quarta-feira, 9 de novembro de 2016

09/11/2016




              Você veio quando eu menos esperava, passou menos tempo ainda do que eu desejava. Tento lembrar das palavras que me disseram segundos depois de colocarem na tela a sua imagem, há dois dias, mas só consigo lembrar de "infelizmente..." e foi o bastante para já não ouvir mais nada, nem pensar mais nada, nem viver mais nada naquele instante além da infelicidade de ouvir um infelizmente. Não sei porque tento me lembrar desse momento e das palavras usadas, não consigo encontrá-las todas nem muitas e o "infelizmente..." bastou como uma pesada divisória que caiu entre o que vivi e vou viver e o que já não mais viverei; pelo menos não deste - ou desta. Depois de me fecharem as cortinas dessa peça do destino que me fez crer, na ausência de qualquer sintoma que apontasse o contrário, que eu estava com 12 semanas, após a adição do prefixo in- a todo o meu felizmente, fui informada de que o embrião parou de se desenvolver ao redor das 7 semanas e meia (mais aproximadamente 7 semanas e 4 dias), informação compatível com o feijãozinho que os meus olhos viam na tela do consultório... Tirar a bata, vestir a roupa, voltar pra casa e a comida do almoço, do jantar e do café-da-manhã e tudo o mais que sucedeu, tudo ficou insosso. "Infelizmente...". Agora eu só prestava atenção no sufixo dessa palavra, que permaneceu como um mantra na minha cabeça, tocando na minha mente como um pano de fundo, uma trilha sonora por trás de tudo o que eu ouvia das pessoas que tentavam, naquele momento, quase em vão, me reconfortar. Foi o que chamam de aborto retido. O embrião, por algum motivo, parou de se desenvolver, o coração parou de bater, o útero foi perdendo os contornos regulares, eu não tive cólica nem sangramento, nada houve que me avisasse de que já se tinha ido. Aborto retido. Curioso nome, controvertido. Aborto e retido. Juntos. Não tem sentido. Como eu ia dizendo, não sei porque tento me lembrar desse momento e das exatas palavras usadas. "Infelizmente..." Acho, e eu digo acho porque tive que procurar uma resposta dentro de mim, e o que encontrei foi que: eu fico lembrando do que primeiro escutei da médica porque apesar de ter funcionado como uma cortina fechando um triste ato final, apesar de triste, essa palavra, ainda assim, contém um radical bom. E foi a isso que me apeguei: à pessoa feliz que fui e às mudanças radicais que mesmo em tão pouco tempo esse feijãozinho me fez sentir. Me fez. Sentir. Já se tinha ido e, no entanto, ficou no meu ventre por mais 4 semanas e alguns dias, não porque ele precisava, pois já sem vitalidade, mas porque eu precisei, porque ele, o feijãozinho, que pode ter sido ela, precisou ficar a mais em mim a exata medida de tempo até eu inevitavelmente tomar conhecimento da situação. Precisou ficar mais, porque eu precisei que continuasse me dando: vida. E mesmo no tão pouco tempo que ficou, mesmo já tendo ido, sem ter ido, me deu: sentido. Foram e estão sendo os meus dias mais intranqüilos. Ontem à noite, deitada na cama do quarto 202 da Clínica Santa Clara, exatamente no quarto em que minha mãe ficou comigo quando vim ao mundo, e que, por brincadeira de mau gosto ou por ironia do destino, ficava justamente de frente para o berçário, ontem, deitada naquela cama, vi todo um futuro escorrer entre as minhas pernas. A dor me fazia querer espernear na cama, querer gritar, querer sair correndo dali, me fazia achar que estava a ponto de perder o juízo, mas a dor, mesmo que tanta e imensa, e eu falo pouco da dor física, não me fez sentir em nenhum momento arrependida. Ao acordar da anestesia, hoje pela manhã, ainda triste, para minha surpresa, a matéria que mais menos me agradou nos tempos de escola, se me apresentou, em silêncio e sem que ninguém percebesse, como dois braços estendidos para um abraço. Percebi que uma simples operação matemática, das mais básicas, me oferecia alterar todo o resultado da questão para uma conclusão positiva. Calculei todos os acontecimentos correlacionando-os diretamente ao verbo ser no pretérito perfeito da primeira pessoa do singular. Apesar do curto espaço de tempo que me fora concedido tê-lo comigo, ele ou ela, cheguei ao seguinte resultado, onde fui = x, sendo x = "infelizmente"  -" "   -in  -mente .:. temos que fui 
feliz.













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