sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Mentiras de mim tiras



I


ai de mim 
que te quero assim
ai de ti
que não me queres a mim
ai de nós
que perto estamos do fim
ai de ti
em mim:
mim
ti.





II


Está na hora de mim te ires.




III


meu amor, me tenho
agora cansada, levo
nos braços o meu peso
de tanto penar, e carrego
ainda a ti num coração
já também cansado
de viver o que não tem vivido,
os ouvidos cansados 
do que tampouco têm ouvido,
um todo a contentar-se com o 
ralo
lembrar do teu olvido
muito embora tenha eu lembrado
de tudo ao que este amor não
fostes atento,
do quanto
te faltou e tens faltado
do quão
acertado
foi teu falho
em evitar o meu descontentamento
não por obra do acaso,
espelho na parede eiriçado,
tu te pões de frente e, assustado,
vês-me reflexo teu ao espelho, ocaso 
em que vês dentro do teu corpo
o meu corpo
a mover-te como se estivesse a vir do alto
te balançando feito
fantoche em minha mão
que agora despida do cansaço
te mostra por onde tem andado
o corpo que precede essa mão e esse esforço
de conhecer o desconhecido 
que fizeste do meu sonho:

es 
    traça
               h
             l    ado,

feito vidro:
quebrado;
levanto o teu olho
para que me vejas enquanto
decepo teu braço
esfaqueio 
teu coração,
retiro teus abraços
e teus sonhos
ainda não realizados:
tudo que de mim tiras.














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