domingo, 31 de março de 2013

Cem títulos sem nomes cem reticências sem pontos cem vírgulas




às vezes eu não vejo uma pessoa, ao invés disso, vejo um conjunto de pensamentos vários calados intercalando-se a todo instante, risos, dores latentes, cores, possíveis segredos, manias, costumes, possíveis quereres e fantasias e acho tudo isso tão sensual, isso de não ver o que os olhos vêem, digo, a barreira do pele&osso, é tão sensual e me interesso e me apaixono e deixo surgir em mim um desejo quase sexual de me envolver com este amontoado de defeitos&virtudes e ilusões e detalhes de um corpo o qual assisto com aparente displicência e aluadez seus movimentos mais discretos disfarçada com um olhar perdido mas tão encontrado no movimentar da tua boca e em pensamentos além... ou no jeito em que está disposta sua mão e seus dedos a mover-se por entre os meus... tolices minhas... é tudo tão atraente, que me disponho e me cedo a essa emoção e me rendo a envolver-me contigo, forjando uma desculpa qualquer pra me esquecer e esquecer de que na verdade o que estou é a me envolver comigo mesma que metade do conjunto que vejo é o que me está posto tal qual está posta a mesa e a outra metade que não vejo não existe é idealização e sou eu mesma por trás disso posta à mesa por livre e espontânea vontade para que meus quereres me consumam e me devorem feito um animal que come pela necessidade de comer e feito gente que come pelo supérfluo e dispensável, sou eu mesma, humana-animal-meu-pensamento-mascara-minha-classificação-de-bicho-que-sou-e-somos-todos, eu loba de mim sentada à mesa sugando-me a mim mesma por mera liberalidade e aquiescência - quem sabe até mesmo complacência -, note-se a quantidade de me espalhados pelo texto: eu me permito esvair até não sobrar nada, eu me concedo me extinguir - do sujo, surjo, novamente, limpa