terça-feira, 27 de dezembro de 2016

27/12/2016







se me perguntarem, na pedra, quando estiver não ela mas eu já fria,
e eu não responder, é porque estarei dormindo;
na ausência da minha resposta, peço a quem, mediante esta, souber
que responda por mim ao pretenso coveiro
dizendo-lhe que cave, mas bem menos do que está acostumado,
não porque seja eu pequena, e não é que eu seja grande,
mas porque irei pela metade,
em uma alusão à minha vida embora;
vou esvair-me ardendo em chamas:
como sempre gostei de sobreviver;
diga-lhe não fazer falta tanta terra, desnecessário tanto suor,
cave apenas um pequeno oco, da terra guardando apenas um bom punhado,
e aonde todos pensarem ser o fim, cave ali um pequeno buraco; depois,
diga-lhe para reservar um tempo para caminhar, que lhe deixe a sós, dispense-lhe 
gentilmente seus préstimos, quando estiver o coveiro já longe, vire-lhe as costas,
e aos teus próprios pés mira aquele insignificante espaço:
nessa grande insignificância que terá sido na terra um espaço da profundidade de uma mão:
enterrarás uma semente somada à metade das minhas cinzas, fazendo com que sirva para algo quem nunca antes fora morta, tampouco viva; requer-se ainda
a tua lágrima, se mentires, não importa, dela deverá a terra ser aguada,
daí já quase te podes ir; antes de te desfazeres do que te sobrou, atenta-te a isto:
da outra metade que vai-te ficar nas mãos, antes que a jogue, te recordo:
das cinzas que restarem, junte-as todas, leve-as para casa e, lá, não as guarde, 
mas coloque-as em um cristal, em uma mesa perto da janela; todos os dias,
depois das quatro da tarde, quando o sol abrandar e os ventos soprarem serenos, 
tu regarás as cinzas que te ficaram, pouco a pouco, como se de flores tratassem, fio a fio, 
tornando-as tinteiro, e com a ajuda de uma pena - e de uma haste -, 
farás das cinzas filigranas com água, 
sob o labor da tua mão
escrevendo sobre mim.




















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