domingo, 23 de outubro de 2016


























23/10/2016



















absorta
coloco um ponto, ou não, e termino a frase,
ainda que não a termine
apago, posto, envio ou guardo o caderno,
que seja
pisco, e já sou outra que não quem acabei de ser
des-traída










23/10/2016












os males que acometem os escritores,
desconheço-os todos
cobertos pelo glamour desse adjetivo derivado
a fama afaga-os.
os males que acometem os escrevedores,
eu nunca saberia enumerar
desenroupados pela ausência do glamour que habita a derivação daquel'outro adjetivo
o desconhecimento condena-os.
dos tantos males que acometem os escrevedores
um, em especial, eu poderia citar, e será o bastante
embora marcado pela traça do cotidiano
tem o brilho próprio de obras primas dos grandes escritores e um sabor que à poucos destina-se o paladar:


a tragédia de serem incompreendidos
somada aos dissabores que a acompanham.







23/10/2016






gosto muito de brincar, 
é verdade,
mas também falo sério:
meu brinquedo favorito
sou eu.




quinta-feira, 13 de outubro de 2016

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

03/10/2016



(guardanapos
são os melhores
para escrever porque
ou eles guardam os
napos que a gente suja de tinta
ou então a depender da sujeira
sem julgamento de bonita ou feia
eles se rasgam.)












03/10/2016



eu não sou a
pessoa que 
eu
queria ser.
então vou ser
outra:
que eu também não queira,
mas que seja uma
pessoa.










03/10/2016



Não importa que não escrevas mais. Cedo ou tarde, o lápis que estiver ao teu alcance ou a máquina que ficou ao pé da cama sempre te chama, mesmo que tarde. Sei que a máquina te compele, como um grande pólo magnético, e ela te mira e te amedronta. Eu sei que ela te chama. Não importa que não queiras, não há volta nesse caminho. Não há volta para as palavras escritas, pois já não tuas, elas continuam seu próprio caminho. Eu sei que o texto te chama, está já todo escrito, falta apenas que o escrevas. Não escrevê-las, as palavras, no entanto, não me impede de te ler. Alguns silêncios têm no tempo a sua composição; as suas distâncias, porém, não são medidas por quilômetros, mas por um novelo, pelo fio que se arrasta o mesmo tanto quanto nos afastamos. Junte todas as idas, vindas, idas e vindas e idas sem vindas, teremos um fio longo e cheio de nós e que não pára de agrandar. Mais nos aproximamos um do outro quanto mais nos distanciamos. Quanto mais distanciamento, maior o fio que nos mantém justapostamente distantes - e unidos. É uma lógica inversa: o tanto de distanciamento é o mesmo tanto de aproximação. Prove isso tentando contar os metros do largo fio que nos une. Parece lonjura, mas toda a distância não passa de um entrelaçamento quântico inverso de aproximação. Bonito arranjo esse universo emaranhado de nós que enxergo sem precisar acessar outra dimensão.