sábado, 3 de junho de 2017

03/06/2017




O cachorro está uivando
tem mais de dez minutos,
eu não contei o tempo, mas eu sei.
como contar o tempo? com uma invenção humana chamada calendário 
e com outra chamada relógio, que, juntas, reforçam a invenção maior humana, 
que só serve pra fazer a gente ter de lidar com a velhice 
e achar que existem períodos e histórias apartadas 
e que a gente nasce e morre, 
quando na verdade envelhecer é uma espécie de rejuvenescimento da alma, 
quando na verdade não existe passado nem futuro, 
que tudo o que foi e o que será é o que somos, 
quando na verdade essas invenções e a invenção maior humana só servem 
para nos iludir com a sensação que nos dá mirar o relógio que mostra 
os segundos minutos horas passados e futuros, 
no calendário os dias meses anos
e os aniversários, para aparentarmos mudados, 
quando na verdade não há verdade,
nada está passando, 
nem segundo nem minuto nem hora nem os dias meses anos, 
nada está passando que não sejamos nós, os mundanos,
tão cheios de nós mesmos, tão convencidos da nossa própria invenção, 
da nossa própria mentira, do alto do nosso despeito 
diante dos pequeninos senão ínfimos ponteiros 
não percebemos que nós é que somos 
os próprios ponteiros de nós mesmos,
carregando nos pulsos uma pequena metáfora da humanidade, 
feita na medida exata para ocultar o quão grande é a mentira ali escondida, 
o relógio pontualmente anuncia, com seu toque surdo e discreto, 
a maior metalinguagem por nós concebida, 
que foi a invenção do
tempo:
rasgamos as folhas dos calendários, vemos os ponteiros avançar, não o escutamos, 
não o enxergamos, tão convencidos que estamos, passando por cima do que sentimos
em prol da máquina que criamos, só para acreditar que não somos 
loucos, 
porque não o tempo: 
nós 
é que passamos,
não importa quão bem passado esteja teu fato,
o quão alinhado esteja teu cabelo ou afeitada a tua barba,
pó de arroz que cintila na tua face ou a perfeição do rouge nos teus lábios,
a brancura imaculada do teu vestido de linho ou a forma ininterrupta dos teus cachos,
não importa se há uma pulseira de couro, de corda, de aço ou de ouro no teu braço,
o homem leva o relógio, 
mas é o relógio que leva o homem

 shelley o saberia.



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