sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Tic-Tac
















O HOMEM LEVA O RELÓGIO
MAS É O RELÓGIO QUE LEVA O HOMEM











De Cartas Nunca Enviadas



















































Campina Grande, PB                                                                                         03 de outubro de 2013



        Querida Eu,

                             Por favor, volte, mas volte como se por favor não tratasse. Volte, como quem vai por querer e volta por mais do que querer, por precisar e até mais do que isso: para ser. Parece que não me pareço contigo. O preço é sempre procurar um par que me procure sempre enquanto eu não me encontrar. No mais, te conto que sem ti não encontro o ar: estou trancada, me tranquei dentro de mim e escondi a chave em algum lugar que já não lembro onde. Tenho algumas lembranças, porém. Algo me diz que a chave deve estar em um lugar não tão distante de onde estou agora, no meu quarto, sentada à beira da cama. Sinto como se estivesse escutando o barulho das chaves perto daqui... Não sei dizer desde quando não nos vemos, foste embora tão vagarosamente que não dei pela tua ida e sem querer fui me acostumando com a tua ausência que cada vez mais crescia sorrateiramente, sem que eu percebesse. Fui me interessando por outras coisas, fingindo interesse por outras, conhecendo novas pessoas e me fazendo nova para elas, uma pessoa que me era por inteiro, mas Eu não era ela. Eu não era uma pessoa nova, pequeno passo de vida, mais do que 23 invernos já tinha passado Eu, no mínimo, por umas quarenta e oito tempestades em pouco mais que duas décadas. Tenho te buscado em vários lugares. Às vezes abro um livro na esperança de te encontrar, mas é frustrado, nos papéis dos outros, nas palavras desconhecidas que, embora conheça e ame alguma coisa, nas letras não consigo te ver, não consigo avistar tua presença que, entretanto, se faz tão forte ao segurar um livro ou um lápis diante de um papel. Aonde foste vi, mas não quero ver. A culpa talvez seja minha. Enquanto sumias, não, mas com a crescente falta de ti, foi-me entrando um remorso. Em morse finjo escutar teus gritos. Escuto as músicas novas para evitar atentar-me ao que gritas, e clamas, e reclamas, e amas. Na lama fui me dando conta que estás, porque o teu choro insuficientemente abafado me delatou ter molhado a terra que desamparada te faz. Escrevo esta carta com bastante egoísmo, pois acredito-me cúmplice do teu enclausuramento. Faço coisas novas deixando de fazer as velhas na esperança de esquecer-me da masmorra em que estás metida. Antes por árdua tida, revoltosa querida, mas morta mais bemquista. E fui, assim-assim, tateando pelos caminhos novos para mim, ainda que normalmente pela maioria conhecidos, por mim nunca enaltecidos, tecidos por mim agora são. No meu novo caminhar até o jeito de andar mudou, até a voz afinou, o cabelo cresceu - não cresço mais em mim, a flor murchou, de mim não mais se crê ser. As pessoas vão passando, vão-se indo enquanto vou passando despercebida, percebidamente perdida. A minha carta, esta carta, é egoísta, porque, admitindo, te tranquei dentro de mim porque não era fácil viver contigo, porque não era sem dor. E fui lentamente te escondendo de mim, te levando para longe, para onde eu pudesse estar a salvo de ti. E fui me lavando da tua presença, do teu cheiro, do teu pensar, do teu pesar. E quando quase ninguém mais observava, enquanto ninguém olhava, fui te trancando em mim sem hesitar, e fui vivendo, e fui levando, mas, sem imaginar, de te levar trancada dentro de mim, esqueci-me que do teu peso não conseguiria me livrar. Ria com o êxito das minhas atitudes. Ria com o logro do teu cárcere. Não, obstante, o teu peso foi fazendo-me lembrar do que custosamente tinha conseguido esquecer, eis que ser outra que não a ti e te carregando dentro me custava não ser espontânea a leveza com que eu aparentava andar. Esta carta é egoísta, pois te a mando na tentativa de te encontrar em cada letra que vou juntando, porquanto em palavras andava todo o teu ser mesmo que as palavras não conseguissem ser a ti. Esta carta é egoísta porque só te amando para pedir que nesta carta encontres as chaves para sair de onde, agora arrependida, te tranquei, pois não tenho coragem de buscá-la onde larguei, e por isso ficarei à espera de ti, ansiosamente esperando pelo teu grito selvagem de liberdade, quando conseguires daí escapar. Porque sou fraca.