sábado, 20 de maio de 2017

20/05/17




era pra nesses dias eu estar parindo um filho. ao invés disso, 
passo agora por um parto de muito mais risco,
mais ainda do que aquele que não foi
- e que mesmo sem ter sido me riscou.
pesam-me as dores de um parto que não sei 
se ou quando irá acabar e nem quem irá sobreviver, se eu 
ou este novo ser que ameaça sair.
ocorrendo a primeira hipótese, certamente
não haverá nela nenhuma espécie de beleza, 
pois terei sido uma infanticida. ao contrário da primeira,
na segunda hipótese os horizontes são mais belos.
e como venha essa a prevalecer, malgrado bela,
nesse futuro está guardado também um pouco de fealdade, 
que nada mais é do que o costume que a vida tem
de ser leal a uma dose diária de feiume que lhe garanta a todo custo formosura,
arrancando dos nossos olhos lágrimas e testando todos os dias o nosso estômago
- afinal, no dos outros é refresco. e é assim que provavelmente a criatura irá ouvir,
pelo menos uma vez na vida, em alto e bom som, um belo 'vá pra puta que lhe pariu', 
ao que possivelmente e com muita graça irá corrigir, 
calmamente balançando o dedo indicador em forma de negativa, enquanto caminha e diz:
'pra puta que me pariu, não, amigo, pra puta me pariu, não! mais respeito comigo: 
pro filho, amigo, pro filho!' e ainda balançando o indicador, continuará andando normalmente o seu caminho, dando as costas àquele filho da puta que lhe gritou, 
desrespeitando a própria mãe que com esse ofício labuta 
- pra manter vivo o grito desse que a perjura.