quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

De a dor amar






pedes-me não reparar no amadorismo
mal sabes tu que m(eu) 
aforismo
adora
amarador
narra dor que sou










Desconto



                 Desperto, e, ao ver-me no espelho ao lado da cama, percebo os cabelos desgrenhados, o pijama frouxo, malamanhado, as olheiras que já não passam despercebidas, o resto da maquiagem que o travesseiro não tirou e, como se aqui ainda vivestes, com teus olhares me visto mesmo que nunca mais tenha te visto ainda me recordo do quão formoso estivestes na despedida, como se jamais antes houvestes planejado tua ida dá-me o chapéu tua última pedida voltas mais tarde tudo que te peço sem saber que de pedir me despedia dispersa ando em ti e no amor que não me tivestes embora tenhas tantas vezes deitado nesta cama onde tantas vezes deixastes cair tuas vestes por cima das tuas mentiras que com tuas roupas as revestes e me beijas com a língua e sinto as tuas lábias correrem até salgadas misturando-se a saliva doce de te esperar dos meus lábios que tantas vezes fingiram acreditar nos teus falsos prantos com os quais tantas vezes me envolvestes, fecho a porta, volto à casa, e é como se acabastes de sair ao trabalho, como de costume, e então me deparo com um envelope bem fechado com tua letra gravado o meu nome no anverso, meu nome destinatário por certo presságio de versos ser, vagarosamente abro-o fazendo da demora corolário do teu provável dizer querida à noite não tardo em meus braços te ter, em ter sido isso quimera ao fim de tua carta não acreditei, não tive voz, minha visão ficou turva, meus braços despencaram senti escapulir das mãos carta uma pitada aquosa de sal e envelope, minutos passaram sem que eu desse por eles sem que eu desse por nada dessa infeliz sorte tantos anos dedicada esposa fiel e delicada casa comida e roupa lavada por um caso uma comida e roupas suadas de 19 jovialidades em flor agora eu madura trocada faltaram-me forças para recobrar os sentidos o tempo a passar e a me ultrapassar, ainda atônita e perdida levantei-me e a largas e demoradas passadas movimentei-me em direção ao nosso quarto abro o guarda-roupa dele tiro com o que primeiro acho e então te visto com cuidado e esmero o teu melhor fato com o fato de que nunca fomos de fato um fato e te admiro e te sinto como se me chovestes e pairo no ar --- sentindo teus choviscos cada vez mais fortes e tuas gotas cada vez mais gordas encontrando meu só riso e molhando os meus cabelos as gotas gordas escorrendo pela roupa agora já molhada até não mais me distinguir da tua chuva e de chuva também estar sendo eu, é meio-dia, todos voltam para casa enquanto eu, eu abro a porta da entrada e saio à rua para o último gole de água-doce beber, e assim em meio aos incrédulos olhares e de já não me olhares desabotoando me despindo vou botão por botão, me despedindo e me despindo de todas as promessas e de todos os sonhos que me escre(vestes)





                                 - de olhos fechados levanto o rosto e abro a boca























aos dez8 dias do mês de dezembro do ano de dois mil de treze





quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Da escravidão





Disseram-me escritor
mas ritos não escrevo
em ritos não faço-me ver
eis me aqui pois
escravo
de ritos não entendo
e nada falo
com a sutileza do cravo 
confundo em meu peito estampado
escravo em espinho cravado
o árduo sofrer como fado e fardo


Disseram-me certa vez 
escritor
sou escravo ardo vejo dor
Disse-lhes retrucando então


escrevedor.










terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Da solidez





Solidão



Solidão não é estar desacompanhado
não é não ter alguém ao lado
não é o intervalo do desatar de mãos
não é ter carinho sem lhe dar afago


Solidão


é ter-se a si alado
é o tomar-se da sua própria mão
é afagar-se em afogar-se em si com carinho


Solidão é, antes de tudo, 
estar acompanhado com 

lidar
consigo.



segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

De ir-se e dar-se (II)

I



Suici(dar)-(se),
correto bem poderia ser
Suicid(ir)-(se):



II



Estrela d'alva 
anuncia
há de ser noite ou dia?



III



Da hora de suicid(ir)-(se):


desolação é o crepúsculo:
amorfo
nem dia
nem noite
indeciso
nasce a noite
morre-se o dia
desolado
sem sol e alado
daqui vou-me ou
fico?



IV



a noite teço:
amanheço?






domingo, 8 de dezembro de 2013

Querido Caderno I


Querido Caderno,


              Note que (até onde me lembro) nunca me referi a você dessa maneira. Não obstante, tal fato não se deve a que eu não goste de você, realmente querido és, mas pra falar a verdade, se assim hoje te chamei foi mais (ou quase só por isso, ou só por isso) porque me ausentei de pousar o punho a escrever em ti. Já nem sei bem o que contar, se o que eu fosse contar são palavras e nomes que em resumo resultam em redundância(s) facilmente encontrada(s) por aqui. Eu mesma continuo redundante, e até mesmo em alguns pontos redundantemente piorada, e, em outros, não tão redundante, não redundante. Hoje não sei se quero dedilhar as palavras e escutar algum sentido se delas viesse. Esse meu caderno já está cheio de eucentrismo e não sei mais se quero escrever e escrever e escrever até ver as folhas em branco preenchidas por rabiscos, palavras, sonhos e medos, até que a folha em branco se complete e vire uma pintura - onde eu, autora, posteriormente acabaria por tornar-me em mera arguta observadora qualquer, curiosa, em busca de um sentido para este quadro que se está compondo diante dos meus olhos ainda que o tenha parido (o estou parindo agora!) de mim mesma e que exatamente por isso não mais me pertence, sendo um desconhecido para mim.









Dos últimos dias







Como começar a falar sobre um começo? 

Pelo fim meço.


















Ajudem-me, que já não preciso de ajuda.







Um oco de mim



A cada 
tragada
um
pouco
de mim

Há 
em cada
tragada
um pouco 
de mim

A cada tragada
um pouco
de me traga
um pouco 
de mim

- Sou eu entrando e saindo de mim mesma.




26 de junho de 2009