quinta-feira, 17 de agosto de 2017

07/05/2017






não precisei usar as chaves. havia música tocando baixinho, mas em um volume exato para abafar o som da porta abrindo e ao mesmo tempo manter audível os outros sonidos. na nossa casa nunca antes havia tocado música. estranhei, mas não fiz nenhum alarde. descalcei os pés e fui, como de costume, com meus passos curtos e desapressados, entrando pela casa por uma entrada que me parecia nova porque a música se ouvia desde o lado de fora, e se ouvia como se desde fora me recepcionasse. enquanto avançava pelo corredor em direção ao quarto, mais meus ouvidos ouviam, a cada passo dado, mais ouvia alto os sons de gemidos, no plural, nunca ouvidos por aquelas paredes, tão insólitos, tão diferentes que, rente a parede, os fui perseguindo até me deparar com o quarto ao fim do corredor, cuja porta se encontrava entreaberta, e ali, com os sapatos na mão esquerda e as chaves de casa na mão direita, me detive, como se de uma festa em que eu não houvera sido convidada ou como se de uma propriedade alheia tratasse, como se em qualquer hipótese existente eu não fosse desejada, e que não me cabia sequer espaço para pedir licença, pois os sons que eu ouvia daqueles corpos nus já funcionavam como uma grande placa que me dizia não ser eu bem-vinda. e como posso eu ter bem vindo até aqui se mal pude andar com o que se agigantava nos meus ouvidos quanto mais eu me aproximava, se mal pude falar, como posso eu ter bem vindo, se com os sapatos na mão esquerda e as chaves de casa na mão direita nesse caminhar uma tempestade derrubou todos os pilares que haviam dentro de mim e eu me afoguei de tanto teu corpo em outro enquanto as peles e os lençóis que caíam e os suores que desciam e as bocas e os gemidos que lhe saíam enquanto eu fiquei, ao pé da porta, chuvendo tudo... e então eu saí como se nunca tivesse entrado, a não ser pela porta, que deixei como a encontrei, mas não como sinal de já não seres bem-vindo, mas como sinal de seres tu bem-saído, como se a porta do jeito que a deixei te mencionasse acolhida de um mundo que por essa mesma porta irás de sair para adentrar a tua nova vida. indiferente, notarás as poças d'água no corredor até porta, que encontrarás entreaberta e irás reputar dever-se isto a uma pequena tempestade que passou - e que, por certo, não escutaste - e a deixou assim, metade fechada e metade escancarada, mas certamente não se te ocorrerá nunca que  tempestade nenhuma passou e que na verdade quem passou aqui fui eu.













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