a abrir uma gaveta, estava escuro mas dava pra ver que uma luminosidade crescia, e enquanto crescia mais se podia ver o que estava encoberto pelo breu da gaveta, naquela: alguns sonhos de infância, um pequeno carrinho de ferro que ainda bebê ganhara do avô, o seu odioso e cansativo trabalho, os papéis do divórcio, quando ligeiramente e sobressaltado deu um passo atrás ao ver surgir das sombras da gaveta uns monstrengos nunca por ele vistos antes mas que por incrível que pareça sentiu-os grandes conhecidos seus de vida, tinham cara de frustração; frustração àqueles chamou-lhes. Abriu outras gavetas e mais outras e outras, algumas confusas outras supreendentemente explicatórias e monstrengos, muitos monstrengos a sair de dentro das gavetas uns a misturar-se aos outros até não mais ser possível distinguir se frustrações ou medos, ou cuidados, preocupações, angústias, misturaram-se e o barulho era ensurdecedor, por que agrupados assim se nunca os arrumei dessa maneira? quem é este que está a organizar as coisas sem que eu mande ou me peça? justo atrás de mim, nas minhas costas, e nunca dei por si... O barulho está cada vez mais alto, as coisas que remexi nas gavetas começam a cair do alto, uma moeda acaba de cair justo sobre minha cabeça ouço minha mãe gritar ouço o choro da pequena menina do beijo vejo seu último olhar de despedida olhando-me a mim com rabo-de-lho carregando sua boneca na mão enquanto vira a quina da porta escuto as lamentações dos vizinhos vejo o padre me perguntar se aceito o grito surdo do meu filho que nunca escutei seu choro e os papéis do divórcio caem sobre a minha cabeça no mesmo lugar onde bateu a moeda meu chefe me grita as folhas dos ipês do caminho de casa o incômodo raio solar que me acorda todos os dias pela manhã e que começa a me cegar os monstrengos a gritar --- saio dali correndo para qualquer lugar que me conforte, o homem foi buscar alento meteu-se dentro do ouvido a auscultar e escutar as palavras de conforto que tanto durante a toda a sua vida (vida?) escutou e para escutar também as mentiras que lhe apraziam tomar por verdades e algumas verdades por mentiras, embriagado delas ia andando e seguindo já sem saber o que tinha sido e quem era e quem é, ébrio andava pouco hesitante rumo a si mesmo sem perceber que estava a entrar agora no labirinto. Nunca mais souberam dele - nem ele de si.


















fins de outubro deste ano

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